'Jamais, nunca será' solteira, disse tenente-coronel para a mulher dias antes dela ser morta

Fala contradiz versão de Geraldo Neto, preso suspeito de feminicídio da soldado Gisele Alves. Militar alega que esposa se suicidou por conta do desejo dele de se divorciar; defesa não comentou teor das mensagens

20 mar 2026 - 08h24
(atualizado às 09h16)

Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.

Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi morta em 18 de fevereiro com um tiro na cabeça disparado pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53
Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi morta em 18 de fevereiro com um tiro na cabeça disparado pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, de 53
Foto: Reprodução / Estadão

Mensagens trocadas entre a soldado da Polícia Militar, Gisele Alves Santana, de 32 anos, e o marido, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, 53, dão indícios do comportamento agressivo do policial e do relacionamento abusivo.

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Conforme as investigações da Polícia Civil, a mulher já havia anunciado ao militar a decisão pelo término do casamento e falado até sobre a documentação do divórcio.

Gisele foi morta com um tiro na cabeça no dia 18 de fevereiro, no apartamento onde o casal vivia, no Brás, região central de São Paulo. Na última quarta-feira, 18, Geraldo Neto foi preso, suspeito de feminicídio e também pelo crime de fraude processual. Procurada, a defesa do militar, que nega que ele tenha matado Gisele, não retornou aos contatos da reportagem.

Segundo o tenente-coronel, Gisele teria cometido suicídio enquanto ele tomava banho. Neto afirma ainda que a mulher teria atentado contra a própria vida após ele declarar a ela o desejo de romper a relação.

Contudo, prints de conversas anexados ao relatório final da investigação da Polícia Civil, obtido pelo Estadão, mostram que era Gisele quem demonstrava o desejo de se divorciar. Geraldo resistia e não aceitava o fim do casamento.

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Tenente-coronel Geraldo Neto demonstrou não aceitar o divórcio desejado pela soldado Gisele Alves.
Foto: Polícia Civil/Reprodução / Estadão

Os trechos foram extraídos do celular do tenente-coronel pelos investigadores. A Polícia Civil entende que esses diálogos são o "ponto central do relatório" porque revelam "um retrato sombrio e documentado da dinâmica do casal".

Polícia diz que Gisele afirmou querer o divórcio

De acordo com a Polícia Civil, em mensagens enviadas dias antes do crime, Gisele "é categórica e escreve: 'Quero o divórcio'", e chega até a pedir para ele mandar os documentos da separação na mesma semana. Segundo a polícia, ele declara: "Se considere divorciado".

Nos dias anteriores, Gisele teria deixado claro que a relação havia acabado, enviando mensagens como: "acabou a admiração", "acaba tudo", "vamos separar" e "não tem como viver assim".

Outro exemplo é uma mensagem em que Gisele escreve "praticamente solteira", à qual Geraldo rebate: "Jamais! Nunca será". "A reação imediata do tenente-coronel Geraldo é de extrema possessividade e negação", descreve a Polícia no relatório.

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Não é possível saber com precisão a data em que a mulher envia o texto, mas o tenente-coronel a responde no dia 13 de fevereiro, cinco dias antes da morte.

"Diferentemente do aventado pelo indiciado, a questão do divórcio é o ponto central do conflito do casal e revela uma contradição gritante entre a versão oficial apresentada por Geraldo e a realidade documentada nas conversas de WhatsApp e depoimentos de familiares", afirma a polícia, em outra parte do relatório.

Trechos da conversa entre a Policial Militar Gisele Alves e o marido, o tenente-coronel da PM, Geraldo Neto.
Foto: Polícia Civil/Reprodução / Estadão

Machismo, controle e submissão

No relatório da investigação, a Polícia Civil afirma que o conteúdo extraído das conversas expõe aspectos de "machismo, controle e submissão".

No dia 2 de fevereiro, Gisele escreve: "Acho que 'vc' está me confundindo, Neto, eu cansei de tentar conversar com 'vc' sobre nós dois".

O tenente-coronel, então, responde no que aparenta ser uma lista de obrigações que a mulher deveria cumprir: "Fotos juntos no perfil; casados na bio (referente ao texto de apresentação nas redes sociais); não cumprimentar homens com beijo no rosto ou abraços; não usar roupas (...) coladas".

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Gisele critica a forma como é tratada e fala, mais uma vez, em separação: "Se pensa isso de mim, realmente temos que separar (...)".

Geraldo volta a responder de modo a indicar a maneira como a esposa deveria se comportar: "Mulher comprometida tem que ter foto junto com o namorado ou marido. Para outros machos ver (sic) a foto juntos e já entenderem direto (sic). A mulher comprometida não cumprimenta homem com beijo no rosto".

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Em outra mensagem, Geraldo usa o fato de pagar as principais despesas do casamento como justificativa para impor regras na relação — ato que a polícia descreveu como "mercantilização" do casamento. "Enquanto vc estiver casada comigo e vivendo na minha casa, na minha comanda, as coisas serão do meu jeito".

No dia 16 de fevereiro, dois dias antes do suposto feminicídio, Geraldo disse que tratava a esposa como "todo macho alfa trata esposa", e cita: "Com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser".

Para a Polícia Civil, "Neto demonstra uma personalidade extremamente dominadora e com visões distorcidas sobre o papel da mulher no casamento, exigindo obediência cega e usando termos depreciativos para enquadrar Gisele em um papel de subordinação".

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Agressões e ameaças

Nos trechos extraídos, os investigadores também encontraram uma fala de Gisele na qual a polícia identificou indícios de agressão física e psicológica.

Em um áudio transcrito, ela chega a afirmar, segundo a extração: "Ontem enfiou a mão na minha cara, sim, e você sabe que fez isso. Você estava na pia, eu estava falando com você. Você enfiou as duas mãos assim, com o sinal de 'joinha', na minha cara".

Segundo a Polícia Civil, Geraldo também teria atacado a soldado de forma verbal, chamando-a de "lixo", "sem teto", "burra" e tratando-a de forma inferiorizada por conta da sua patente.

Trecho da conversa em que Gisele afirma que o Geraldo coloca as duas mãos na sua cara. Gesto que foi interpretado pela Polícia Civil que foi uma agressão física.
Foto: Polícia Civil/Reprodução / Estadão

"A análise demonstra uma escalada na violência. Inclusive, Gisele relata episódios de descontrole, dizendo que Geraldo 'começou a berrar no sofá descontrolado' e que é ignorante e intolerante", afirma trecho do relatório.

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O que diz a defesa de Geraldo Neto

A defesa de Geraldo Neto foi procurada para comentar o teor dos conteúdos, mas não quis se manifestar. O espaço segue aberto.

Em ocasiões anteriores, os defensores do tenente-coronel afirmaram que informações e interpretações da "vida privada" do militar estão sendo divulgadas "por meio de conteúdos descontextualizados" e que atingem a honra e a dignidade do policial militar.

"No momento oportuno, sua equipe jurídica irá reprochar toda e qualquer divulgação ou interpretação que venha a vilipendiar tais direitos em relação ao tenente-coronel", disse a defesa, em nota.

Tenente-coronel da Polícia Militar, Geraldo Leite Rosa Neto, foi preso em um imóvel em São José dos Campos (SP)
Foto: Reprodução TV Globo / Estadão
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