Moradores de São Sebastião relatam medo de invasores de terras: 'Tomara que não seja meu último dia'

Grilagem, construção irregular e desmate avançam na região; Secretaria da Segurança diz que suspeitos de 'empreendimentos clandestinos de ocupação do solo' estão sendo identificados

10 mar 2026 - 05h42

A vendedora Solange (nome fictício) acelera o passo rumo ao ponto de ônibus enquanto recorda a proposta que recebeu meses atrás no bairro Piavú, perto da Praia de Camburi, em São Sebastião, litoral norte de São Paulo.

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"Eles queriam R$ 40 mil num terreno lá no fundão (do bairro). Mas era contrato de gaveta (cujo registro fica no nome de outra pessoa). Eu não quis. De uma hora pra outra, a gente pode perder, né? O que existe de terreno (à venda) lá é uma verdadeira máfia", relata ela.

A construção de novos imóveis naquela área é vedada por ser uma área congelada pela Justiça. Durante a conversa de Solange com a reportagem do Estadão, um Volkswagen Golf preto passa duas vezes em menos de 15 minutos. Ela trava e reconhece quem dirige. Olhos arregalados, mão na boca.

"A senhora está com medo?", pergunto. Ela apenas acena. "Do quê?" Novo silêncio.

Depois que o veículo se afasta, ela pede que a reportagem não exiba sua imagem nem mesmo seus pés, com sandálias doadas pela comunidade. "Tomara que não seja o meu último dia aqui na Terra", diz.

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Desmatamento em Camburi, São Sebastião, nas proximidades da Rodovia Rio-Santos
Desmatamento em Camburi, São Sebastião, nas proximidades da Rodovia Rio-Santos
Foto: Tiago Queiroz / Estadão / Estadão

Como o Estadão mostrou, avançam na região o desmate e a invasão de terras, incluindo a "grilagem de luxo", quando há revenda de áreas para a construção de casas de veraneio. Famosa por ser um dos destinos turísticos preferidos dos paulistas, São Sebastião concentra algumas das mais importantes áreas remanescentes de Mata Atlântica do Estado.

As secretarias de Meio Ambiente do Estado e do município afirmam fazer fiscalizações (leia mais abaixo).

Já a pasta da Segurança Pública diz investigar "grupos articulados" por trás de "empreendimentos clandestinos". A polícia também apura se há elo com o crime organizado.

Investigadores, especialistas e moradores suspeitam de ação organizada dos criminosos, diante do uso de materiais caros, como tratores e motosserras, e também pelas estratégias recorrentes, como atuar em feriados ou no começo da manhã, para não chamar a atenção.

Depois, as quadrilhas têm esquemas para vender terrenos sem registros, por valores inferiores aos de mercado, ou forjar documentos de posse.

"O desmatamento ocorre de forma coordenada e planejada, quase sempre com o mesmo modo de agir, em ritmo mais rápido que os das próprias construções, nas mesmas épocas do ano", diz a advogada Fernanda Carbonelli, diretora-executiva do Instituto Conservação Costeira (ICC).

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Área desmatada e demarcada nas proximidades da rodovia Rio-Santos, em Camburi, litoral norte de São Paulo
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

O medo aparece em outros depoimentos de quem vive na região, marcada por ruas esburacadas e cercas feitas com restos de obras. Ambientalistas também registraram boletim de ocorrência relatando intimidações (leia mais abaixo).

Em outro acesso ao bairro, Maria (nome também fictício), que vive há 40 anos na região, conta que a mata tem sido ocupada em ritmo acelerado mais recentemente.

"Quando cheguei aqui, eram poucas casas. Hoje, tem vários bairros", conta, apontando em direção aos poucos vizinhos dos anos 1980. " Mas tem de ser assim...', diz, passando os dedos nos lábios como se estivesse fechando um zíper para ilustrar a necessidade de silêncio.

"Somos todos carentes aqui", afirma Solange. "A gente compra porque precisa de moradia", diz.

A Secretaria da Segurança Pública afirma que o 2º Distrito Policial de São Sebastião apura a ação de grupos "articulados em mais de uma região, estruturando empreendimentos clandestinos".

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A prefeitura de São Sebastião diz manter fiscalização contínua e relata 40 operações integradas em 2025, com 239 desmontes e 89 embargos.

Já a Secretaria de Meio Ambiente do Estado diz ter feito 1.386 ações de fiscalização no município entre 2023 e o ano passado. E cita "redução expressiva" dos autos de infração ambiental no período (de 236 pata 107). Ambientalistas, entretanto, apontam dificuldade de o poder público mapear os delitos.

MP pede explicações à prefeitura

O Grupo de Atuação Especial de Defesa do Meio Ambiente (Gaema) do Ministério Público de São Paulo pediu, em janeiro, explicações à prefeitura e à polícia sobre dezenas de denúncias sobre desmatamento, grilagem de terras e parcelamento ilegal do solo.

