Tenente-coronel réu por feminicídio intimidou PMs e tentou culpá-los por mexer em cena do crime

Agentes foram ao apartamento onde soldado Gisele Alves morava com Geraldo Neto logo após ela ser morta. Ele desrespeitou orientação para não se lavar: 'Vou tomar banho, irmão'. Defesa nega que ele tenha assassinado a mulher

20 mar 2026 - 23h48

Câmaras corporais dos policiais que atenderam a ocorrência do caso da soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, morta no dia 18 de fevereiro, registraram o comportamento agressivo e autoritário do tenente coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos. Durante a ocorrência, ele tentou culpar os PMs por mexerem na ceda do crime.

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Os PMs estiveram no local após Geraldo acionar socorro alegando que a mulher tinha cometido suicídio - versão que ele manteve em audiência de custódia. Mais de 30 dias após a morte de Gisele, o militar está preso suspeito de feminicídio e fraude processual. Ele nega ter cometido os crimes.

De acordo com investigações, os diálogos entre os policiais e Geraldo Neto demonstram que os agentes desconfiaram do comportamento do tenente-coronel, que desrespeitou orientações dos soldados e até ligou para um desembargador, amigo pessoal, para acompanhar a ocorrência.

Câmera corporal de PM registra conversas de tenente-coronel com policiais militares após morte da soldado Gisele Alves Santana.
Câmera corporal de PM registra conversas de tenente-coronel com policiais militares após morte da soldado Gisele Alves Santana.
Foto: Reprodução/Polícia Civil via Polícia Militar / Estadão

As imagens mostram que Geraldo Neto teve uma postura de intimidação sobre os policiais quando um cabo tentou impedi-lo de tomar banho antes de se apresentar à delegacia - o banho pode eliminar provas, como resíduos de pólvora, e comprometer as investigações. Geraldo também chegou a culpar os militares por mexer na cena do crime.

Em trecho do relatório da análise das câmeras corporais, obtido pelo Estadão, a Polícia Civil classificou as atitudes do tenente-coronel como "suspeitas".

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"Esses registros capturaram o calor do momento da ocorrência e revelam atitudes altamente suspeitas do Tenente-Coronel Geraldo Neto, além da clara estranheza das equipes policiais em relação à cena do crime e ao comportamento do investigado".

Geraldo afirma que apartamento foi alterado e questiona PMs

Por volta das 09:07, o coronel foi na porta do seu apartamento com a intenção de entrar no local. As câmeras corporais mostram um tenente, identificado como Lucas, informando que o local estava preservado para a perícia, mas autorizou a entrada do tenente-coronel.

Às 09:08:10, o cabo identificado como Fernandes, pede para Geraldo Neto pegar o que for necessário.

Cabo Fernandes: "Pedir só pro senhor pegar o que for do senhor mesmo".

Tenente-coronel Neto: "Isso aqui não estava assim, quem que fez isso?", questiona

Cabo Fernandes: Senhor, toda ocorrência é filmada. O senhor é mike (termo que significa policial militar), não é? Senhor não é mike? Então o senhor sabe que toda ocorrência é filmada, então é o tipo de questionamento que não cabe mais. senhor tiver que pegar ai o senhor pega.

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Tenente-coronel Neto: Então deixa eu falar uma coisa pra você: eu sei o que eu estou falando, então assim na hora, deixa te explicar, isso aqui não estava assim não fui eu que fiz".

Tenente Lucas, então, determina ao cabo Fernandes que ninguém mais mexa no local.

Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi morta em 18 de fevereiro com um tiro na cabeça disparado pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53
Foto: Reprodução / Estadão

Para a polícia, uma questão crucial foi quando o tenente-coronel anuncia a intenção de tomar banho. A esposa já tinha sido levada para o hospital.

As câmeras mostram que o soldado Cicero dos Santos e o cabo identificado como Fernandes tentam impedir Neto, mas o militar reage de forma "ríspida", segundo a Polícia Civil, ao afirmar que "o local está preservado" e que "não vai fugir".

Como Neto já havia contado aos agentes que ele estava no banho quando Gisele atentou contra a própria vida, o Cabo Fernandes o questiona: "Você não disse que acabou de tomar banho?"

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Geraldo Neto responde: "Irmão, eu entrei no banho, liguei o chuveiro, eu tava aqui tomando banho, daí eu escutei o barulho e eu abri a porta. Peguei essa bermuda que tava aqui em cima, vesti a cueca e a bermuda, que eu não cheguei a tomar banho. Eu nem fiz a barba ainda, fazia um minuto que eu tava embaixo do chuveiro, irmão."

Para a polícia, neste momento, Geraldo Neto "revela, pela primeira vez, a incoerência fundamental de sua versão". Na sequência, o embate continua e os dois travam o seguinte diálogo:

Cabo Fernandes: "É que o senhor sabe da burocracia que é né, você sabe da burocracia que é na PM, então quanto mais rápido agilizar.. se o puder só colocar uma camiseta".

Tenente-coronel Neto: "Irmão, eu tenho 34 anos de serviço. Eu sei o que eu tô falando. Eu vou tomar banho, irmão!"

Cabo Fernandes: O senhor não quer colocar uma camiseta e um short rapidinho.

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Tenente-coronel Neto: Não, eu não vou, eu não tô bem para ir assim, eu vou tomar um banho.

O cabo Fernandes chega a comentar com um capitão, em tom de indignação: "(O) Cara vai lavar a mão, c**."

Geraldo Neto foi preso na última quarta-feira, 18, suspeito de feminicídio e fraude processual.
Foto: Reprodução TV Globo / Estadão

"Às 09h14min05s, o Cabo questiona ao Tenente Lucas sobre o exame residuográfico e, especialmente, se permitiriam ao investigado tomar banho, alertando que, caso o fizesse, 'perderia tudo', referindo-se às evidências corporais", diz trecho do inquérito.

Um policial superior orientou Fernandes a relatar a postura de Neto no boletim de ocorrência.

'Fortes desconfianças'

Na câmera corporal do Tenente Lucas, a polícia viu que o militar relatou "fortes desconfianças" a outros dois oficiais com relação a Geraldo Neto. Em um dos trechos Lucas aponta que o tenente-coronel "não tinha nenhuma marca de sangue no corpo", o que considerou "muito atípico".

"Ele não tem marca de sangue com ele porque geralmente quando você sai e vê alguém com um disparo, você não abaixa e pega o armamento? você não vê se tem pulsação? (...) a pessoa geralmente tenta socorrer, abraça a pessoa, não é? Não tem nada, não tinha sangue com ele. É estranho", relatou o tenente.

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O oficial afirma também que achou estranho o fato de que a primeira atitude de Geraldo tenha sido ligar para um desembargador e também que o tenente-coronel ficava enfatizando detalhes do episódio sem necessidade, como o fato de a arma estar em um local destrancado, em cima do armário.

"O armamento é dele, ele estava no local, ela está com um tiro na cabeça e tem alguns detalhes ali que eu não entendi. Mas eu não ligo para desembargador para vir no local, certo?", chega a questionar o tenente em diálogo com o cabo Fernandes.

O desembargador no caso é Marco Antônio Pinheiro Machado Cogan. Ele prestou depoimento à Polícia Civil e afirmou ser amigo pessoal do tenente-coronel.

Conforme o relatório final, as investigações concluíram que o magistrado apresentou depoimento consistente "com a postura de quem agiu movido exclusivamente pela lealdade pessoal ao amigo", e que Cogan "não teve intenção de influenciar os rumos da investigação".

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