As eleições estaduais de 2026 refletem o acirramento entre Lula e Flávio Bolsonaro e podem reconfigurar alianças históricas no país. No Sudeste e no Paraná, a direita e o antipetismo se consolidam com favoritismos de Tarcísio de Freitas, Cleitinho e Sergio Moro, enquanto Eduardo Paes lidera no Rio. Já em redutos nordestinos como Bahia, Ceará e Pernambuco, impera o equilíbrio técnico, ao passo que disputas no DF e no Amapá testam a força de dinastias e investigações locais perante a política nacional.
Fim da hegemonia de grupos políticos, novas alianças, apoios explícitos ou "envergonhados" a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). As disputas pelos governos estaduais que se iniciam no domingo (04/10), dia do primeiro turno das eleições, ensaiam mudanças e repetições que podem reconfigurar a política nacional.
A corrida presidencial acirrada dá peso adicional às eleições para os Executivos estaduais. As pesquisas eleitorais mostram que Lula e Flávio chegam à reta final separados por poucos pontos no primeiro e no segundo turno. Nesse cenário em que cada voto é tratado como decisivo, reagrupamentos locais e acordos com lideranças capazes de oferecer palanque aos candidatos à presidência ganham importância para a etapa seguinte.
Cada estado, porém, chega às urnas com questões próprias. Nos dois maiores colégios eleitorais do país, São Paulo e Minas Gerais, o PT segue com dificuldades e vê suas candidaturas estagnadas. Já no Rio de Janeiro, o candidato ao governo estadual Eduardo Paes (PSD) tenta conciliar o apoio a Lula com a necessidade de preservar votos entre eleitores bolsonaristas, majoritários no estado.
No Paraná, está em jogo a continuidade de um grupo político no poder desde 2010; Ceará, Bahia e Pernambuco têm disputas apertadas entre forças tradicionais de suas regiões; e, no Distrito Federal e no Amapá, controvérsias locais — da crise do banco BRB à exploração de petróleo na Margem Equatorial — atravessam as campanhas com repercussão para além de suas fronteiras.
Para entender por que essas corridas merecem atenção e o que seus resultados podem representar, a BBC News Brasil ouviu pesquisadores de todo o país.
Pernambuco
Estado natal de Lula e segundo maior colégio eleitoral do Nordeste, Pernambuco tem uma disputa apertada entre Raquel Lyra (PSD), que busca a reeleição, e João Campos (PSB), ex-prefeito de Recife e candidato ao governo estadual pela primeira vez. Os dois chegam tecnicamente empatados à reta final da disputa.
O cenário contrasta com o de 2022, quando havia cinco candidaturas competitivas no primeiro turno. Juliano Domingues, cientista político e professor da Universidade de Pernambuco (UPE), aponta que o atual primeiro turno tem "dinâmica de segundo", com o foco em apenas dois candidatos.
As pesquisas mostram que ambos têm bases eleitorais bem delimitadas: Raquel Lyra tem melhor desempenho entre eleitores de direita, evangélicos e homens; João, por sua vez, lidera entre votantes mulheres e setores da esquerda.
Em busca de mais votos, eles procuram, de modos distintos, exibir a boa relação com o governo Lula, aprovado por 59% dos pernambucanos, segundo pesquisa AtlasIntel divulgada em setembro.
Para Domingues, enquanto João tenta transformar o apoio a Lula em voto casado, Raquel busca mostrar que coopera com o presidente mesmo sem alinhamento eleitoral.
"João já lidera amplamente entre os eleitores lulistas, mas ainda existe aproximadamente um quarto desse grupo com Raquel", diz.
No movimento inverso, ressalta o pesquisador, João registra apenas 2,7% entre os antigos eleitores de Jair Bolsonaro, segundo a AtlasIntel divulgada em 22 de setembro.
"Há uma assimetria: a governadora consegue penetrar no campo adversário em uma proporção que João não alcança na base bolsonarista. Isso tem feito diferença."
Na última pesquisa Ipec antes do primeiro turno de 2022, Raquel tinha 17% dos votos válidos. Ela acabou avançando para o segundo turno com 20,58%. Em 2026, a disputa chega muito mais concentrada: no Datafolha divulgado em 2 de outubro, Raquel aparece com 50% dos votos válidos e João Campos, com 47%, em empate técnico.
