'PM cancelou salário de tenente-coronel quando ele foi preso', diz nº 2 da Segurança de SP

Segundo secretário executivo da SSP, Henguel Ricardo Pereira, Geraldo Neto, réu por feminicídio da soldado Gisele Alves, foi transferido para reserva, mas não receberá pagamento

2 abr 2026 - 20h18
(atualizado às 20h27)

Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.

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O secretário executivo da Segurança Pública de São Paulo, o coronel da Polícia Militar Henguel Ricardo Pereira, afirmou que o tenente-coronel da PM Geraldo Leite Rosa Neto parou de receber salário da corporação quando foi preso preventivamente por feminicídio e fraude processual em 18 de março.

Réu na Justiça Militar e na Justiça Comum, Geraldo Neto é o principal suspeito de matar a esposa, a também policial Gisele Alves Santana, em 18 de fevereiro. O tenente-coronel nega e alega que ela atentou contra a própria vida com um tiro na cabeça.

"A PM cancelou o salário dele quando ele foi preso. Quando o militar é preso por qualquer tipo de crime, de imediato o salário dele é cancelado. Foi isso que foi feito", afirmou Henguel ao Estadão nesta quinta-feira, 2.

Nesta quinta, a PM transferiu a pedido para a reserva o tenente-coronel, que tem 53 anos. A medida havia sido solicitada pelo próprio tenente-coronel.

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A transferência à reserva foi publicada nesta quinta-feira, 2, no Diário Oficial do Estado. Segundo a portaria, Geraldo Neto irá receber a aposentadoria "com os proventos (salário) integrais".

Em fevereiro, mês em que Gisele foi morta, o salário bruto dele foi de R$ 28.946,81, de acordo com o Portal da Transparência do Estado. Ele recebeu R$ 15.092,39 de salário líquido.

Em 18 de março, ele foi preso preventivamente por feminicídio. Com isso, ele perdeu o direito ao salário da Polícia Militar. Isso porque o decreto-lei nº 260, de 29 de maio de 1970, determina que policiais militares presos não receberão remuneração da corporação.

Dessa forma, mesmo na reserva, ele não receberá a aposentadoria neste momento.

Em março, a Corregedoria da Polícia Militar abriu um processo de expulsão do tenente-coronel. Se a expulsão for confirmada, ele perderá definitivamente o salário, sua patente e cargo. Caso ele seja condenado na Justiça Civil, ele também perde os mesmos benefícios.

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A Secretaria da Segurança Pública afirmou que o processo continua em análise mesmo após a transferência do oficial para a reserva.

"A Polícia Militar reafirma seu compromisso com a legalidade, a disciplina e a preservação dos valores que regem a atividade policial militar", informou em nota.

Como Geraldo Neto já tem mais 30 anos de contribuição previdenciária, ele pode recorrer à Justiça para receber a aposentadoria pela São Paulo Previdência (autarquia responsável pela gestão das aposentadorias e pensões dos servidores públicos e militares do Estado).

"É uma questão legal e constitucional. Ele contribuiu por mais de 30 anos. Não é uma questão facultativa da Polícia Militar. Não somos nós que estabelecemos isso. É a Constituição que estabelece que quem contribui no regime previdenciário tem esse direito", afirmou Henguel.

Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi morta em 18 de fevereiro com um tiro na cabeça disparado pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53
Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi morta em 18 de fevereiro com um tiro na cabeça disparado pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53
Foto: Reprodução / Estadão

Entenda o caso

Gisele morreu com um tiro na cabeça na manhã de 18 de fevereiro, no apartamento em que ela vivia com o marido, o tenente-coronel Geraldo Neto. Só o casal estava em casa.

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Geraldo Neto contou à polícia que a mulher se suicidou depois que ele manifestou a ela o desejo do divórcio.

O caso foi inicialmente registrado como suicídio, mas foi modificado para morte suspeita após a família da vítima relatar que ela vivia uma relação abusiva, com excesso de controle e ciúmes por parte de Geraldo Neto.

A polícia afirma que a versão do tenente-coronel não se sustenta e que Gisele foi assassinada pelo marido, ou seja, foi vítima de feminicídio. A conclusão foi feita com base em uma série de indícios técnicos que a perícia encontrou durante a apuração do caso.

Entre as evidências estão marcas de unha na região do pescoço e do rosto de Gisele; manchas de sangue dela no banheiro, na bermuda e na toalha de Geraldo Neto; a maneira como a arma foi encontrada na mão da vítima e o modo como o corpo da policial estava disposto no chão, indicando uma provável manipulação da cena do crime.

Outro importante elemento explorado pelos investigadores foi a relação do casal. A Polícia Civil extraiu as mensagens trocadas por Geraldo Neto e Gisele, e o que eles encontraram foi o retrato de um casal que vivia com constantes brigas, instabilidade, mas também o de uma mulher submetida a um casamento de muito controle, submissão e ciúmes.

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Para a polícia, esses diálogos desmentiram a versão do tenente-coronel de que ele desejava o divórcio. O interesse pela separação, na verdade, partia de Gisele e era Geraldo quem impunha uma resistência a esse término.

A corregedoria da Polícia Militar também abriu uma investigação e tanto a Justiça Militar como a Justiça Comum decretaram a prisão do tenente-coronel. Geraldo Neto foi detido no dia 18 de março e aguarda julgamento.

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