A "cidade atômica" ainda em ruínas 40 anos após Chernobyl

25 abr 2026 - 07h50

Acidente nuclear levou quase 50 mil pessoas a perderem suas casas para sempre em Pripyat. Desativação da usina continua sob a sombra da guerra na Ucrânia.Veículos abandonados perecem à beira das ruas. Brinquedos, restos de eletrodomésticos, louças e placas parcialmente desbotadas em língua russa, que informam sobre o nível de radioatividade, estão espalhados ao lado das casas. Os prédios estão vazios, com janelas quebradas e portas escancaradas.

Roda-gigante que simboliza Pripyat seria inaugurada dias após a data em que ocorreu o acidente nuclear
Roda-gigante que simboliza Pripyat seria inaugurada dias após a data em que ocorreu o acidente nuclear
Foto: DW / Deutsche Welle

A cidade de Pripyat, na Ucrânia, também chamada de "cidade atômica", era, há 40 anos, o grande orgulho do setor soviético de energia nuclear. Prometia‑se a ela um futuro grandioso.

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Ela fica próxima da usina nuclear de Chernobyl, que a liderança da então União Soviética (URSS) pretendia transformar na maior do mundo. Ao todo, 12 blocos de reatores deveriam ser construídos, e em Pripyat morariam os trabalhadores com suas famílias.

Quando em 26 de abril de 1986 o reator número 4 de Chernobyl explodiu, a cidade existia havia apenas 16 anos. Pripyat contava com 160 edifícios, 13,5 mil apartamentos, 15 jardins de infância e cinco escolas.

Quarenta anos depois do acidente nuclear, os prédios estão em ruínas. Quase 50 mil pessoas perderam suas casas para sempre. Arbustos e árvores crescem por toda parte, formando um emaranhado de vegetação.

Memórias espalhadas pelo chão

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Volodimir Vorobei, um ex‑morador da "cidade atômica", tinha 18 anos naquele abril de 1986. Trabalhava como eletricista em uma empresa estatal que, no dia anterior ao acidente nuclear, instalava linhas de energia que levavam ao bloco 4. Foi este o reator que explodiu.

"Aqui é a rua Lesya Ukrainka e o nosso prédio, número 18‑A, onde eu morava com meus pais e meu irmão mais velho, no térreo", conta. A escadaria é relativamente espaçosa, com portas grandes, uma escada confortável e corredores largos.

No antigo apartamento, cuja porta fica aberta, Vorobei vai direto ao cômodo que fora um dia o seu quarto e pega um disco de vinil do lixo espalhado pelo chão. O objeto o faz lembrar de quanto a família ouvia música naquela época.

Mas ele também se recorda de como sentiu falta dos tênis novos e modernos que esqueceu num armário durante a evacuação. Outros objetos daquele tempo, como cadeiras e sapatos, permanecem ali.

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Uma placa com os nomes dos vizinhos ainda está pendurada na entrada do prédio. Vorobei não sabe o que aconteceu com eles após a evacuação. Desde o acidente, ele nunca mais viu ninguém dali.

"Não sabíamos quais seriam as consequências"

Ele próprio não ouviu a explosão e quis ir trabalhar normalmente naquela manhã. Mas não havia ônibus e, quando foi a pé com um amigo até a usina, viu o prédio destruído.

"Na época, não sabíamos o que tinha acontecido, nem exatamente onde. Não havia fumaça, mas calor. Um verdadeiro fluxo de calor subia para o céu", relata. "Um homem passou de bicicleta e disse que era perigoso ali. Então voltamos para casa."

Somente à noite ele soube, por meio do irmão mais velho — que trabalhava na usina —, sobre o acidente e a evacuação iminente. "No começo achamos que seria só por alguns dias."

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Sua família deixou Pripyat num trem superlotado. "Pela janela do trem vimos o reator 4 destruído. Naquela época não refletimos sobre isso e não sabíamos quais seriam as consequências do acidente nem que nunca mais voltaríamos para casa."

