Carol Valença fala ao Game On sobre desafios da dublagem em Fading Echo

Atriz comenta construção da protagonista One, variações emocionais e bastidores da dublagem para games

1 mai 2026 - 11h00
Carol Valença fala ao Game On sobre desafios da dublagem em Fading Echo
Carol Valença fala ao Game On sobre desafios da dublagem em Fading Echo
Foto: Reprodução / New Tales

Durante a gamescom latam 2026, conversamos com Carol Valença sobre o trabalho em Fading Echo e os desafios de dar voz à protagonista One. Com um histórico conhecido por personagens como Monkey D. Luffy, de One Piece, e Abby Anderson, de The Last of Us Part II, a atriz falou sobre interpretação, processo criativo e adaptação para jogos.

Na conversa, ela pode detalhar como constrói a identidade da personagem, o papel do diretor nas gravações e as dificuldades de manter a consistência emocional em sessões fragmentadas. Também comenta o crescimento da dublagem brasileira nos games e o impacto de uma boa localização na experiência de quem joga.

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Terra Game On: Dublar um RPG de ação costuma exigir um volume grande de falas e variações emocionais. Qual foi o maior desafio durante as gravações?

Carol Valença: O maior desafio eu acho que é o início, quando você ainda tá entendendo a personagem, né? Quando você chega pra gravar, o diretor te contextualiza de tudo. Porque a gente não sabe de nada, quem sabe é ele que tá ali acompanhando os clientes, os desenvolvedores que geralmente acompanham a nossa gravação. Eu acho que foi mais ter esse entendimento.

Aí a gente faz as primeiras frases e o diretor meio que corrige, fala, olha, essa daqui é essa vibe dela. Ou então, na outra ele fala: "Não, não é essa vibe, vai um pouco mais pra cá, um pouco mais pra lá, faz um pouco mais assim, porque ela é assim, assim, assado". Aí vai levando a gente pro lugar certo pra gente realmente encarnar a personagem, né?

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Então eu acho que a coisa mais desafiadora não foi só nesse trabalho, mas em todos. É esse início que a gente precisa pegar. Quem é a personagem? Como é que ela fala? O que ela diz? Como se comporta? Se é mais sarcástica, se tem mais sarcasmo na voz, mais peso.

E a One, eu percebi nela que ela transita muito por esses lugares. Ela tem um humor, tem uma leveza, mas também tem um sarcasmozinho. Ela também carrega o peso de ser tão jovem e já ser aquela que vai ter que resolver a parada, né? De salvar o mundo.

Então eu tenho que pensar nisso tudo e, na hora de gravar, fazer com que as pessoas percebam e sintam isso. Claro que a gente tem o original pra seguir, só que em outro idioma você não capta tanto as intenções de quem tá falando. Quando a gente coloca no nosso idioma, que é como a galera vai ouvir, é que a gente ajusta algumas palavras pra tentar exprimir melhor aquela sensação.

Terra Game On: Você construiu uma carreira muito ligada a personagens carismáticos e expressivos. O que a protagonista de Fading Echo exige de diferente em termos de interpretação?

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Carol Valença: Em termos de interpretação, eu acho que é isso, saber transitar entre essas emoções dela. Ainda mais que, por causa das shadows, cada hora você tá no mesmo lugar, mas é tudo diferente. Então são desafios diferentes. Eu acho que é isso, saber mesmo transitar nessas emoções.

Foto: Reprodução / New Tales

Terra Game On: A dublagem para games costuma ter um ritmo de gravação bem fragmentado. Como você se prepara para manter a continuidade emocional mesmo gravando falas fora de ordem?

Carol Valença: Porque o estúdio sempre depende do material que o cliente manda, do material finalizado, e nem sempre ele vem na ordem, exatamente como você falou. Nem sempre vem na ordem.

Então o diretor tem esse trabalho de entender em que lugar do jogo todo aquele material que chegou hoje se encaixa. E aí ele te contextualiza. Fala que você está numa cena em que está acontecendo isso, isso e isso, que tal personagem fez isso com você, que outro fez outra coisa. Você tem que montar isso tudo na sua cabeça, se puxar para esse lugar, se colocar ali e seguir os arquivos de áudio de acordo com o que o original propôs, mas já tendo essa contextualização.

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Aí você puxa a emoção, mesmo que tenha gravado há um mês, e consegue se recolocar naquele lugar. Por isso que todo mundo fala, né? Como faz para ser dublador? Tem que ser ator, precisa ter DRT e ter feito curso profissionalizante. Você precisa disso pra conseguir chegar nesses lugares quando o diretor te contextualiza. Tem que chegar nessa emoção rápido. Como você falou, não tem tempo, é tudo muito corrido. E às vezes demora bastante até a próxima sessão.

Foto: Reprodução / New Tales

Terra Game On: Você já tem uma conexão forte com o público brasileiro por papéis icônicos. Existe uma preocupação em surpreender quem já reconhece sua voz de imediato?

Carol Valença: A gente gosta quando as pessoas não reconhecem. A gente adora quando chegam assim, mentira, eu fiquei sabendo que você fez aquela série tal, era você? Aí você fala sim. Nossa, tava tão diferente. Aí você pensa "yes, consegui".

Porque a ideia não é a pessoa pensar em mim toda vez que estiver assistindo a alguma coisa. É conseguir enganar para que ela não pense em ninguém além da personagem daquele filme, série ou desenho.

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Claro que é difícil, porque a voz é uma impressão biométrica. Sempre vai ter um pedacinho seu, porque a pessoa pode acabar reconhecendo se prestar muita atenção. Mas a gente gosta quando não reconhece, então essa é a forma de surpreender a galera.

Terra Game On: A localização brasileira de jogos vem ganhando cada vez mais destaque. Na sua visão, o que diferencia uma boa dublagem de game de uma apenas funcional?

Carol Valença: Isso é difícil de falar. Porque a gente tem visto algumas dublagens feitas a toque de caixa, às vezes em estúdios que não são tão sérios e que contratam profissionais menos preparados. E às vezes o cliente que é de fora do país não tem nenhum representante brasileiro aqui. Ele não sabe, vai pelo orçamento, escolhe o mais barato, e isso prejudica a dublagem.

E quando a localização para o português é ruim, isso atrapalha muito a imersão. Atrapalha sua relação com o jogo, sabe? É muito bom estar jogando e ouvindo as pessoas falando de forma natural. Reconhecer uma voz também ajuda, claro, e te chama pra ação, te puxa pra continuar. Isso é muito bom. Só que às vezes acontecem alguns problemas nas dublagens, mas a gente sempre tenta evitar.

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Fonte: Game On
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