A crise de saúde mental em Israel três anos após os ataques de 7 de outubro

7 out 2026 - 12h08
Resumo
Três anos após os ataques do Hamas em 7 de outubro, Israel vive uma grave crise de saúde mental sem precedentes, afetando quase 40% da população com estresse pós-traumático, ansiedade e depressão. O sistema público de saúde não consegue suprir a alta demanda devido à falta de profissionais e a esperas superiores a seis meses, gerando aumento no consumo de sedativos e casos de suicídio, inclusive entre soldados. A verba ampliada segue insuficiente para tratar o trauma contínuo no país.

Mais de um terço dos israelenses apresentam sintomas de transtorno mental, segundo relatório. Três anos após ataque terrorista do Hamas, o sistema de saúde do país ainda luta para lidar com seus efeitos.Aviso: Esta reportagem contém referências a suicídio que podem ser perturbadoras para alguns leitores.

Quase 400 pessoas foram assassinadas no festival Nova, em Israel, onde hoje há um memorial
Quase 400 pessoas foram assassinadas no festival Nova, em Israel, onde hoje há um memorial
Foto: DW / Deutsche Welle

Nas vésperas do terceiro aniversário dos ataques de 7 de outubro, o corpo de Ronen Shalev lhe avisava que algo estava por vir.

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"Você começa a tremer", diz ele à DW. "Não é apenas um dia que passa e pronto. Temos muitos túmulos para visitar, muitas famílias para encontrar. É um período difícil, e você sente isso no corpo."

Os dois filhos dele participaram do festival Super Nova, no sul de Israel, onde quase 400 pessoas foram mortas em um ataque terrorista realizado pelo grupo militante palestino Hamas e facções aliadas em Gaza. Ao todo, cerca de 1.200 pessoas morreram no ataque, e aproximadamente 250 foram feitas reféns.

O ataque desencadeou a guerra em Gaza, durante a qual Israel matou dezenas de milhares de palestinos e deslocou grande parte da população do território.

O filho de Shalev, Roee, foi baleado e hospitalizado, mas sobreviveu. A companheira de Roee, Mapal Adam, foi morta diante de seus olhos. A filha de Shalev, Lior, também conseguiu escapar.

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Pouco depois daquele dia, a esposa de Shalev, Gavriela, desapareceu. Mais tarde, seu corpo foi encontrado dentro de um carro queimado, junto com uma carta de despedida. "Ela não conseguiu suportar a tristeza daquele dia", afirma Shalev.

Ao mesmo tempo, começaram a surgir os sintomas de estresse pós-traumático de seu filho Roee, com mudanças extremas de humor. "Ele procurou tratamento para me agradar, mas não acreditava de verdade nele. Achava que estava bem, que era forte", relembra Shalev.

Dois anos após a morte de Gavriela, O próprio Roee já não conseguia mais suportar. "Estou vivo, mas morto por dentro", escreveu Roee em sua mensagem de despedida, publicada em sua conta no Instagram. "Desculpe."

Um país em estado pós-traumático

Desde outubro de 2023, Israel enfrenta uma crise de saúde mental de escala sem precedentes.

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Segundo um relatório da Controladoria do Estado de Israel, divulgado em fevereiro de 2025, cerca de 39% da população israelense relatou sofrer sintomas de estresse pós-traumático, depressão, ansiedade ou uma combinação dos três em nível moderado ou grave.

Isso equivale a cerca de 3 milhões de pessoas, das quais 600 mil poderiam apresentar quadros graves. O relatório também concluiu que o número de pessoas recebendo tratamento em saúde mental aumentou apenas 1% desde 7 de outubro de 2023, uma diferença de aproximadamente 60 mil indivíduos.

Entre os grupos afetados estão sobreviventes do ataque, além de pessoas retiradas de suas casas no sul e no norte de Israel por causa da guerra.

Noga Dagan-Buzaglo é pesquisadora do Centro Adva, um centro de estudos dedicado à desigualdade na sociedade israelense. Ela escreveu um extenso estudo sobre o sistema de saúde mental de Israel e seus desafios após o 7 de outubro.

