Durante anos, os fãs de jogos de luta associados à Marvel tiveram uma referência quase impossível de superar. A série Marvel vs. Capcom transformou heróis e vilões dos quadrinhos em personagens de um dos crossovers mais frenéticos dos games. Por isso, quando a Arc System Works (estúdio responsável por obras-primas modernas como Guilty Gear Strive e Dragon Ball FighterZ) anunciou Marvel Tokon: Fighting Souls, a comparação foi inevitável.
Só que, depois de algumas horas com o jogo no PlayStation 5, fica claro que a intenção nunca foi simplesmente repetir a fórmula de Marvel vs. Capcom.
Tokon é uma tentativa de imaginar como seria um jogo de luta da Marvel feito por um estúdio japonês especializado em transformar pancadaria em espetáculo visual. E talvez seja justamente essa personalidade que faça o jogo funcionar tão bem.
Uma Marvel que parece ter saído de um anime
A primeira coisa que chama atenção em Marvel Tokon não é necessariamente o sistema de combate. É a sua direção de arte. A Arc System Works pegou personagens extremamente conhecidos e os reinterpretou com uma estética inspirada em anime e mangá.
Homem-Aranha, Capitão América, Homem de Ferro, Tempestade, Doutor Destino e companhia continuam reconhecíveis, mas ganharam novas proporções, animações e efeitos que parecem ter sido feitos para uma série de anime de altíssimo orçamento.
É um daqueles jogos em que até uma luta simples contra a inteligência artificial consegue produzir cenas impressionantes. Os golpes especiais são exagerados na medida certa, os efeitos ocupam a tela e os personagens parecem ganhar vida a cada movimento. Os cenários também ajudam a criar essa sensação, utilizando locais conhecidos do Universo Marvel e, em alguns casos, transições entre diferentes áreas durante a luta.
No PS5, versão em que eu testei o jogo, tudo isso é acompanhado por carregamentos rápidos e uma apresentação muito bem acabada. A própria versão para o console aproveita recursos como áudio 3D, resposta tátil do DualSense e resolução em 4K a 60 fps (sem engasgos).
É um jogo bonito não apenas para quem está jogando, mas também para quem está assistindo.
Combate super acessível
Por trás de toda essa extravagância nipônica existe uma decisão de design bastante inteligente: Tokon quer que mais pessoas consigam jogar.
Jogos de luta tradicionalmente possuem uma barreira de entrada considerável. É preciso aprender comandos, golpes especiais, combos, defesa, movimentação e, em muitos casos, memorizar as diferenças entre cada personagem. Aqui, a Arc System Works utiliza toda a sua expertise em fighting games para tentar diminuir esse obstáculo.
Os controles podem ser configurados entre comandos tradicionais e comandos rápidos, enquanto os combos simples permitem executar sequências de golpes sem exigir que o jogador passe horas no modo de treinamento antes de conseguir fazer alguma coisa interessante.
A estrutura é especialmente amigável para quem não costuma jogar jogos de luta, oferecendo um sistema de comandos bastante padronizado entre os personagens. Mas isso não significa que Tokon seja um jogo superficial.
Depois que a barreira inicial é vencida, começam a aparecer as possibilidades de combinar personagens, assistências, movimentação e habilidades. É aí que o jogo começa a mostrar que existe uma camada competitiva bem mais profunda escondida sob a aparência acessível.
No lançamento, o jogo conta com um elenco base de 20 personagens. Embora o número seja menor em comparação a títulos do passado com rosters inflados por reaproveitamento de rotinas, a entrega aqui ganha em profundidade: cada herói e vilão possui um conjunto de movimentos totalmente único, sem reaproveitamento de modelos ou animações básicas.
Mas a principal novidade está na forma como esse elenco é utilizado. Em vez do tradicional duelo entre dois personagens, cada jogador monta uma equipe com quatro integrantes. Isso, porém, não significa colocar os quatro lutadores simultaneamente na tela. O sistema foi pensado para que eles se alternem e participem das batalhas de diferentes maneiras, criando uma dinâmica própria e dando muito mais importância à composição da equipe.
O sistema utiliza os personagens de maneira estratégica, permitindo que eles participem da luta através de assistências e combinações. A composição da equipe passa a ser tão importante quanto a habilidade individual.
E existe uma peculiaridade interessante: no começo da luta, apenas dois integrantes da equipe estão disponíveis. Os outros podem ser liberados através de determinadas ações durante o combate ou quando o jogador perde uma rodada. Essa decisão cria uma dinâmica curiosa.
Em vez de simplesmente escolher seus quatro personagens favoritos, você começa a pensar em como a equipe funciona como um conjunto. Um personagem pode ser excelente para iniciar um combo, outro pode ajudar na defesa e um terceiro pode ser utilizado para ampliar uma sequência de ataques.
A tela pode virar uma verdadeira confusão
Mas essa mesma característica também pode representar uma das maiores dificuldades de Tokon. Quando dois personagens estão trocando golpes enquanto assistências entram na tela, efeitos especiais explodem e outros integrantes participam das sequências, a quantidade de informação pode ser enorme.
Para jogadores experientes, isso provavelmente será parte da diversão. Para iniciantes, entretanto, pode ser difícil entender exatamente o que aconteceu depois de uma sequência particularmente caótica.
