"Cabeça fria, 'diplomacia zen' e nada de bate-boca público. Lula poderia seguir o exemplo de Cláudia Scheinbaum na relação com Trump", sugere analista mexicana

Para professora de Relações Internacionais do Colégio do México, Guadalupe González, governo Trump aprofundou fragmentação da América Latina ao privilegiar uma 'bilateralização extrema' na sua interlocução presidencial.

28 jul 2026 - 04h53
Lula e a presidente do México, Claudia Sheinbaum
Lula e a presidente do México, Claudia Sheinbaum
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

A América Latina está vivendo uma "onda azul" com as eleições presidenciais recentes vencidas pela direita radical na Argentina, na Colômbia, no Peru, entre outros países da região.

A definição é uma espécie de contraponto à "onda rosa" de governos de esquerda no início do século 21 nos países latino-americanos.

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O termo "onda azul" foi usado pelo presidente argentino Javier Milei durante visita, em junho deste ano, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Buenos Aires. "Vem aí a onda azul pelas mãos de Flávio Bolsonaro", escreveu o argentino em suas redes sociais em claro apoio à campanha do candidato ao Palácio do Planalto.

A "onda azul" se refere a uma suposta tendência de sucesso nas urnas protagonizado por presidentes da direita radical que admiram e apoiam o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e quando, ao mesmo tempo, ele declara seu voto e respaldo aos políticos desta linha ideológica.

Foi assim na reta final da corrida eleitoral na Colômbia, por exemplo, quando Trump anunciou apoio a Abelardo de la Espriella, que foi eleito e tomará posse no dia sete de agosto.

Mas no Brasil, ações recentes do governo Trump, como a decisão de impor novas tarifas sobre produtos brasileiros, podem ter prejudicado o candidato da "onda azul", a três meses das eleições presidenciais.

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Analistas têm declarado que as tarifas favorecem a candidatura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e não a de Bolsonaro, seguidor de Trump.

Uma pesquisa Quaest divulgada no dia 10/07, antes do novo tarifaço da última quinta-feira (23/07), mostrou que 47% dos entrevistados concordam mais com Lula, que acusa Flávio Bolsonaro de ter pedido as novas tarifas contra o Brasil.

No levantamento, outros 35% concordam mais com a versão do senador de que teria solicitado a Trump que não adotasse novas taxas sobre produtos brasileiros, de acordo com o portal G1.

Em entrevista à BBC News Brasil, a professora de Relações Internacionais do Colégio do México, Guadalupe González, formada pela London School of Economics (LSE) no Reino Unido, disse que o presidente americano, ao tomar partido em eleições em várias partes do mundo, desestabiliza democracias. No caso da América Latina, na opinião dela, fragmenta ainda mais a região.

Integrante do Conversatório Latino-Americano (Conlat), que reúne especialistas de universidades do Brasil, da Argentina, da Colômbia e do México que discutem as problemáticas do continente, González entende que Lula poderia se inspirar na tática da presidente mexicana Claudia Sheinbaum na relação com Trump - "cabeça fria e nada de discussões (bate-boca) público".

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A seguir os principais pontos da entrevista com Guadalupe González.

Javier Milei
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

BBC News Brasil - O presidente Milei, da Argentina, diz que a América Latina está vivendo uma 'onda azul' com a eleição de governos da direita em diversos países. Milei, inclusive, viajou ao Brasil para participar do lançamento da campanha à Presidência do senador Flávio Bolsonaro. A sra. concorda?

Guadalupe González - As forças políticas, principalmente de um novo tipo de direita, extrema-direita, que não é a direita tradicional latino-americana, vêm ganhando as últimas eleições. Então, é verdade que estamos vivendo uma 'onda azul'.

BBC News Brasil - A sra. diferencia uma direita radical da direita tradicional…

Guadalupe González - E este é um primeiro ponto. Além disso, essas direitas que têm vencido as eleições não são o mesmo tipo de direita e também não estão ganhando com os mesmos índices [nas urnas].

Mas ainda é cedo para saber se este é um movimento pendular, quanto irá durar e também quanto das agendas das direitas radicais pretendem realizar transformações de médio e longo prazo na política regional.

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Existem duas maneiras de ler este momento. Uma é sobre o realinhamento político e ideológico dos eleitorados. Quer dizer, que de fato os eleitores latino-americanos são agora mais conservadores que antes. Esta é uma leitura e, além disso, nos distintos países acontecem coisas diferentes.