Em um eventual segundo turno, Domingues acredita que as campanhas apostarão em aumentar a rejeição ao adversário. O tom já deu as caras nos debates: na TV Globo, em 29 de setembro, Raquel cobrou João pela permanência no PSB do candidato a deputado federal Fábio Tyrone, condenado por violência doméstica.
O candidato do PSB afirmou ter determinado a expulsão de Tyrone da sigla e, em contra-ataque, resgatou a fala da governadora sobre submeter uma paciente a laqueadura sem consentimento. A candidata afirmou que já havia pedido desculpas pela declaração.
Ceará
No Ceará, a disputa acirrada entre o atual governador Elmano de Freitas (PT) e Ciro Gomes (PSDB) pode redesenhar um dos arranjos políticos mais duradouros do país.
De acordo com o cientista político Clayton Cunha Filho, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), o grupo que está no poder desde a primeira eleição de Cid Gomes, em 2006, corre o risco de ser desmantelado caso haja uma vitória de Ciro, hoje um dos líderes da oposição. Para o pesquisador, o Centrão que hoje apoia Elmano dificilmente se posicionaria contra um eventual governo do tucano.
"Uma boa parte do que hoje é a base do Elmano iria para a base do Ciro Gomes", afirma.
Com eleitorado fiel no estado, Ciro mudou a estratégia das duas eleições anteriores, quando concorreu à Presidência. Depois de anos associado à centro-esquerda, o ex-PDT agora integra uma coligação à direita que inclui União Brasil, PP e o PL de Flávio Bolsonaro.
A aliança, no entanto, tem se mostrado frágil. Figuras influentes do PL como Michelle Bolsonaro já se posicionaram contra os acenos a Ciro — que chamava Jair Bolsonaro de "ladrão de galinha". O cearense, por sua vez, busca se desvincular da imagem de aliado do bolsonarismo. Diz que o acordo com o PL se limita ao contexto estadual.
Para Cunha Filho, essa cautela é explicada pela força de Lula no estado.
"Se o Ciro entrasse na campanha do Flávio, o que ele tem evitado por temer perder votos por causa do lulismo forte no estado, poderia beneficiar e trazer alguns votos para o Flávio, mas não tem indicativos, sobretudo agora que o Elmano vem ganhando força", diz.
Levantamentos recentes mostram que o embate será apertado e com boas chances de ser decidido já no primeiro turno — algo que se repete desde 2018. Na AtlasIntel/Focus divulgada em 30 de setembro, Elmano aparece com 50,3% dos votos válidos e Ciro com 48,9%, empate dentro da margem de erro.
Com quase 7 milhões de eleitores, o Ceará é um dos principais redutos de Lula. Em 2022, o petista recebeu 70% dos votos válidos no estado contra 30% de Jair Bolsonaro. Quatro anos depois, a vantagem sobre o candidato do PL continua ampla. Na AtlasIntel/Focus, Lula tem 57,7%, contra 32,2% de Flávio Bolsonaro, com margem de dois pontos.
Bahia
Maior colégio eleitoral do Nordeste e quarto do país, com 11,3 milhões de eleitores, a Bahia mantém a peculiaridade de ter, ao mesmo tempo, um eleitorado com ampla maioria lulista e uma disputa estadual apertada.
Reeditando o confronto de quatro anos atrás, o pleito definirá se o PT chega a um sexto mandato consecutivo com a reeleição de Jerônimo Rodrigues ou se ACM Neto (União Brasil), derrotado por uma pequena margem em 2022, consegue reconduzir o grupo carlista ao governo.
Em 2022, Jerônimo terminou o primeiro turno com 49% dos votos válidos contra 40% de ACM Neto; no segundo, venceu por 52% a 47%. Agora, as pesquisas projetam uma disputa ainda mais acirrada. Na AtlasIntel/A TARDE divulgada em 3 de outubro, Jerônimo aparece com 51,5% dos votos válidos e ACM Neto, com 47,4%, com margem de erro de dois pontos. Já a Paraná Pesquisas, também divulgada neste sábado, registra 50,3% para ACM Neto e 48,4% para o governador, com margem de 2,7 pontos.
Segundo Cláudio André de Souza, professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab) e pesquisador da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), a eleição pode ser decidida por quem conseguir reequilibrar os desempenhos nas cidades pequenas e nas cidades grandes.
Em 2022, ACM Neto venceu em 21 dos 30 maiores municípios baianos, responsáveis por quase metade do eleitorado. Jerônimo, por sua vez, teve desempenho mais forte no interior.