Curiosamente, essa é uma das poucas situações em que a beleza do jogo pode trabalhar contra ele. Tokon é tão preocupado em transformar cada golpe em um espetáculo que, às vezes, fica difícil acompanhar a luta.
É algo que não chega a comprometer a experiência, mas exige uma adaptação, especialmente para quem não está acostumado com a dinâmica intensa dos jogos de luta.
Talvez o maior mérito de Tokon seja justamente não tentar ser um jogo exclusivamente para especialistas. O tutorial é bastante completo e o sistema permite que o jogador experimente diferentes personagens sem precisar dominar imediatamente comandos complicados.
Você pode simplesmente escolher o Homem-Aranha, apertar alguns botões e começar a fazer coisas espetaculares. Depois, se quiser, pode começar a estudar o sistema para aprender golpes e combos mais complexos.
Essa diferença é importante. O jogo não elimina a profundidade dos jogos de luta; ele simplesmente tenta escondê-la atrás de uma camada inicial bastante acessível.
Modos de jogo vão além das batalhas tradicionais
Se Marvel Tokon não pretende contar uma grande aventura cinematográfica para um jogador, pelo menos a Arc System Works fez questão de oferecer alternativas para quem não quer ficar limitado às partidas tradicionais.
O Modo Episódio funciona como a principal experiência narrativa, apresentando capítulos centrados nas diferentes equipes do elenco. É uma maneira interessante de conhecer os personagens e suas relações, embora esteja longe de tentar reproduzir a estrutura de um grande e cinematográfico jogo de ação da Marvel.
Já o All-Star Arena amplia consideravelmente a experiência offline. O modo reúne diferentes circuitos, cada um associado a uma equipe, com rotas e níveis de dificuldade variados. Cada percurso coloca o jogador diante de uma sequência de batalhas, enquanto dificuldades maiores aumentam a resistência dos adversários e reduzem a eficiência da própria equipe. Existe ainda um modo Survival, no qual o objetivo é derrotar o maior número possível de oponentes sem perder a sequência.
Mas é Arcadia Rumble que apresenta a ideia mais curiosa. O modo mistura elementos de beat 'em up com o tradicional sistema de luta de Tokon. Antes dos confrontos, os jogadores exploram os cenários, coletam itens e melhorias e atacam os adversários para roubar pontos. Depois, a ação se transforma em uma batalha tradicional, e as rodadas se repetem até que um dos participantes termine com a maior pontuação. O modo pode ser disputado tanto offline quanto online.
Também estão presentes os tradicionais modos de treinamento, guias de personagens, partidas locais e confrontos contra a CPU, além das opções competitivas online. Dessa maneira, existe bastante coisa para fazer mesmo antes de entrar no ambiente competitivo.
E o desempenho no PS5?
Aqui existe uma diferença importante entre as plataformas.
Enquanto a versão PC vem enfrentando diversas reclamações relacionadas a quedas de desempenho, travamentos, problemas de utilização da CPU e instabilidades durante partidas online, a versão de PS5 se apresenta de maneira bem mais estável e positiva.
Isso faz da versão PS5 uma experiência particularmente interessante para quem quer simplesmente jogar sem se preocupar com configurações gráficas ou problemas de otimização. E, para um jogo de luta, isso é fundamental.
Quando cada segundo pode determinar o resultado de uma partida, quedas de desempenho são muito mais graves do que seriam em um jogo single-player. No PS5, pelo menos neste momento, Tokon entrega uma experiência offline e online muito mais tranquila.
Outro detalhe que merece atenção do público brasileiro é a localização, que deixa sensações mistas. O jogo conta com menus, legendas e dublagem em português, mas mantém alguns nomes de personagens e equipes em inglês por seguir a padronização internacional da Marvel.
Assim, termos como Spider-Man e Avengers aparecem no lugar de Homem-Aranha e Vingadores, algo que pode causar um certo estranhamento para quem está acostumado às versões brasileiras - e algo que já aconteceu antes no jogo Marvel's Spider-Man.
A dublagem, por outro lado, é um dos grandes destaques da versão nacional. O elenco reúne vozes conhecidas do público brasileiro, incluindo Duda Espinoza como Capitão América, Diego Marques como Homem-Aranha e Marco Ribeiro como Homem de Ferro, profissionais que já deram voz a esses personagens em outras produções de séries, filmes e games.
A principal ausência fica por conta do inesquecível Isaac Bardavid, a voz brasileira clássica do Wolverine, que foi substituído por Arthur Machado. Ainda assim, o trabalho de localização mantém o alto nível e ajuda a tornar a experiência bastante natural para quem joga em português.
Considerações
Marvel Tokon: Fighting Souls é uma vitória maiúscula para os fãs de jogos de luta e do universo dos quadrinhos. A Arc System Works provou mais uma vez porque é a referência global no gênero, criando algo próprio e entregando uma mecânica de combate rápida, inteligente e visualmente deslumbrante, com controles que permitem que até iniciantes consigam participar da brincadeira.
No PlayStation 5, o jogo entrega sua versão definitiva em desempenho, estabilidade e fidelidade visual. É um título divertido e indispensável para quem busca competição de alto nível no controle ou quer reviver a empolgação dos grandes encontros da Marvel em um formato moderno.
Marvel Tokon: Fighting Souls está disponível para PC e PlayStation 5.
Esta análise foi feita no PlayStation 5, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Sony.