Coração de São Paulo, Mercadão enfrenta críticas por perda de identidade

Ao Terra, comerciantes tradicionais afirmam que o Mercadão está, lentamente, se esquecendo quem sempre foi

25 jan 2026 - 07h10
Mercadão de São Paulo completa 93 anos em meio a transformações e disputas sobre seu futuro
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O Mercado Municipal de São Paulo não é apenas um prédio. É um ancestral que respira. Respira frutas maduras, carne fresca, especiarias trazidas de longe e histórias que atravessam gerações. Desde 1933, quando foi inaugurado às margens do Rio Tamanduateí, o Mercadão pulsa como um coração no centro da cidade -- recebendo gente de todos os cantos, alimentando corpos, culturas e memórias.

Mercado Municipal de São Paulo, popularmente conhecido como Mercadão, foi reinaugurado nesta segunda-feira, 20, após a finalização de parte das obras de restauro.
Mercado Municipal de São Paulo, popularmente conhecido como Mercadão, foi reinaugurado nesta segunda-feira, 20, após a finalização de parte das obras de restauro.
Foto: Werther Santana/Estadão / Estadão

Construído pelo arquiteto Francisco Ramos de Azevedo, responsável por marcos como o Theatro Municipal e o Palácio das Indústrias, o edifício nasceu em 1933 inspirado nos grandes mercados europeus, como Les Halles, de Paris, e o Mercado Central de Berlim. Sua estrutura de concreto e alvenaria de tijolos carrega influência alemã, enquanto a fachada neoclássica com traços góticos se impõe como monumento. Por dentro, os vitrais de Conrado Sorgenicht Filho -- 72 ao todo, distribuídos em 32 painéis -- filtram a luz e contam, em cores, a história da produção agrícola brasileira. Hoje, no entanto, muitos comerciantes dizem que o Mercadão já não reconhece a si mesmo.

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"O Mercado não é mais o Mercado"

Aos 93 anos, Levi viu o Mercadão nascer, crescer e mudar. Ele está ali há 63 anos. "Eu trabalhava na lavoura, era um sacrifício. Agora, o mercado me deu de tudo", diz o homem natural do interior de São Paulo, de um local descrito como meio caminho entre Itu e Sorocaba. Depois que a rodovia Castelo Branco dividiu o sítio em que nasceu, se mudou para a cidade grande. Foi ali que criou os filhos. Foi ali que construiu a vida. "O Mercado é a melhor coisa que tem em São Paulo, que aconteceu na minha vida. Não teve outro lugar para mim".

Levi, dono do Levi Queijos, vê transformação do Mercadão com tristeza
Foto: Maria Luiza Valeriano/Terra

Hoje, Levi divide a banca com o neto. Trabalha 12 horas por dia, de segunda a sexta. E observa, com tristeza, a transformação do espaço.

"O Mercado mudou muito. O Mercado não é mais o Mercado. O Mercado virou uma praça de alimentação".

Ele aponta para os corredores. Onde antes havia setores bem definidos, frutas de um lado, empórios, açougues, agora há cadeiras, mesas e fachadas de bares. "Agora você vai nessa rua direto e só tem cadeira na rua, só lanchonete".

Para Levi, a queda do local foi marcada pelo início do movimento para privatizá-lo, ainda na gestão do governador João Dória. Com o prefeito Bruno Covas, em 2021, a administração do espaço ficou sob concessão privada. Por 25 anos, o consórcio Mercado SP SPE S.A. passou a gerir o local.

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"Nós pagávamos 12 mil, agora passou para 60 mil as duas bancas". Para manter o negócio, Levi diz que precisa usar o dinheiro de lojas no interior para sustentar a banca histórica. "Aqui tem mais 14, 15 pessoas que têm família que dependem daqui". E ele não esconde o temor: "Já vi muita banca fechando e vai fechar mais".

A alma do Mercadão

Mirlei Schiavinatto conhece o Mercadão por dentro e por fora. Fornece produtos há 25 anos e comanda uma banca há cinco. De família espanhola e italiana, trouxe para o mercado sabores que não se encontram facilmente: pimentas catalãs, pápricas, chorizos, ingredientes para paella.

"Esses empórios, essas lojas, são a cara do Mercadão, são a alma do Mercadão", afirma. 

Lojinhas e empórios carregaram produtos profundamente brasileiros e de outras regiões
Foto: Maria Luiza Valeriano/Terra

Mas essa alma, segundo ela, está se esvaziando. "A gente percebe que muitos dos empórios, das lojinhas, estão fechando". No lugar, surge um novo foco: bares e restaurantes. "Parece que existe um grande interesse de focar o Mercadão como se fosse uma grande concentração de bares".