O governador conta hoje com uma base extensa de prefeitos e uma aprovação de 56%, segundo a Quaest. Já ACM Neto aposta nas críticas à gestão petista na segurança pública e na saúde, dois temas citados pelos eleitores como os maiores problemas do estado.
"ACM Neto chega fortalecido e se beneficia do fato de que o União Brasil governa as três maiores cidades baianas: Salvador, Feira de Santana e Vitória da Conquista", diz André de Souza.
O caso Banco Master acrescentou uma nova frente ao embate eleitoral, com os dois lados explorando as conexões do adversário com as investigações.
No campo governista, a Polícia Federal apura suspeitas envolvendo o senador Jaques Wagner (PT) e seu enteado Eduardo Sodré, secretário de Meio Ambiente de Jerônimo Rodrigues. Já uma empresa de ACM Neto recebeu R$ 3,6 milhões do Master e da instituição financeira Reag, segundo relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Neto afirma que os pagamentos remuneraram serviços de consultoria e foram declarados; Wagner nega irregularidades.
Para o pesquisador Cláudio André de Souza, há potencial de desgaste entre eleitores mais à esquerda nas grandes cidades, mas o efeito eleitoral dessas investigações ainda é limitado.
Paraná
O que está em jogo no Paraná é um possível fim de ciclo. As projeções indicam dificuldades para que o grupo do governador Ratinho Júnior (PSD) permaneça no poder. O escolhido para a sucessão, Sandro Alex (PSD), segue atrás de Sergio Moro (PL) e disputa a segunda colocação com Requião Filho (PDT), apoiado por Lula.
Segundo Emerson Cervi, cientista político e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), uma eventual derrota de Sandro Alex representaria a maior ruptura política no estado desde 2010, quando Beto Richa (PSDB) foi eleito e iniciou o domínio desse campo político no governo paranaense.
"O erro de Ratinho Júnior foi achar que poderia colocar qualquer um no páreo, e a vitória viria fácil", analisa Cervi, ressaltando a alta taxa de aprovação do governador (79%, segundo a pesquisa Real Time Big Data divulgada em 29 de setembro).
"Quando viu, era tarde demais."
Para Cervi, a mudança do cenário se consolidou com a migração de políticos para o PL durante a janela partidária. O partido passou de cinco para 12 deputados estaduais no Paraná, o maior crescimento entre as bancadas da Assembleia Legislativa.
O articulador da movimentação para o lado de Moro, diz Cervi, foi o deputado estadual Mauro Moraes, ex-secretário de Ratinho. O professor acredita que a estratégia foi eficaz, ainda que os políticos que trocaram de partido sejam, em maioria, de segundo escalão — não eram aqueles que tomavam decisões quando estavam no poder.
"É quase certo que Moro será eleito. A questão é se será no primeiro ou segundo turno", afirma.
Hoje, as pesquisas mostram Moro consolidado na liderança. Na Real Time Big Data, divulgada em 2 de outubro, ele aparece com 40% dos votos válidos, seguido por Sandro Alex, com 32%, e Requião Filho, com 26%, com margem de erro de dois pontos percentuais. Já a Paraná Pesquisas, divulgada em 28 de setembro, registra Moro com 50,1%, Requião com 25,6% e Sandro com 23,3% dos votos válidos, com margem de 2,8 pontos.
O líder das pesquisas procurou se aproximar de Flávio durante a campanha. Nos discursos, reiterou que trabalhava para derrotar Lula e ficou ao lado do presidenciável do PL no ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista.
"Moro é uma das melhores representações de um antipetismo atávico", diz. "Ele manteve a imagem de antipetista acima de tudo. Seu eleitorado é mais antipetista do que morista."
O Paraná é o quinto maior colégio eleitoral do país, com 8,6 milhões de eleitores, o equivalente a 5,4% do eleitorado nacional. Segundo Cervi, uma eventual vitória de Moro pode indicar a permanência do discurso antipetista no sul do país.
Rio de Janeiro
Embora o eleitorado fluminense seja mais favorável ao bolsonarismo na disputa presidencial, a corrida pelo governo do estado é liderada por um candidato apoiado por Lula. No Datafolha divulgado em 2 de outubro, Eduardo Paes (PSD), prefeito mais longevo da capital fluminense, aparece com 47% dos votos válidos contra 35% de Douglas Ruas (PL), candidato respaldado por Flávio Bolsonaro, com margem de erro de três pontos percentuais.
