Brasil não é 'republiqueta', diz Lula após decisão do governo Trump sobre PCC e Comando Vermelho

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse, nesta sexta-feira (29), que o Brasil não aceita ser tratado como "republiqueta". A declaração foi feita após o governo dos Estados Unidos designar, nesta quinta-feira (28), o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho), as duas maiores facções criminosas do país, como organizações terroristas.

29 mai 2026 - 15h30

"Não aceitamos ser tratados como moleques, como republiqueta", disse Lula durante um evento oficial em Sergipe. "Primeiro, porque esse tal de Comando Vermelho, esse tal de PCC, são terroristas para as comunidades brasileiras, para a sociedade brasileira, para o povo da periferia deste país", afirmou Lula durante a cerimônia de anúncio de investimentos da Petrobras na cidade de Laranjeiras (SE).

"Eles tiram do povo tudo o que é direito, inclusive o direito de viver livremente. Então, eles são terroristas, e nós vamos combatê-los aqui dentro", declarou. "Eles não são os terroristas que o Trump quer. O Trump quer é o Osama bin Laden. Nós queremos os terroristas brasileiros que estão aqui."

Segundo o presidente, o Brasil está disposto a trabalhar para combater o crime organizado e pretende começar pelo estado de Delaware, onde haveria lavagem de dinheiro envolvendo brasileiros. Lula citou Alexandre Ramagem, ex-diretor da Abin no governo Bolsonaro, ao pedir que os Estados Unidos entreguem brasileiros que estariam em território americano.

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"Vamos começar entregando o Ramagem, que está condenado e está escondido lá. Vamos começar entregando o maior contrabandista de combustível do país, Ricardo Magro. Eu entreguei ao Trump o nome dele e a fotografia da casa dele", declarou.

"O CV e o PCC são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil. Juntas, comandam milhares de integrantes e orquestraram ataques brutais contra policiais brasileiros, funcionários públicos e civis. Sua influência e suas redes ilícitas se estendem muito além das fronteiras do Brasil", declarou o secretário de Estado, Marco Rubio, em comunicado.

O principal adversário eleitoral do petista para as eleições presidenciais de outubro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), manifestou-se favorável à medida logo após ser recebido por Trump no Salão Oval.

Em reportagem nesta sexta (30), o New York Times destaca que questionou o Departamento de Estado americano sobre a relação entre a visita de Flávio e a decisão do governo Trump, mas não obteve resposta. O jornal americano também lembra que as facções criminosas brasileiras exportam drogas principalmente para a Europa e outras partes do mundo, mas não têm papel relevante nos Estados Unidos.

'Organizações terroristas estrangeiras'

Segundo Washington, essa designação possibilita a ampliação de todo tipo de operações - policiais, de inteligência e de contraterrorismo - contra os líderes dessas organizações e seus interesses em qualquer parte do mundo.

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A medida tem duas etapas: inicialmente, o PCC e o CV são classificados como grupos terroristas especialmente designados (SDGT, na sigla em inglês). Assim, os chefes dessas organizações e todos aqueles que se associarem a eles podem ser rapidamente submetidos a sanções por parte do Departamento do Tesouro, que já conta com uma lista de 18 mil nomes, entidades e empresas, que vem aumentando há décadas.

Em seguida, a partir de 5 de junho, detalhou Rubio no comunicado, as duas facções passarão a ser consideradas "organizações terroristas estrangeiras". Apesar da violência desses grupos, reconhecida por Brasília, o governo não os equipara a organizações terroristas com pretensão de colocar o Estado em risco.

O governo Trump considera, por sua vez, que a entrada em massa de drogas e de criminosos da América Latina e do Caribe representa uma ameaça à sua segurança nacional. Essa é a mesma teoria que sustenta os polêmicos ataques, desde setembro do ano passado, contra supostas lanchas de narcotraficantes no Caribe e no Pacífico, que causaram quase 200 mortes.

Acordo para combate ao tráfico de armas

Especialistas em direito internacional e organizações de direitos humanos alegam que os ataques provavelmente equivalem a execuções extrajudiciais. Do ponto de vista político, a classificação das facções brasileiras como terroristas é um claro desdém a Lula, que saiu de seu encontro com Trump "muito satisfeito". 

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Os Estados Unidos e o Brasil assinaram, em abril, um acordo para combater o tráfico de armas e drogas, e Lula havia reconhecido que Trump lhe pedira mais colaboração. Mas o presidente brasileiro relatou à imprensa que os dois continuavam em desacordo sobre elevar o combate ao crime a termos antiterroristas.

Com agências

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