Em uma casa onde o som de um tambor pode ser o prelúdio para o almoço e guitarras repousam na sala como parte do mobiliário, o ritmo é ditado pelo coração. Silvanny Sivuca e Ana Paula celebram este Dia das Mães com a maturidade de quem divide a vida há 13 anos e o frescor de quem redescobre o mundo há quase três anos — tempo de vida do pequeno Pedro.
Para Silvanny, mulher preta, percussionista, produtora musical e mestre de bateria, a maternidade não foi um estalo repentino, mas uma construção de tijolo sobre tijolo. "O desejo foi sendo construído na nossa relação, no cuidado uma com a outra. Entendemos que agora fazia sentido ampliar isso. O Pedro chegou para confirmar que família não é formato, é escolha diária", conta a musicista.
Na casa de Ana e Silvanny, os papéis não são engessados ou roteirizados. A dinâmica é simples e baseada na parceria. Enquanto Ana cuida do cotidiano com uma atenção que Silvanny descreve como "um cuidado às vezes silencioso", a rotina de estrada e ensaios da artista exige um jogo de cintura emocional.
"Tem dias que eu chego destruída de estrada, emocionalmente cansada, e a Ana já deixou a casa num clima leve para o Pedro sentir amor e não peso. Minha forma de maternar vem daí: do afeto, mas também da sobrevivência. Da vontade de fazer diferente sem esquecer de onde eu vim”, desabafa.
A visibilidade da família é encarada como um ato de responsabilidade. Silvanny sabe que ocupar esses espaços como uma mulher lésbica e preta abre portas. "Eu não compartilho minha vivência para provar nada. Compartilho porque sei que isso abre caminho para outras mães que só precisam ver para entender que é possível."
A carreira de Sivuca, como é conhecida no meio artistico, é marcada pelo pioneirismo em espaços majoritariamente masculinos. Hoje, o maior desafio é equilibrar a potência de ser uma líder musical com a saudade que aperta no peito durante as turnês. "Já chorei no aeroporto. Já subi no palco emocionalmente dividida", confessa. "Mas existe o desejo de mostrar para o meu filho que a mãe dele lutou pelos sonhos dela. Transformo a culpa em presença. Quando estou com ele, eu realmente estou."
Essa dedicação transborda na educação do pequeno Pedro. As telas são evitadas em prol de livros e instrumentos musicais, mas sem exageros, segundo as mamães, as telas acabam ajudando em dias corridos. O menino já reconhece a mãe Sil na TV e celebra com batucadas, mas o momento que realmente fez o mundo parar foi a conquista da linguagem: "O dia que ele falou ‘Mamãe Sil’ e ‘Mamãe Ana’ teve um sentido de pertencimento. Ali, o amor foi nomeado”, relembra a produtora musical.
Fisicamente, Pedro é a cara de Ana. No temperamento — intenso, observador e um pouco teimoso — ele carrega a essência de Silvanny. É essa mistura que as mães desejam proteger e expandir. Os planos de aumentar a família existem, movidos pela vontade de ouvir "passinhos pequenos" novamente pela casa e toda a sensação de amor que transborda com a chegada de uma criança.
Para o futuro, o objetivo é criar um homem que sinta. "Queremos criar um menino que saiba que pode chorar, pedir ajuda e se desculpar. Que saiba que carinho não diminui a masculinidade", afirma Sivuca.
Se pudesse falar com a menina que aprendeu pandeiro sozinha anos atrás, a Silvanny de hoje seria breve e afetuosa: "Eu diria que vai valer a pena. Você vai construir uma família linda e ser amada do jeito que merece, sem precisar abandonar quem você é."
Neste Dia das Mães, o desejo da família é simples, mas revolucionário: que Pedro siga sensível em um mundo que tenta endurecer as pessoas. Afinal, como elas fazem questão de ensinar, ele não nasceu de um padrão, nasceu de muito amor.