É a terceira vez que Paes concorre ao cargo de governador. Em 2006, não passou do primeiro turno e, em 2018, perdeu para Wilson Witzel no segundo turno. Já Ruas disputa pela primeira vez um cargo majoritário. Eleito deputado estadual em 2022, deixou a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para comandar a Secretaria das Cidades no governo Cláudio Castro e, em abril deste ano, assumiu a presidência da Assembleia.
Para Bruno Marques Schaefer, professor do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), a candidatura de Paes oferece a Lula um palanque mais competitivo no estado do que nas eleições anteriores. Isso não significa, porém, que os votos dos dois caminhem juntos.
"Me parece que a gente vai ter muito voto dividido, especialmente no caso do Eduardo Paes", avalia Schaefer.
O Datafolha de setembro reforça sua leitura: Paes concentrava 77% das intenções de voto entre eleitores de Lula, mas também recebia 21% entre os que pretendiam votar em Flávio Bolsonaro. Ruas tinha 63% nesse segundo grupo.
Para aumentar sua fatia no grupo bolsonarista, o candidato do PL busca nacionalizar a eleição e associar Paes a Lula. Como resposta, o ex-prefeito vincula Ruas ao grupo que governou o Rio nos últimos anos e expõe as falhas de políticas públicas no estado.
A disputa passa também pela capacidade de Paes de angariar votos fora da capital. Segundo Schaefer, o ex-prefeito buscou se aproximar do interior e da Baixada Fluminense, onde prefeitos e máquinas políticas locais têm peso relevante. A escolha da vice Jane Reis (MDB), irmã do ex-prefeito de Duque de Caxias Washington Reis, faz parte desse movimento.
Um fator de incerteza a poucas horas da votação é a situação de Anthony Garotinho (Republicanos).Na sexta-feira (2/10), o ministro Floriano Marques, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), determinou que os votos de Garotinho sejam considerados nulos. A decisão veio após o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) manter o indeferimento de sua candidatura com base em uma condenação por improbidade administrativa. Garotinho ainda recorre.
O caso pode definir se haverá segundo turno: no Datafolha mais recente, ele aparece com 8% dos votos válidos e, se o resultado se repetisse nas urnas e seus votos fossem excluídos do cálculo, Paes passaria dos atuais 47% para cerca de 51%, percentual suficiente para vencer no primeiro turno.
São Paulo
Responsável por 21,5% de todo o eleitorado nacional, São Paulo tem grandes chances de decidir seu governador já no primeiro turno. As pesquisas mais recentes de AtlasIntel, Quaest, Real Time Big Data e Datafolha mostram que Tarcísio de Freitas (Republicanos) teria votos suficientes para ser reeleito neste domingo.
Candidato de Lula, o ex-ministro Fernando Haddad (PT) enfrenta dificuldades para crescer nas intenções de voto na reta final da disputa. O petista é prejudicado pela boa avaliação do governo de Tarcísio e pela resistência ao seu nome no estado.
Segundo o Datafolha de 2 de outubro, a aprovação do governo Tarcísio é de 62%. Já a rejeição a Haddad é de 45%, contra 29% do candidato do Republicanos.
Para Cláudio Gonçalves Couto, cientista político e professor da FGV EAESP, as chances de Haddad ir para o segundo turno são baixas. Com efeito, a derrota precoce, diz, deve prejudicar os planos do presidente.
"No âmbito nacional, não é um bom cenário para o Lula porque ele contava, e conta ainda, com o palanque o mais forte possível em São Paulo para poder fazer com que a eleição presidencial seja gravitada pela eleição estadual", afirma.
A última vez que a eleição para governador em São Paulo não precisou de segundo turno foi em 2014, quando Geraldo Alckmin, à época no PSDB, foi reeleito com 57% dos votos válidos. Alckmin, atual vice-presidente de Lula, já havia vencido no primeiro turno em 2010, sucedendo José Serra (PSDB), que também havia conquistado o feito. Caso consiga a vitória no domingo, Tarcísio se tornará o primeiro governador não tucano a conquistar a reeleição no estado.
Embora seja o berço político do partido, São Paulo nunca elegeu um governador petista. Por causa desse antecedente, Couto acredita que, no saldo final, o revés não será encarado pelas lideranças petistas com espanto.
"No fim das contas, não há uma diferença grande entre o que o Lula enfrentou lá atrás e o que está enfrentando agora, a despeito da maior vantagem do candidato bolsonarista ao governo do estado, que é incumbente e não desafiante", diz.