Ela afirmou à DW que, embora o orçamento destinado à saúde mental tenha aumentado em razão da guerra, o reforço foi insuficiente e tardio, já que o sistema de saúde enfrentava uma crise contínua que não foi adequadamente administrada.

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"O maior desafio é convencer as pessoas a trabalharem no sistema público de saúde mental de Israel, tanto pelos salários mais baixos em comparação com o setor privado quanto pela sobrecarga de trabalho", afirma.

Sedativos costumam ser a solução mais adotada

A situação atual também afeta os profissionais de saúde mental. Uma pesquisa da Universidade de Haifa constatou que 84% dos terapeutas que atenderam pessoas afetadas pelos ataques de 7 de outubro apresentaram eles próprios sintomas traumáticos, e cerca de 45% disseram sentir esgotamento mental.

O Ministério da Saúde de Israel afirmou repetidamente ter ampliado o financiamento e o número de vagas de trabalho no sistema público de saúde mental do país, mas a escassez de profissionais continua, especialmente nas regiões periféricas do extremo norte e do extremo sul.

Por causa desses problemas, o relatório apontou que o tempo de espera para tratamento pelo sistema público de saúde israelense ultrapassava seis meses. Em alguns casos, segundo Dagan-Buzaglo, pacientes precisaram esperar mais de um ano para receber ajuda.

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ONGs ligadas à saúde mental e voluntários tentam preencher essas lacunas, muitas vezes também enfrentando dificuldades devido à elevada carga de trabalho. Isso contribui para um aumento do uso de medicamentos prescritos. Algumas pessoas recorrem ainda ao álcool e a drogas.

O Ministério da Saúde de Israel informou no início deste ano que registrou aumento entre 13% e 17% na prescrição de sedativos, remédios para dormir e antidepressivos.

Quem mais sofre com a situação são aqueles que não têm condições de pagar por um terapeuta privado. Dagan-Buzaglo classifica a resposta do sistema público de saúde israelense como "simplesmente ruim".

Soldados em risco

Os soldados que participam de combates receberam atenção especial na crise de saúde mental de Israel.

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Estatísticas publicadas pelo Parlamento israelense e pelas Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) apontam um forte aumento nos casos de suicídio entre reservistas, que saíram do patamar de no máximo um caso por ano nos seis anos anteriores à guerra para 11 casos em 2024, além de nove casos investigados como suspeitas de suicídio em 2025. Os números não incluem ex-militares que tiraram a própria vida em decorrência de traumas após o fim do serviço.

Dagan-Buzaglo afirma que, embora os profissionais recebam melhores salários e condições ao trabalhar para as Forças Armadas, a falta de pessoal continua evidente. "Também no Exército, a duração e a qualidade do tratamento estão longe de um nível adequado."

Para começar a resolver o problema, tanto entre civis quanto entre militares, ela acredita que o sistema precisa de mais apoio. "Temos de reconhecer que o trauma não acaba depois de um ano. Isso significa investir dinheiro."

Rompendo o tabu

Ronen Shalev realiza palestras regularmente e fala sobre a importância da saúde mental, muitas vezes para grupos de soldados. Ele acredita que essa é a melhor forma de dar continuidade ao legado de seu filho na luta por seguir vivendo.

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Shalev, que foi diagnosticado com transtorno de estresse pós-traumático, afirma que fez a escolha de viver sua vida de forma plena. Sua mensagem é que o tabu em torno do comportamento suicida, ainda presente na sociedade israelense, precisa ser rompido. "Isso é especialmente verdadeiro para aqueles que dizem que são fortes. São eles que mais preocupam, porque têm menos probabilidade de procurar tratamento."

Para Shalev, falar publicamente sobre a experiência de sua família tornou-se parte de seu próprio processo de recuperação e também uma forma de incentivar outras pessoas a buscar ajuda antes de chegarem a um ponto de crise. "A vida, com toda a sua dor, é uma escolha que vale a pena."

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Se você enfrenta problemas emocionais e tem pensamentos suicidas, não deixe de procurar ajuda profissional. Você pode buscar ajuda neste site: https://www.befrienders.org/portugese

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