A pesada herança econômica dos Kirchner

19 out 2015 - 12h32

Doze anos de kirchnerismo na Argentina deixaram uma série de problemas para o próximo presidente. Questões como desemprego, déficit fiscal e inflação devem limitar capacidade de ação e complicar sua gestão.

Dez problemas, alguns recentes, outros crônicos, pesam sobre a economia Argentina, podendo trazer complicações sérias para o próximo governo, que será eleito nas presidenciais deste domingo (25/10). Os dez principais são a reprimarização, o protecionismo, o desemprego, a sobrevalorização da moeda, o déficit fiscal, a inflação, o alto risco-país, a falta de crédito externo, os chamados fundos abutre e o déficit energético.

Publicidade

A reprimarização está na base dos problemas estruturais do país. Aproximadamente dois terços das exportações argentinas atuais são de produtos agrícolas e alimentos; um terço é de produtos industriais (sobretudo carros e químicos) e cerca de 6% é de combustíveis e energia. Há 15 anos, as exportações de bens industriais representavam 40%.

"A reprimarização é um dos principais problemas, porque as receitas do auge econômico, entre 2003 e 2008, foram destinadas a programas assistencialistas e não ao investimento na economia, educação e infraestrutura", explica Klaus Bodemer, pesquisador do instituto alemão Giga, especializado em estudos latino-americanos.

Um dos países mais protecionistas do mundo

Paralelamente, a Argentina é um dos países mais protecionistas do mundo. De acordo com dados do Global Trade Alert, Buenos Aires aplica 278 barreiras comerciais discriminatórias a mais que qualquer outro país na América Latina.

Publicidade

"O protecionismo tem tido consequências muito negativas, especialmente nas relações comerciais com o Brasil. Além de bloquear o Mercosul e baixar a competitividade da produção nacional", analisa Bodemer.

Primarização e protecionismo, por sua vez, levaram a tendências recessivas e a um aumento do desemprego. A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) prevê crescimento de 1,6% para 2016, e o FMI, de 0,4%.

São cifras muito tímidas, considerando principalmente o crescimento da despesa do Estado e o aumento do desemprego – que está em 6,6%, de acordo com o Instituto Nacional de Estatística da Argentina (Indec), devendo subir a 8,4% no próximo ano, segundo o FMI. Já o Instituto de Estudos Trabalhistas e da Universidade UCES, de Buenos Aires, afirma que o desemprego já se encontra em 11%.

O desemprego, o subemprego e o emprego informal, por sua vez, levam a um alto índice de pobreza. Para o Observatório Social da Universidade Católica Argentina, em 2014 a pobreza atingia 28,7% da população, ou seja, cerca de 11,5 milhões de pessoas.

Publicidade

Déficit fiscal, inflação e peso sobrevalorizado

O governo tem tentado combater o desemprego e a pobreza através de programas sociais. O problema: eles não são financiados com recursos reais, mas com déficit fiscal e inflação. De acordo com os economistas do Instituto de Desenvolvimento Social da Argentina, o déficit fiscal deste ano chegou a 6,3% do PIB. Este déficit é um dos principais motores da inflação, que, de acordo com estimativas de organizações internacionais, pode chegar a 25% no próximo ano.

A inflação, por sua vez, exerce pressão sobre a taxa de câmbio. Normalmente, com inflação alta, o dólar deveria subir. Para evitar isso, o governo controla o câmbio.

"A taxa de câmbio está claramente manipulada, e o dólar, desvalorizado. Isso causa enormes restrições na importação. As empresas têm pouco acesso a moeda estrangeira e tudo isso retarda o crescimento", explica Bodemer. Além disso, as reservas cambiais estão reduzidas, tendo caído, em poucos anos, de 33 bilhões de dólares para os atuais 11 bilhões de dólares.

Um alto risco-país

O conjunto de medidas intervencionistas, controles de câmbio, a insegurança jurídica e a corrupção (a Argentina está na posição 107 de 175 países, de acordo com a Transparência Internacional) levam a um alto risco-país, que se reflete nos juros para empréstimos nos mercados internacionais.

Publicidade

Na América Latina, a Argentina tem um risco-país três vezes maior que o Peru e duas vezes maior que a Colômbia. Isso torna difícil e cara a obtenção de empréstimos externos, o que, por sua vez, limita os investimentos.

A situação é agravada pelos conflitos com os chamados "fundos abutre", que não fizeram parte do corte da velha dívida da Argentina e agora cobram 100% do capital, acrescido de juros. Depois de uma decisão a seu favor, em Nova York (local de emissão dos títulos em questão), e a recusa da Argentina em pagar, o país está em um estado de "default técnico".

Para completar, o atual governo não consegue fechar um déficit crônico de energia. "É o resultado de uma má política de recursos energéticos na última década, que leva que a Argentina gaste agora enormes somas na importação de energia, especialmente de Bolívia, Venezuela e Brasil", diz Bodemer.

O ponto decisivo foi em 2011, com a expropriação da empresa espanhola Repsol. O pomo da discórdia foi o campo de petróleo de xisto de Vaca Muerta. Ironia da economia: hoje, com o petróleo abaixo de 50 dólares o barril, a extração é muito cara e não vale a pena.

Publicidade
A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
TAGS
Curtiu? Fique por dentro das principais notícias através do nosso ZAP
Inscreva-se