"Sabemos que o incumbente sempre costuma ter uma certa vantagem."
Nas eleições de 2022, Lula perdeu para Jair Bolsonaro (PL) no estado. O atual presidente, no entanto, teve mais votos na capital paulista. O mesmo fenômeno foi visto com Haddad na corrida pelo governo do estado. Desta vez, porém, os números indicam uma disputa mais equilibrada na região metropolitana. No Datafolha divulgado em 2 de outubro, Tarcísio aparece com 43% das intenções de voto nesse recorte, contra 40% de Haddad.
Na reta final da campanha, Tarcísio intensificou o apoio a Flávio. Depois de participar ao seu lado do ato de 7 de Setembro e de uma agenda no rodeio de Jaguariúna, acompanhou o presidenciável no sábado (3/10) em uma motocarreata no interior paulista. O governador também afirmou que, em um eventual segundo turno, pretende fazer campanha por Flávio inclusive fora de São Paulo.
Minas Gerais
"As eleições de Minas despertam muita atenção por causa daquela velha história: desde a redemocratização, quem ganha em Minas ganha a presidência", resume Marta Mendes da Rocha, professora de Ciência Política da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Política Local (NEPOL).
Segundo Rocha, o peso de Minas vai além de ser o segundo maior colégio eleitoral do país — o equivalente a 10,3% do eleitorado brasileiro. O estado, diz, reúne regiões com perfis socioeconômicos muito diferentes e pode ser vista como uma miniatura do país. O norte mineiro, por exemplo, é mais próximo do Nordeste, enquanto o sul e o triângulo de Minas têm características semelhantes às de partes de São Paulo e das regiões Sul e Centro-Oeste.
"Cada uma de suas regiões tem um pouco do Brasil", diz a pesquisadora.
Por isso, afirma, quem disputa o voto mineiro precisa dialogar com eleitorados distintos.
Hoje, o líder na corrida para o governo de Minas é Cleitinho Azevedo (Republicanos). Ele aparece nas pesquisas bem à frente de Patrus Ananias (PT): no Datafolha divulgado em 2 de outubro, os dois tinham, respectivamente, 49% e 20% dos votos válidos. Já Mateus Simões (PSD), atual governador e candidato de Romeu Zema (Novo), marca 5% e expõe os limites do candidato à Presidência para transferir seu capital eleitoral. A margem de erro é de três pontos percentuais.
Para Rocha, a vantagem de Cleitinho se deve à imagem que ele construiu nas redes sociais — como alguém de fora da política tradicional, apesar de já ter sido vereador, deputado estadual e atualmente ser senador.
Já Patrus, diz Rocha, não teve sucesso ao tentar resgatar a boa avaliação de sua prefeitura em Belo Horizonte (1993-1996). Para a pesquisadora, o legado é distante demais para o eleitorado mais jovem.
A configuração da disputa estadual também pesa na eleição presidencial. Lula e Flávio Bolsonaro chegam à reta final separados por sete pontos entre os mineiros: no Datafolha divulgado em 2 de outubro, o petista tinha 45% dos votos válidos no primeiro turno, contra 38% do candidato do PL. A margem de erro é de três pontos percentuais.
Distrito Federal
No Distrito Federal, a disputa pelo governo chega à reta final com boa vantagem da atual mandatária Celina Leão (PP) sobre Leandro Grass (PT): 53% contra 26% dos votos válidos, de acordo com o Datafolha divulgado em 1º de outubro. Mais atrás aparece Paula Belmonte (PSDB), com 10%. A margem de erro é de três pontos percentuais.
A liderança de Celina reforça a dificuldade da esquerda e a centralidade de forças ligadas ao bolsonarismo na região. A vantagem da governadora perante os demais candidatos aumentou quando José Roberto Arruda (PSD), tido como seu principal concorrente, teve sua candidatura rejeitada pela Justiça Eleitoral.
Na reta final, a estratégia da campanha de Celina tem sido explorar a rejeição ao PT. Segundo o cientista político Wladimir Ganzelevitch Gramacho, professor da Universidade de Brasília (UnB), essa aposta encontra terreno favorável num eleitorado historicamente mais à direita — que, em 2026, conta ainda com nomes fortes do bolsonarismo nos palanques, como Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, candidatas ao Senado.