BBC News Brasil - Por exemplo?

Guadalupe González - Por exemplo, o bolsonarismo é uma direita radical que está mais enraizada do que podíamos imaginar. Vemos também a vitória de Keiko Fujimori [no Peru]. E a eleição de [Abelardo] de la Espriella, na Colômbia. De la Espriella é um completo outsider, o bolsonarismo já foi governo e já ganhou eleições locais e tem um pensamento ideológico, religioso, militarista.

Já De la Espriella é um personagem mais incerto. Era liberal em temas sociais e agora é mais conservador. [Nota da reportagem: De la Espriella não exerceu cargo político antes de ser eleito para a Presidência].

BBC News Brasil - Cada eleitor responde de acordo com seu país? Está mais à direita que antes?

Guadalupe González - Não sabemos se o eleitor está mais à direita em termos de valores. Eu tenho minhas dúvidas sobre isso. A outra leitura sobre a "onda azul" é que, na verdade, estas forças de direita estão ganhando por representarem um voto castigo aos governos [no poder].

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O que poderíamos esperar, sendo assim, é que Milei perderia a próxima eleição e que voltaríamos a ter um pêndulo [um governo de direita e outro de esquerda se alternando]. Mas não sabemos. E também não sabemos se, no caso de pêndulo, se seria para um governo menos radical [de direita] ou se a onda irá para o extremo, com populismo de esquerda.

BBC News Brasil - Qual a sua perspectiva neste cenário?

Guadalupe González - Eu me inclino mais para a segunda possibilidade, que tenhamos fatores na América Latina que são mais demandantes eleitoralmente. Há maior interesse e maior participação do eleitorado, que está polarizado pelas redes sociais, principalmente. Ou seja, a política latino-americana e mundial já mudou, com as redes sociais. É outra coisa.

Estamos diante de um fenômeno novo e acho que as redes sociais rendem frutos eleitorais a todas as opções mais populistas do que programáticas. Porque as redes sociais se baseiam muito nas emoções.

BBC News Brasil - O eleitor também está mais exigente que tempos atrás?

Guadalupe González - Temos um eleitor mais exigente, mais informado e que está indignado contra governos que considera que são muito ineptos porque não apresentam resultados [às suas necessidades].

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BBC News Brasil - Milei governa na Argentina, José Antonio Kast no Chile..

Guadalupe González - Qual foi a genialidade de Kast? Conseguir convencer o eleitorado de que era necessário mão dura contra a imigração e a insegurança [pública]. Ao colocar o foco nestas questões, acabou tendo uma vitória que provavelmente não teria tido se a demanda social por estes temas não existisse. Na Colômbia, [a eleição de Abelardo de la Espriella] também pode ser explicada, de alguma forma, da mesma maneira.

Na Colômbia há muita divisão em relação à segurança e ao processo de paz [o acordo de paz foi assinado em 2016, mas este é um processo que não envolveu todos os atores políticos e dissidências das Farc].

Abelardo de la Espriella teve o apoio de Donald Trump na Colômbia
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

BBC News Brasil - Qual a sua opinião sobre o papel de Trump nesse tabuleiro latino-americano?

Guadalupe González - O papel de Trump e do movimento social que lidera, que é o movimento Make America Great Again (Maga), são fatores muito disruptivos em toda a América Latina e no mundo em geral.

BBC News Brasil - Disruptivo de que maneira?

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Guadalupe González - Ele é um personagem que polariza e é também um personagem que está vivendo os processos eleitorais em todo o mundo. É importante dizer isso porque, por exemplo, o vice-presidente [J.D. Vance] fez campanha na Europa

BBC News Brasil - Na Hungria...

Guadalupe González - Exato. Então, acho que não é algo que está acontecendo só com a América Latina. Mas sim um movimento político-ideológico antiliberal liderado por esta administração [Trump]. Eles representam, basicamente, uma reinterpretação da história política dos Estados Unidos muito baseada na figura de Andrew Jackson [que foi o sétimo presidente dos EUA] e é uma combinação muito americana.

Por um lado, eles veem com muita desconfiança uma intervenção muito forte do Estado na economia e por outro lado é de um nacionalismo enorme e há também uma parte religiosa com eleitores muito conservadores. Os evangélicos são grande parte da sua base, que tem muito a ver com uma agenda social muito conservadora em matéria de direito reprodutivo e etc.

