Reportagem do Financial Times destaca como a expansão do crime organizado, com facções presentes em quase todo o país e dominando territórios urbanos, tornou a segurança pública tema central da disputa presidencial. Impulsionado pelo medo popular, o candidato Flávio Bolsonaro lidera com propostas de repressão policial e megapresídios inspiradas em El Salvador. Contudo, especialistas alertam que tais medidas já falharam no passado e que o real desafio estatal é recuperar áreas dominadas.
Uma reportagem publicada pelo jornal britânico Financial Times nesta quinta-feira (15/10) retrata a crescente violência de facções criminosas no Brasil e aponta para o peso da segurança pública nas eleições presidenciais de 2026.
Segundo a publicação, "o medo e a raiva em relação ao crime organizado" marcaram uma série de eleições recentes na América Latina e o senador e candidato Flávio Bolsonaro (PL) espera que o mesmo aconteça nas urnas brasileiras.
"A percepção de que as autoridades brasileiras têm sido negligentes no combate aos grupos armados tem sido um dos principais motivos para o surgimento de um movimento populista de direita. Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, está em posição privilegiada para vencer a eleição presidencial de 25 de outubro, após ter ficado em primeiro lugar no primeiro turno das eleições", diz a reportagem.
Intitulada "As gangues, as armas e a batalha pelo Brasil", a matéria descreve como facções criminosas e milícias passaram a exercer controle sobre parcelas significativas do território brasileiro, especialmente em comunidades urbanas do Rio de Janeiro, influenciando a vida cotidiana de milhões de pessoas e ampliando seu alcance para praticamente todo o país.
Os repórteres visitaram o Complexo da Penha, na zona norte do Rio, onde moradores relatam a presença constante de barricadas armadas operadas por integrantes do Comando Vermelho. Um deles, o professor de artes marciais Thiago Braga, afirma que a circulação na região passou a ser controlada por traficantes fortemente armados e que o Estado está, em grande medida, ausente. "Se os jovens na barricada são mortos, outros tomam seu lugar. É um processo sem fim", afirmou ao Financial Times.
O texto destaca que, segundo levantamento do Instituto Fogo Cruzado e da Universidade Federal Fluminense, 31% do território do município do Rio está atualmente sob controle direto ou influência de grupos armados. Nessas áreas vivem quase 3 milhões de pessoas, o equivalente a mais de 40% da população da cidade. Ainda de acordo com a reportagem, o espaço dominado por essas organizações mais do que dobrou desde 2008.
"Poucos lugares na América Latina têm a mesma escala, diversidade e descaramento de comportamento de gangues como o Rio de Janeiro", diz o texto.
Mas o Financial Times afirma que o fenômeno deixou de ser um problema concentrado no Rio. Dados citados pelo jornal indicam que o Comando Vermelho já possui presença em 26 das 27 unidades federativas do país. O Primeiro Comando da Capital (PCC), principal grupo criminoso de São Paulo, também alcançou 26 Estados.
Especialistas ouvidos pela publicação avaliam que ambas as organizações já contam com mais integrantes do que alguns dos mais famosos cartéis da Colômbia e do México.
A reportagem também chama atenção para o avanço dessas organizações sobre a política.
"Em março, Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, foi preso e aguarda julgamento sob a acusação de atuar em favor do Comando Vermelho", cita o jornal.
Ao abordar as propostas de Flávio Bolsonaro para a área de segurança, o FT destaca promessas de ampliar operações policiais e construir megapresídios para integrantes de facções, em linha com estratégias adotadas em outros países da região, como El Salvador.
A publicação observa, contudo, que diversos especialistas questionam a eficácia dessas medidas. Segundo eles, justamente dentro do sistema prisional surgiram organizações como o Comando Vermelho e o PCC, que posteriormente expandiram suas redes pelo país.
"Bolsonaro, carioca, promete operações policiais mais agressivas e megaprisões para membros de gangues. No entanto, críticos afirmam que isso é exatamente o que o Brasil vem fazendo nas últimas três décadas. O Rio já possui uma das maiores taxas de pessoas mortas pela polícia no mundo", diz o texto.
O FT também destaca a proximidade de Flávio Bolsonaro com o governo de Donald Trump, que defende uma resposta mais militarizada contra a violência de gangues na América Latina e cujo governo classificou o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
"Para Lula, as pesquisas mostram que a segurança é um de seus pontos fracos. Para a frustração de muitos brasileiros mais pobres, uma ala da esquerda há muito minimiza a necessidade de confrontar grupos armados, argumentando que a redução da pobreza é a melhor maneira de resolver a violência urbana", diz a reportagem.
No entanto, o jornal britânico destaca que durante seu mandato atual, o governo federal lançou uma série de investigações sobre lavagem de dinheiro por gangues de tráfico de drogas.
"Os planos de Bolsonaro podem ter apelo popular, mas não foram bem recebidos por muitos dos especialistas que estudam a violência no Brasil. Eles enfatizam que o Comando Vermelho e o PCC foram fundados dentro de prisões e, desde então, têm usado o sistema para recrutar e construir redes nacionais", afirma o FT.
O jornal sugere ainda que, independentemente do vencedor da eleição presidencial brasileira, uma solução duradoura dependerá de o Estado recuperar o controle de territórios atualmente governados por facções e milícias.
"Na preparação para as Olimpíadas, o Rio tentou implementar um novo modelo que instalava quartéis da polícia em favelas e iniciava o patrulhamento da comunidade. Os níveis de violência caíram em muitas das favelas onde o programa foi implementado. No entanto, o programa, na prática, entrou em colapso em meio a uma grave crise econômica no Estado do Rio em 2016", diz.
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