"O átomo deve servir aos trabalhadores"

No cinema Prometheus, que Vorobei frequentava com amigos, pendem retratos desbotados de antigos dirigentes do Partido Comunista, hoje esquecidos.

Símbolos soviéticos são onipresentes no centro de Pripyat. Os telhados de dois prédios altos ainda exibem emblemas da Ucrânia soviética. Num terceiro, lê‑se em enormes letras metálicas: "O átomo deve servir aos trabalhadores, não aos soldados".

Era essa a ideia que a população local tinha da energia nuclear soviética, conta Vorobei. Em universidades e institutos, em treinamentos para funcionários de usinas — em todos os lugares se ensinava que as usinas da URSS eram as mais seguras do mundo.

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Era virtualmente inimaginável a explosão de um reator. "Nos diziam que um acidente radiológico era impossível. Tudo havia sido previsto e calculado. Nem nos passava pela cabeça que um acidente pudesse acontecer", diz o antigo morador.

Por isso, a maioria dos moradores de Pripyat e de Chernobyl, incluindo os funcionários da usina, não tinha conhecimento dos riscos reais para a saúde e o meio ambiente. Muito menos sabiam da extensão da contaminação radioativa.

"Quem sabia de algo divulgava pouca informação. Ainda eram tempos soviéticos. Uma palavra mal colocada podia custar a carreira." Outro acidente, ocorrido em 1975 na usina nuclear de Leningrado, fora mantido em segredo.

Desativação de Chernobyl continua

Um ano após a catástrofe, Vorobei seria convocado para o serviço militar. Mais tarde estudaria engenharia e se mudaria para Slavutych, na Ucrânia. A cidade foi construída como substituta de Pripyat.

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De lá, ele se deslocava diariamente para trabalhar na usina de Chernobyl, onde passou de mecânico a supervisor. Há onze anos, ele dirige o departamento de automação térmica e tecnologia de medição.

Desde o ano 2000, não se produz mais eletricidade em Chernobyl. No entanto, os trabalhos de desativação da usina continuam. No terreno da antiga usina existem instalações para remover com segurança combustíveis radioativos e processar resíduos contaminados.

Sobre o bloco 4 explodido e o chamado "sarcófago" de concreto, construído às pressas em 1986, começou a se erguer nos últimos anos uma nova estrutura de proteção, denominada New Safe Confinement (Novo Confinamento Seguro).

Em 2025, esta cobertura foi perfurada por um drone de combate russo. Segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), a cúpula não cumpre a principal função de segurança desde então.

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"Talvez a história tivesse tomado outro rumo"

A roda‑gigante de Pripyat, símbolo mundialmente conhecido da cidade abandonada, era parte da rota para turistas que visitavam a região antes da invasão russa à Ucrânia em 2022.

Oficialmente, ela nunca entrou em funcionamento, pois deveria ter sido inaugurada solenemente em 1º de maio de 1986, o Dia do Trabalhador.

"Não acredite nas histórias de que ninguém jamais andou nela. Alunos da minha escola técnica, inclusive eu, foram usados como testadores. Então, sim, eu andei nela", diz Vorobei, sorrindo.

Ele admite que até hoje não sabe qual dose de radiação recebeu desde 1986. "É possível solicitar um certificado, mas eu não quero."

Questionado sobre o quanto a catástrofe mudou sua vida, ele responde que, aos 18 anos, ainda não tinha grandes planos. Agora, 40 anos depois, ao olhar para trás, lhe parece "como se todos estivessem caminhando em uma mesma direção e, de repente, tivessem se virado para seguir outro caminho".

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E por isso, acredita, "a história do mundo e da Ucrânia talvez tivesse sido diferente se a catástrofe de Chernobyl não tivesse acontecido".

A explosão em 1986 espalhou radiação por toda a Europa. O último reator em operação da usina foi desligado em 2000.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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