Tomar partido nas eleições de outros países é política expressa da administração Trump. Agora, que impacto eleitoral real tem isso? Muito variável.

BBC News Brasil - Para cada país, Trump reserva uma relação ou medida, não?

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Guadalupe González - No caso de Milei, nas eleições legislativas [em outubro de 2025], a ajuda econômica de Trump pode ter ajudado a dar mais credibilidade [ao modelo econômico de Milei]. Mas ainda é preciso continuar acompanhando. No caso da Colômbia, [a interferência de Trump] foi ao mesmo tempo favorável e prejudicial. Muitos eleitores consideraram que era uma pretensão intervencionista inaceitável.

BBC News Brasil - Já no Brasil, no primeiro tarifaço de Trump, o apoio ao presidente Lula subiu e agora, depois dos novos tarifaços, também há preocupação com os impactos nas exportações e na economia.

Guadalupe González - A intervenção aberta e explícita de Trump visando o resultado eleitoral tem efeito disruptivo e desestabilizador. Primeiro porque reduz a legitimidade dos processos eleitorais na América Latina. Segundo porque é um fator que aumenta a polarização ainda mais. E terceiro, principalmente agora que vemos que Trump quer realizar uma reforma eleitoral nos Estados Unidos… todo o discurso político de Trump em relação ao processo eleitoral está direcionado a tirar a legitimidade do resultado eleitoral que não lhe seja favorável. Então, é antissistêmico do ponto de vista do funcionamento democrático.

BBC News Brasil - Qual seria então o efeito do governo Trump para as democracias em termos mundiais?

Guadalupe González - Os Estados Unidos, são um país que tinha o "farol na montanha", que inaugurou a vida democrática… E, hoje, basicamente, encara a erosão da própria democracia americana com a concentração de poder por parte do presidente, com essa relação tão oligárquica, patrimonialista do poder político e dos mega, multimilionários.

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Além disso, o questionamento que ele [Trump] fez do resultado da eleição de 2020… Tudo isso o faz um personagem que provoca erosão também na fortaleza das democracias latino-americanas e de todo o mundo.

BBC News Brasil - Como define o presidente Trump?

Guadalupe González - No mínimo como um personagem antiliberal, o que afeta os direitos estabelecidos. E, por outro lado, também antidemocrático. Devemos lembrar que por isso existe o movimento "no kings" (manifestações realizadas em 2025 e 2026 em várias cidades dos EUA contra ações do segundo mandato de Trump). Na sua política externa, quando vemos a política "Donroe" [reinterpretação do governo Trump da doutrina intervencionista do presidente James Monroe no século 19] é um pouco "neo-imperial".

Flávio Bolsonaro em visita à Casa Branca
Foto: Reprodução Instagram/Eduardo Bolsonaro / BBC News Brasil

BBC News Brasil - E para a América Latina?

Guadalupe González - Um efeito muito claro do governo Trump em relação à região é que aprofundou nossa fragmentação ao privilegiar uma bilateralização extrema na sua interlocução presidencial. Por exemplo, eles negociam com o México e negociam, separadamente, com nossos vizinhos sobre os mesmos assuntos.

BBC News Brasil - Serão realizadas eleições de meio de mandato em novembro nos Estados Unidos. Neste cenário, seriam eleições importantes não apenas para os EUA, mas também para América Latina e o mundo, não?

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Guadalupe González - Com certeza. Aqui eu diria que temos que acompanhar com lupa o que ocorrerá nesta eleição dos Estados Unidos. Será preciso ver se, efetivamente, nos níveis federal e estadual serão realizadas reformas eleitorais que restringem a possibilidade de participação do eleitorado nas próximas eleições.

O que está em jogo agora para a administração Trump é se mantém ou não a maioria nas duas Casas [do Congresso] e para eles isso é fundamental.

BBC News Brasil - Você diz que Trump tem uma participação disruptiva e desestabilizadora nos processos eleitorais. O que um governo pode fazer em relação a estas interferências externas num processo eleitoral? Por exemplo, no caso do Brasil, que realiza eleição presidencial neste ano?

Guadalupe González - Acho que grande parte destes processos eleitorais vão depender da qualidade da informação e de uma política de enfrentar a desinformação.

BBC News Brasil - O que inclui as 'fake news'…

Guadalupe González - Totalmente. Vou colocar aqui o exemplo do México que, aliás, acho uma resposta incorreta a esse método [de intervenção de Trump]. Aqui no México foi aprovada uma reforma eleitoral que permite uma nova eleição se ficar comprovado que houve uma intervenção de atores do exterior.