Mirlei também sente a mudança no público. "A quantidade de pessoas no Mercadão caiu muito". Ela lamenta especialmente a perda de um público que usava da culinária para se conectar e transmitir a cultura. 

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"O avô é espanhol, então o neto quer agradar o avô. Ele traz o avô aqui para escolher produtos para fazer um prato especial. Isso acontece cada vez menos".

"Depois da concessão, o valor do aluguel aumentou muito. Claro, um pequeno negócio não tem o potencial para de repente ter um aluguel aumentado em 8, 10 vezes. E nisso vai mudando o perfil daquele mercado tradicional".

"Como ele é um patrimônio histórico, isso deveria ser preservado. E, na verdade, não está sendo".

Divergência de opiniões

Nem todos os comerciantes sentem a queda no movimento da mesma forma. Osvaldo Datílio, ou Dinho, que tem banca de carnes há 26 anos, afirma que o público se mantém: diverso, multicultural, curioso. "Uma boa parte da nossa clientela são chineses. Então a gente tem vários produtos para eles, coisa que eu nunca imaginava na vida. Por exemplo, a vende língua de pato para eles. Uma vez experimentei. [...] É uma delícia! [...] Você vai conhecendo a cultura de cada um. É um aprendizado diferente, é incrível".

Dinho vem de uma linhagem de comerciantes, tendo seu início em feira livre ao lado dos pais, vendendo frangos e miúdos de bói. "Eu efetuava algumas compras aqui no Mercadão. Aí peguei amizade com um comerciante, outro do mesmo ramo, e uma vez a pessoa me deu oportunidade". "'Dinho, você tem interesse em pegar uma banca?' Eu falei 'tenho', aí eu comecei".

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"Minha primeira venda foi num domingo, 10 horas da manhã. Eu vendi uma galinha. Eu quase morri do coração. Falei, 'meu Deus, com filha pequena para criar. O que vai ser da minha vida nessa obra?' Graças a Deus, correu tudo bem".

Ele reconhece o aumento do aluguel -- de cerca de R$ 1 mil para R$ 13 mil -- mas vê a questão sob outra ótica. "Eu prefiro pagar caro num ponto bom do que pagar de graça num lugar onde não tem movimento nenhum".

Mercado como pilar da capital

Para o arquiteto e pesquisador Felipe de Souza, professor da USP, o Mercadão nunca foi apenas comércio. Ele nasce como elemento fundacional da cidade, moldada como o centro empresarial e comercial do Brasil.

"O mercado é um dos elementos fundacionais do funcionamento urbano", explica. Localizado na várzea do Tamanduateí, ele surge ligado à própria ocupação de São Paulo. "Essa vocação comercial não só do Mercado, mas de toda aquela região, se mantém até hoje".

Mas Felipe observa que essa função foi sendo deslocada. "Desde a reforma dos anos 90, o mercado foi se transformando muito mais num ponto turístico do que num entreposto realmente comercial". A concessão, para ele, vem "a reboque dessa transformação".

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Ele faz um paralelo com outros espaços públicos concedidos à iniciativa privada, como o Anhangabaú. "Há uma questão de uso, de impedir o uso social efetivo daquele espaço". Para o pesquisador, a privatização do espaço público é, no mínimo, questionável.

"O mercado deveria manter a sua função original ao máximo possível".

A versão da concessionária

Do outro lado, a administradora nega que o Mercadão esteja perdendo sua essência. O CEO da Mercado SP, Aldo Bonametti, afirma que os reajustes foram previstos em contrato e negociados. "A gente manteve os aluguéis por quase quatro anos. E fechamos com 95% dos inquilinos".

Ele é categórico ao dizer que nenhuma banca tradicional fechou "exclusivamente por conta do reajuste". Cita o fechamento do Empório Chiappetta, presente desde 1933, como consequência de dificuldades agravadas pela pandemia.

Questionado sobre a preservação da tradição, a concessionária não destacou medidas específicas, mas sim gerais de restauração, limpeza e segurança. A grande aposta é em marketing e eventos para atrair público, que, diferente da sensação dos comerciantes, segundo ele, cresceu 10% ao ano. "São cerca de 10 a 12 mil pessoas por dia durante a semana e chega a 30 mil no sábado".

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Completando 93 anos neste domingo, 25, entre as dificuldades apresentadas pelos responsáveis por manter a tradição, o Mercadão segue vivo, apesar de ter outro ritmo. 

Fonte: Portal Terra
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