O cenário, porém, não é de todo favorável à governadora. Celina tem sido alvo dos adversários por causa das investigações envolvendo o Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governo do DF. Segundo a Polícia Federal, o banco transferiu R$ 17 bilhões ao Banco Master na compra de carteiras de crédito, dos quais R$ 12,2 bilhões corresponderiam a títulos falsos, sem valor.
As operações sob investigação foram realizadas durante a gestão de Paulo Henrique Costa, que presidiu o BRB entre 2019 e 2025 e havia sido indicado por Ibaneis Rocha (MDB). Celina, então vice-governadora, assumiu o governo em 2026 e passou a administrar as consequências da crise.
Gramacho diz que o imbróglio tende a estar no centro do debate público.
"A questão a resolver e a acompanhar no âmbito das eleições do DF é o que fazer com o BRB e em que medida o contribuinte ainda vai pagar por estas contas, bem como identificar quem são os responsáveis pelo que aconteceu com o banco nos últimos anos", afirma.
Segundo o cientista político, a importância da eleição do Distrito Federal decorre da projeção nacional da capital, que costuma funcionar como "um laboratório para políticas públicas" e uma "vitrine para o Brasil".
Amapá
Embora o Amapá seja um estado pequeno e de pouco peso eleitoral, sua dinâmica política se tornou, nos últimos anos, um braço importante das articulações nacionais.
Dois dos três senadores amapaenses ocupam posições centrais em Brasília: Davi Alcolumbre (União) preside o Senado Federal, e Randolfe Rodrigues (PT) é líder do governo Lula no Congresso. Fora do Senado, outro nome de projeção nacional é Waldez Góes (PDT), que governou o Amapá por quatro mandatos e hoje é ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional.
A projeção dessas lideranças ampliou o peso do Amapá nas decisões políticas nacionais. Alcolumbre se tornou um dos principais interlocutores do Centrão, enquanto Randolfe e Waldez atuam na relação entre o governo Lula e o presidente do Senado.
Segundo Ivan Henrique de Mattos e Silva, cientista político e professor da Universidade Federal do Amapá (Unifap), a disputa pelo governo em 2026 funciona como um teste da força de Alcolumbre em seu próprio estado.
O presidente do Senado apoia a reeleição do governador Clécio Luís (União Brasil), que enfrenta o ex-prefeito de Macapá Dr. Furlan (PSD). Por enquanto, o palanque não tem se mostrado suficiente para reverter o cenário desfavorável. Na Real Time Big Data divulgada em 30 de setembro, Furlan aparece com 61% dos votos válidos, contra 39% de Clécio, com margem de erro de dois pontos percentuais. Já a Paraná Pesquisas de 28 de setembro registra 59,2% para Furlan e 39,7% para Clécio nos votos válidos, com margem de 3,2 pontos.
Furlan já derrotou Josiel Alcolumbre, irmão de Davi, na disputa pela prefeitura de Macapá em 2020 e foi reeleito em 2024 com 85% dos votos válidos.
Para Mattos e Silva, uma nova derrota do grupo teria peso maior.
"Uma vitória de Furlan seria outro forte revés para Alcolumbre e tenderia a aprofundar a corrosão de seu capital político no Estado", afirma.
Segundo o professor, a eleição deste ano reúne dois movimentos que vêm transformando a política amapaense: a conversão do voto à direita, que se prolonga desde 2014, e um processo de corrosão do poderio das principais dinastias políticas do estado — ele menciona o declínio de poder das famílias Capiberibe, Góes e, em menor medida, Alcolumbre.
Essa mudança ficou nítida nas recentes eleições presidenciais. Durante os anos 2000 e o início da década seguinte, o Amapá deu ampla vantagem aos candidatos do PT, mas essa diferença foi diminuindo. A tendência se inverteu em 2018, quando Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad por pequena margem. O mesmo aconteceu em 2022, com nova vitória do candidato do PL sobre Lula.
Em 2026, essa divisão também atravessa a disputa estadual: Furlan, o favorito, é apoiado por Flávio Bolsonaro, enquanto Clécio está no campo de aliados de Lula.
A exploração de petróleo na Margem Equatorial é um dos raros temas que aproximam os principais grupos políticos do Amapá. Clécio e Furlan defendem a atividade, assim como Alcolumbre e Randolfe. Para Mattos e Silva, essa convergência representa um "robusto realinhamento discursivo" em um estado onde direita e esquerda historicamente divergiram sobre políticas ambientais e modelos de desenvolvimento.