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BBC News Brasil - Não seria positivo?

Guadalupe González - Uma lei assim, na minha opinião, é um erro. Porque qualquer partido, quando não gostar do resultado, terá um recurso para tentar anular uma eleição. E isso é muito disruptivo. Isto pode levar a disputas eleitorais infinitas e muita instabilidade.

BBC News Brasil - Qual a alternativa?

Guadalupe González - Eu acho que essa alternativa não é boa. Aqui no México surge a pergunta, quem vai interpretar essa nova lei? Será o Tribunal Eleitoral e vai depender da composição do Tribunal Eleitoral, se ele estará mais a favor de um partido ou de outro. Vai ser uma confusão. Eu acho que o problema é principalmente de comunicação e de narrativa. E evitar fazer de Trump parte da eleição.

BBC News Brasil - Como?

Guadalupe González - Donald Trump pode falar o que ele quiser. A direita pode falar o que quiser, mas não cair no jogo que eles estão jogando. O ideal, no meu ponto de vista, é que ignorem Trump nas campanhas eleitorais. Mas reconheço que é muito difícil por causa da provocação.

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EUA declararam organizações criminosas brasileiras e de outros países latino-americanos como terroristas
Foto: AFP via Getty Images / BBC News Brasil

BBC News Brasil - Mas no caso do Brasil, o novo tarifaço, como foi o primeiro, afeta as exportações brasileiras e pode afetar a economia brasileira…

Guadalupe González - Mas neste caso há um assunto importante do ponto de vista da informação. É provável que Donald Trump mantenha o fantasma ou o próprio tarifaço para influenciar as eleições. Mas é importante que o setor industrial saiba que independentemente do que aconteça, votar em [Flávio] Bolsonaro não é garantia de um acordo [contra as tarifas].

BBC News Brasil - Como você vê o fato de Trump ter declarado grupos criminosos do Brasil e de outros países da América Latina como terroristas?

Guadalupe González - A situação do crime organizado na América Latina é, no meu ponto de vista, uma das maiores ameaças, é um dos maiores problemas que a região enfrenta. Mas acho que deveríamos entender que a categoria "crime organizado" não captura a problemática em sua totalidade. Acho que desde a perspectiva da América Latina, o problema de ecossistemas violentos é a melhor maneira de entender o problema da insegurança.

BBC News Brasil - Como assim? Qual a diferença?

Guadalupe González - Geralmente pensamos a categoria de crime organizado como separado do restante. Na América Latina temos uma relação simbiótica do crime organizado com a criminalidade, a economia, a sociedade e a política. Esse é o problema.

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No documento sobre violência que fizemos no Conlat (isso) está muito claro. Devemos entender essa situação de maneira integral para poder gerar políticas públicas eficazes. É a única maneira de não cairmos em fórmulas como a de Bukele [presidente de El Salvador], que não têm sustentação no médio e longo prazo. Além disso, estas políticas [de Bukele] possuem o grave erro de restringir direitos civis e de militarizar a sociedade.

BBC News Brasil - A região tem altos índices de violência e de desigualdade...

Guadalupe González - Exato. E em resumo, o problema da violência sistêmica na América Latina é, talvez, uma das questões mais importantes. A segunda é a da desigualdade. São problemas estruturais e não se resumem ao crime organizado.

BBC News Brasil - E sobre a declaração de grupos criminosos como organizações terroristas?

Guadalupe González - Isto tem enormes implicações. O crime organizado pode recorrer a táticas terroristas, mas não é uma organização terrorista porque seu objetivo é o lucro. O funcionamento, a dinâmica é outra. Na minha opinião, há uma distorção na forma de entender o problema.

Com a redefinição do problema [para organização terrorista], a própria estrutura legal americana permite aos Estados Unidos atuar extraterritorialmente. Ou seja, legitima que os Estados Unidos utilize a força unilateral...

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BBC News Brasil - Força militar?

Guadalupe González - Sim, forças militares porque seriam contra terroristas. Ou seja, os efeitos são enormes. Ao mesmo tempo, de levar adiante todas estas investigações por lavagem de dinheiro, compra de armas e etc. que afetam instituições financeiras latino-americanas. Então, estamos diante de uma "extraterritorialidade" das leis americanas.