Os crimes acontecem dentro e fora da Área de Proteção Ambiental (APA) Baleia-Sahy, território de 4 milhões de m2 de Mata Atlântica com ecossistemas essenciais para a biodiversidade, a economia local e as comunidades tradicionais.

Áreas desmatadas são cobertas com entulhos e restos da construção civil para iniciar 'pavimentação' de ruas e acesso em Camburi, litoral norte de São Paulo
Foto: Tiago Queiroz/Estadão / Estadão

As vilas Piavú, Barreira, Barreirinha e Baleia Verde são, desde 2019, "núcleos congelados" por causa de ações civis públicas movidas pelo próprio MP e acatadas pela Justiça. O congelamento ocorreu numa tentativa de frear a ocupação irregular e a especulação imobiliária. Por isso, nesses locais novas construções são proibidas, mas é possível ver a venda de terrenos e a obras recentes.

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Outra área congelada é a Vila Sahy, onde uma tempestade recorde matou 52 pessoas em fevereiro de 2023. Como o Estadão mostrou, muitos moradores resistem a deixar a encosta, que tem risco de deslizamento sob chuva. O motivo, segundo eles, é ficar mais perto de locais onde podem trabalhar.

A gestão de Tarcísio de Freitas (Republicanos) informa que haverá em breve o lançamento de um programa de habitação social de 12 mil moradias - 6 mil delas no litoral norte. Já estão em andamento, ainda segundo o governo, empreendimentos com 512 unidades em São Sebastião e 200 em Caraguatatuba.

Escalada de denúncias

O ICC, entidade que luta pela conservação da Mata Atlântica e cogestora da APA Baleia-Sahy em parceria com a prefeitura de São Sebastião, registrou 79 denúncias de crimes ambientais em 2025, além de outras 22 em janeiro e fevereiro deste ano. Em 2024, 32 haviam sido protocoladas.

São relatos de supressão de vegetação, abertura ilegal de ruas, ocupações e parcelamentos clandestinos, além do lançamento de esgoto, extração irregular de areia.

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Áreas antes visíveis apenas por drone surgem agora expostas à beira da Rodovia Rio-Santos, como no km 168, onde o Estadão flagrou estacas e arame farpado que cercam um lote recém-desmatado.

No dia 4, funcionários do ICC registraram boletim de ocorrência no 2º DP por ameaça. Conforme o documento, proprietários de um estabelecimento comercial na Rodovia Doutor Manoel Hipólito do Rêgo, trecho paulista da Rio-Santos (BR-101), disseram que eles não deveriam voltar mais lá. Caso contrário, iriam atrás deles.

Décadas de ocupação desordenada como pano de fundo

Davis Gruber Sansolo, coordenador do Laboratório de Planejamento Ambiental e Gerenciamento Costeiro do Instituto de Biociências do Câmpus Litoral Paulista da Unesp, explica que o modelo de ocupação da região foi definido nos anos 1970, com a implantação da BR-101/SP-055.

"Com a rodovia, a região passou a adquirir valor imobiliário e atrair investimentos", afirma o geógrafo.

Área de desmatamento (centro da foto) pode ser vista na altura do km 168 da Rodovia Rio-Santos, perto de Camburi, em São Sebastião
Foto: Deividi Correa / Estadão / Estadão

Para as camadas de maior renda, São Sebastião e Ilhabela representam proximidade entre praias limpas e a Mata Atlântica protegida pelo Parque Estadual da Serra do Mar.

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Ao mesmo tempo, trabalhadores atraídos pelo boom de serviços encontraram poucas opções de moradia regularizada e passaram a ocupar encostas e várzeas. Foi assim que núcleos irregulares como a Baleia Verde surgiram nos anos 1990, espraiando-se ao longo da rodovia.

O alto preço da orla, os limites impostos por áreas protegidas e a proximidade entre a Serra do Mar e o oceano criaram uma combinação explosiva.

A valorização recente das terras está ligada à melhoria dos acessos, como a duplicação da Rodovia dos Tamoios e a conexão com o sistema Anchieta-Imigrantes.

Com isso, a disputa fundiária se soma ao histórico déficit habitacional e à falta de terrenos seguros e acessíveis.

"A valorização imobiliária se intensificou, sobretudo quando São Sebastião passou a substituir o Guarujá como destino preferencial de investimentos em segundas residências", afirma Sansolo, da Unesp. "Esse processo aprofundou a especulação fundiária e empurrou a população de menor renda para áreas ambientalmente frágeis."

E a ocupação desordenada, somada à maior frequência de eventos climáticos extremos, eleva o risco de novas tragédias, como a da Vila Sahy em 2023. "É preciso que o congelamento dos núcleos saia do papel e seja colocado em prática para que as construções não avancem mais", cobra Fernanda Carbonelli, também membro do Conselho Estadual de Meio Ambiente.

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