Sob risco de perder contrato por causa de apagões, Enel nega que vai tentar vender operação em SP

Abertura de processo de rescisão reacendeu discussões sobre a venda da concessionária

10 abr 2026 - 12h03

A distribuidora de energia Enel informou nesta sexta-feira, 10, não estar negociando a venda de sua operação na Grande São Paulo. A manifestação é feita na semana em que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) iniciou o processo de rompimento do contrato da empresa na região.

Publicidade

Como o Estadão mostrou, o setor e autoridades apostam na venda da operação da companhia para outro grupo como solução para que a Enel escape da rescisão. Foi o que a multinacional italiana fez em 2022 em Goiás, ao vender a concessão no Estado para a Equatorial.

"A Enel reafirma o interesse na renovação da concessão em São Paulo e nega especulações sobre negociações ou discussão envolvendo a troca de controle da distribuidora", afirmou em nota nesta sexta.

A concessão da distribuidora acaba em 2028. Embora a empresa tente estender o contrato por mais 30 anos, a renovação está impedida enquanto o processo de caducidade estiver aberto. Só com eventual arquivamento do caso é que a companhia poderia assinar com o governo a sua continuidade até 2058 — isso se houver interesse do Ministério de Minas e Energia.

"A empresa reitera que sempre confiou na atuação isenta e independente do regulador, na segurança jurídica e no histórico de respeito aos contratos no País", afirmou, sobre a decisão da Aneel.

Publicidade

Publicamente, a Enel já vinha negando o interesse na venda. A reportagem apurou com autoridades que acompanham o caso que a resistência se deve ao fato de que a companhia ainda não recuperou parte do investimento feito com a compra da Eletropaulo, por R$ 5,5 bilhões, em 2018.

Mesmo que o governo indenize parte dos gastos da Enel na concessão (como equipamentos e infraestrutura), a companhia teria receio de vender a operação por um valor menor do que aquele pelo qual a adquiriu em 2018 — justamente pela crise reputacional com os apagões e pelo processo de rescisão.

Na nota desta sexta, a empresa destacou ainda "seu compromisso de longo prazo com o Brasil, País que é e sempre foi estratégico para a Enel".

A italiana ainda disse que o momento pede soluções estruturais para enfrentar o impacto das mudanças climáticas em São Paulo, o que inclui, segundo a empresa, todas as autoridades e a sociedade.

A empresa ainda defendeu ter investido um volume recorde de recursos na concessão. Disse ter gasto quase R$ 5 bilhões na Grande São Paulo nos últimos dois anos e contratado 1.600 profissionais para reforçar a operação de campo.

Publicidade

"Como resultado, o tempo médio de atendimento aos clientes reduziu em cerca de 50% em 2025 em relação a 2023 e o porcentual de interrupções prolongadas caiu 86% no mesmo período."

O Estadão também mostrou nesta semana que potenciais interessados em comprar a operação da Enel em São Paulo são Copel, CPFL, EDP, Energisa, Equatorial e Neoenergia. Além disso, há a J&F, dos irmãos Batista, que fizeram aquisições recentes no setor elétrico.

Em entrevista ao Estadão, o diretor da Aneel Gentil Nogueira de Sá Júnior apontou que, mesmo se a agência recomendar a caducidade e o governo federal decretar a rescisão, eventual saída da Enel deve demorar de um ano e meio a dois. "Por ser um processo com potencial litigioso, não é difícil que se arraste." Nesse período, no entanto, o contrato da empresa já estará prestes a vencer.

Ele avalia que eventual interessado em comprar a operação da Enel em São Paulo tentará negociar com a agência a renovação do contrato até 2058 e um período de dois a três anos em que não poderá ser penalizado por eventos extremos para que ele adote as melhorias necessárias para dar mais resiliência à rede.

Publicidade

Gentil ainda defende que os novos contratos de concessão do setor — regulados pelo Decreto nº 12.068/2024 — vão melhorar a distribuição de energia no País. "Havendo um novo contrato nos moldes do decreto, a percepção de qualidade do serviço pela população tende a melhorar muito, independentemente de quem vai ser o operador."

Ele pondera, no entanto: "Não vai resolver no dia seguinte. Para melhorar o atendimento, exige-se um nível de investimento grande".

Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações