As novas suspeitas que ligam Alexandre de Moraes a Vorcaro

1 set 2026 - 18h16
Resumo
Um relatório da PF revelou supostas ligações entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro do STF Alexandre de Moraes. Mensagens indicam contratos milionários com o escritório da esposa de Moraes, edição de minuta pelo ministro, concessão de cartões e uso de aeronaves. Vorcaro também teria consultado Moraes antes de ser preso e mantido proximidade com o PGR Paulo Gonet, custeando viagem de seu filho. A defesa do escritório afirma que não havia impedimento legal para os serviços prestados.

Relatório da Polícia Federal tornado público por André Mendonça, relator do caso do Banco Master no STF, sugere proximidade de Moraes com o ex-banqueiro.Documentos da Polícia Federal (PF) revelados nesta terça-feira (01/09) pela imprensa brasileira expõem supostos vínculos até então desconhecidos entre o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes.

Documentos da PF revelam o que podem ser vínculos até então desconhecidos entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro
Documentos da PF revelam o que podem ser vínculos até então desconhecidos entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro
Foto: DW / Deutsche Welle

As informações foram tornadas públicas pelo também ministro do STF André Mendonça, relator do caso envolvendo o Banco Master no Supremo.

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As mensagens apreendidas pela PF no celular de Vorcaro expõem o que seriam negociações que resultaram em contratos milionários com o escritório de advocacia da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, além de supostas conversas entre Moraes e Vorcaro, dois dias antes de o ex-banqueiro ser preso pela primeira vez, em novembro do ano passado.

O relatório da PF reproduz as mensagens e as inclui entre comunicações atribuídas ao contato salvo no aparelho de Vorcaro como "Alexandre de Moraes BRASILIA". Segundo os investigadores, análises dos dados extraídos do celular indicam que mensagens e capturas de tela eram encaminhadas para esse contato através do WhatsApp.

Vorcaro está em prisão preventiva desde março deste ano no âmbito das investigações do Caso Master.

Moraes teria editado contrato entre escritório de sua esposa e Vorcaro

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As conversas divulgadas pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmadas por veículos como a TV Globo e o jornal Folha de S. Paulo sugerem que Moraes teria trabalhado na edição de um contrato de prestação de serviços advocatícios no valor de cerca de R$ 131 milhões entre o escritório de sua esposa, Viviane Barci, e Vorcaro.

Os metadados em formato digital do relatório da PF mostram o nome e o usuário vinculado Moraes como o autor da última modificação ou edição do arquivo contratual. O documento foi enviado por Viviane Barci de Moraes a Vorcaro através de aplicativo de mensagens e extraído do celular do ex-banqueiro.

O arquivo "aponta em seus metadados como autor usuário denominado Guilherme Benazzi [administrador do escritório de Viviane Barci de Moraes] e a última modificação realizada por usuário denominado 'Ministro Alexandre de Moraes'", diz o relatório da PF.

Em nota divulgada nesta terça-feira, o escritório Barci de Moraes afirma que "o setor de compliance do escritório, [...] solicitou informações ao Ministro Alexandre de Moraes, na condição de marido da sócia diretora do referido escritório, sobre a eventual existência de impedimentos legais para a contratação nos termos propostos na minuta contratual, tais como ações no STF sobre sua relatoria ou mesmo participação em julgamentos de interesse do possível cliente".

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"Diante da inexistência de previsão de atuação no STF ou de qualquer impedimento legal, uma vez que o Ministro Alexandre de Moraes jamais julgou qualquer causa envolvendo o Banco Master, o contrato foi assinado e os serviços advocatícios devidamente prestados", conclui a nota.

"Contato mais importante que temos"

Vorcaro se queixou para seu sócio Angelo Silva sobre atraso no pagamento mensal ao escritório Barci de Moraes, após ser cobrado por Fabio Faria, ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro. Faria teria sido o responsável por fazer o primeiro contato entre o Moraes e o banqueiro, segundo o relatório da PF. "O careca não pode atrasar", escreveu Faria para Vorcaro.

"Angelo. Pqp. Não pagaram Barci de Moraes. Não tô entendendo isso", escreveu o ex-banqueiro ao acionar seu sócio. "Contato mais importante que temos. Te pedi para não falhar. Surreal. Vamos ter problemas".

Mais tarde, Vorcaro mandou mensagem para uma de suas funcionárias, descrita no aplicativo como "Romy Banco Master", a quem repetiu que o depósito para o Barci de Moraes era o "mais importante".

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"Romy, esse barci Moraes [sic] por favor não deixe atrasar um dia, coloca no seu controle. É o pgto mais importante que temos", escreveu. Após a funcionária dizer que estava fazendo o pagamento, Vorcaro a orientou a acompanhar o processo mensalmente e pagar "do jeito que for".

"Mas todo mês acompanha isso pra mim. Pode pagar sempre, sem nota. Do jeito que for", afirmou.

"Dívida de vida" com Moraes

Na noite do dia 14 de novembro de 2025, três dias antes de ser preso, Vorcaro teria enviado uma mensagem a Moraes dizendo ter uma "dívida de vida" com o ministro do STF e agradecendo-lhe por "tudo".

Na mensagem, Vorcaro escreveu, segundo a PF: "Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros amigos que dependem de nós tem uma dívida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser."

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"Acha que 2ª tenho que estar fora?"