O caso mais claro é o de Maduro [ex-presidente da Venezuela retirado do país no dia 3 de janeiro por forças militares dos EUA]. Neste caso, foi feito o uso unilateral da força para extrair um presidente no cargo, ilegítimo, ditador ou como se queira defini-lo, e levar… Ou seja, o que estamos vendo é maiúsculo, é enorme.

BBC News Brasil - O que foi feito com Maduro pode virar uma espécie de laboratório para chegar a ser realizado em outros países?

Guadalupe González - Com certeza. Não tenho a menor dúvida. Até porque do ponto de vista dos Estados Unidos, foi uma operação muito bem sucedida. Mas agora o que estamos vendo é o governo Trump alinhando estes governos de direita, eleitos a partir da demanda popular de mais segurança, mais segurança, em torno do Escudo das Américas [aliança de cooperação militar e de segurança lançada por Trump]. Na verdade, essa é uma maneira de normalizar e de institucionalizar as ações unilaterais dos Estados Unidos. E neste contexto estão incluídos a forma como os imigrantes são tratados, o uso da força, os megapresídios.

BBC News Brasil - E os países, que discordarem desta política, não podem se declarar contrários quando os Estados Unidos declarem grupos criminosos como territoriais?

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Guadalupe González - Poderia se apelar através de instrumentos jurídicos internacionais, com apelações na Corte Interamericana de Direitos Humanos e outras cortes internacionais sobre a legitimidade destas ações.

BBC News Brasil - O governo Trump obedeceria?

Guadalupe González - Provavelmente não. Mas pelo menos se tentaria. Mas o problema é que muitos governos da América Latina se uniram a esta agenda americana cegamente porque lhes gera, acreditam, bons resultados eleitorais.

BBC News Brasil - Como o governo Noboa, do Equador.

Guadalupe González - Claro. Estão importando essa visão. Preocupante.

BBC News Brasil - O México envia grande parte de suas exportações para os Estados Unidos. Como a presidente Claudia Scheinbaum faz para manter apoio popular e ter equilíbrio na relação com Donald Trump?

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Guadalupe González - É uma ação muito forte de equilibrismo. Claudia Scheinbaum entendeu rápido a relação com Trump e que Trump é um personagem muito performático, e que devia encontrar um canal de comunicação direto e muito regular com ele e num espaço neutro, onde o presidente Trump não tivesse espaço para fazer um show midiático. Então, desde o início se optou por uma comunicação regular via telefônica.

BBC News Brasil - Entre os dois diretamente?

Guadalupe González - Exatamente. Eles se falaram várias vezes, neste ano, por telefone, em diferentes momentos. Isso ajudou muito. Outra característica da política exterior de Claudia Scheinbaum na relação bilateral, é algo que o governo mexicano vem fazendo historicamente, que é buscar segmentar a agenda. E é a presidente que unifica o discurso diante dos Estados Unidos diariamente em sua "Mañanera" (entrevista diária à imprensa).

Por ser uma pessoa séria e inteligente, normalmente ela responde com serenidade e tentando evitar que as coisas se descontrolem. Alguns dizem que é uma "diplomacia zen" e também uma diplomacia muito ativa em muitos setores, incluindo as questões econômicas e de imigração de mexicanos nos Estados Unidos.

BBC News Brasil - Paciência estratégica.

Guadalupe González - Mas a posição de Claudia Scheinbaum é cada vez mais difícil e incômoda (pela pressão do governo Trump) pelas ações de combate ao narcotráfico. Porque os Estados Unidos estão solicitando a extradição de integrantes, inclusive governadores....

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BBC News Brasil - Da frente governista Morena...

Guadalupe González - Exato. Governadores do Morena. E isso gera muita dificuldade e tensões no interior do próprio Morena e a decisão dela foi um não absoluto (à extradição). E deixa o governo numa posição difícil porque a oposição diz que este é um "narcogoverno". É muito complexo e daqui até novembro (mês da eleição nos Estados Unidos) se vive um dos momentos mais tensos da relação entre México e Estados Unidos.

BBC News Brasil - Na sua visão, o fato de ela ter essa paciência estratégica e de dialogar regularmente com Trump, pode ser um exemplo para o presidente Lula?

Guadalupe González - Sim. E não politizar a relação. Por exemplo, ela nunca responde publicamente o que ele diz. E Donald Trump diz que ela é uma boa pessoa, que não tem medo dos narcotraficantes...E ela, por sua vez, nestas ocasiões, diz: "Bom, é a opinião do presidente Trump." Como ela diz, cabeça fria.

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