Dois dias antes de ser preso, o ex-banqueiro teria discutido com o ministro a possibilidade de ele ser alvo de uma operação da PF.

No dia 15 de novembro de 2025, Vorcaro teria perguntado a Moraes: "Acha que segunda já tenho que estar fora [do país]?". Em outra mensagem , Vorcaro propõe um encontro: "Às 14h então, na sua casa ou na minha?".

"Muita sacanagem isso. Estou perplexo e indignado. Esses caras vão destruir todo o negócio e sem volta. De repente até melhor eu encarar de frente. Temos que dar um jeito de desarmar isso, meu Deus", acrescentou o ex-banqueiro.

No dia seguinte, Vorcaro teria questionado Moraes em mensagem no WhatsApp: "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?".

Ele acabou sendo preso pela PF na noite de 17 de novembro, quando tentava embarcar em um avião particular no Aeroporto Internacional de São Paulo.

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Cartões de crédito para filhos de Moraes

O relatório da PF também aponta que o dono do Banco Master teria autorizado a emissão de cartões de crédito com limite de R$ 300 mil em nome dos filhos de Moraes e Viviane Barci.

"Bom dia Daniel [Vorcaro], é o Guilherme, que trabalha com a Viviane [Barci], tudo bom? Quer me passar algum contato para falar a respeito do cartão de crédito da Giuliana e Alexandre?", escreveu Guilherme Benazzi, administrador do escritório de Viviane Barci, referindo-se a dois filhos do casal em mensagem a Vorcaro.

"Oi tudo bem?", teria respondido Vorcaro, antes de encaminhar os contatos do banco.

No mesmo dia, Adriana teria enviado mensagem a Vorcaro questionando se podia seguir com a emissão dos cartões de crédito. "O Guilherme que trabalha com a dra. Viviane me ligou para emitir cartão para os filhos dela... limite de 300 para cada… posso seguir?"

Ele responde com um "Ok".

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Vorcaro negociou cotas de jatinho com Viviane

O relatório afirma que o ex-banqueiro negociou a transferência de cotas de um jatinho e um helicóptero como pagamento para o escritório de Viviane Barci de Moraes. Um segundo contrato revelado pela PF previa o pagamento de R$ 50 milhões pelos serviços advocatícios prestados pelo escritório.

Desses, R$ 40 milhões seriam quitados pelas cotas das duas aeronaves. Os outros R$ 10 milhões entrariam como reembolso das despesas relacionadas aos voos.

Em julho de 2025, Vorcaro cobrou resoluções sobre pendências de ativos e discutiu a liberação das aeronaves com interlocutores ligados à empresa Prime You, especializada no compartilhamento de bens de luxo.

Em uma das conversas, Vorcaro perguntou a seu sócio Marcus Vinicius da Mata se as aeronaves já estavam sendo utilizadas pelo escritório de Viviane.

Mata respondeu enviando o trecho de uma conversa com Viviane. "Estão gostando da utilização das cotas de vocês?" perguntou o sócio de Vorcaro.

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Viviane é citada afirmando que "sim, estamos gostando muito". Nas conversas reveladas pela PF há menção de outra viagem marcada por uma funcionária da Prime You para Viviane.

Proximidade com Paulo Gonet

As mensagens também sugerem uma proximidade entre o banqueiro e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, com o advogado Ciro Soares sendo o principal interlocutor entre os dois.

Segundo o relatório, Vorcaro teria viabilizado o pagamento de despesas de uma viagem a Londres de Pedro Gonet, filho do procurador-geral.

Em abril de 2024, Ciro Soares escreveu a Vorcaro que "amizade é tudo viu irmão [sic]" e que "Gonet é firme". Segundo as mensagens, o procurador-geral da República teria ajudado a convencer um candidato a deixar uma disputa em favor de Jarbas Soares Júnior, então procurador-geral de Justiça de Minas Gerais.

A disputa em questão era para a Presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais do Ministério Público dos Estados e da União (CNPG).

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Em 15 de março, Ciro enviou a Vorcaro uma foto em que aparece ao lado de Gonet e escreve "liga aqui" e "ele quer falar com você". Segundo a perícia, foram realizadas quatro chamadas consecutivas entre Vorcaro e Ciro na sequência, o que sugere que o banqueiro tenha conversado com Gonet através do telefone do advogado.

Mais tarde, em 28 de março, Ciro encaminhou a Vorcaro mensagens atribuídas ao procurador-geral: "já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma" e "Manda essa mensagem para ele". O advogado disse que Gonet iria com eles para Londres e encaminha outro comentário atribuído ao procurador-geral: "Oba!!! Tomara que tenha charuto e macalan! [sic]", provavelmente se referindo à marca de whisky escocês Macallan.

Em 29 de março o advogado escreve a Vorcaro que "Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres". O banqueiro responde: "Obvio né [sic]". Dias depois, Ana Matos, funcionária da área de marketing do banco, envia a Vorcaro uma lista de nomes para aprovação dos custos da viagem. Ele responde: "Pedro e Ciro ok", ou seja, autorizando o pagamento das despesas dos dois.

Em Abril de 2025, após a divulgação de uma reportagem sobre negociações e operações financeiras entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB), Ciro diz a Vorcaro que precisava falar com ele com urgência e afirma estar a caminho da Procuradoria-Geral da República: "Estou indo no PG agora [sic]".

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rc/ra (ots)

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