Se tornar uma apresentadora não estava nos planos de Gláucia Santiago. Carregando a paixão pelo meio esportivo desde a infância, a jornalista de Araraquara, no interior de São Paulo, trilhou o caminho da reportagem em transmissões pelos canais da TV Globo até que, em 2019, desembarcou na ESPN para se tornar uma das caras do carro-chefe SportsCenter.
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Quase sete anos depois desde o convite, Gláucia assumiu, no início deste mês, a edição matinal do SC, trocando de lugar com o apresentador Bruno Vicari nas transmissões matinais da ESPN. Ao Terra, a jornalista falou sobre o novo momento na carreira e refletiu sobre o espaço feminino e a luta contra o machismo no jornalismo, especialmente no meio esportivo.
“Só vai ser normal no dia em que alguém me perguntar como é que é trabalhar com jornalismo esportivo e ponto, sem o adendo de como é atuar sendo mulher. Não sei se um dia vai chegar a isso. Ainda existe muito machismo, muita coisa velada nesse meio”, afirma.
Leia a entrevista completa de Gláucia Santiago ao Terra:
Recentemente, você assumiu o lugar do Bruno Vicari na 1ª edição do SC, como você recebeu esse convite?
Foi muito legal, sou uma pessoa que gosta muito de mudanças, acho que a vida é assim, feita de mudanças de fluxo e de movimento. Cheguei na ESPN há quase sete anos e vim para a edição da tarde do SC, em uma reformulação de grade. Era uma edição de quase três horas no ar, a dupla era eu e o Gustavo Hofman.
Depois a gente enfrenta pandemia e, nos reajustes de grade, eu sempre fiquei ali no SC 2. Quando surge esse convite de pular para o SportsCenter da manhã, eu achei muito legal por mudar minha rotina ali dentro, achei desafiador, porque quando a gente cria uma identidade com o programa, não é fácil mudar. E o SC 1ª edição tinha muito dessa identidade, da cara do Bruno.
E o fato de abrir a programação, o dia da ESPN, exige essa dinâmica factual do jornalismo, em cima do que aconteceu e do que vai acontecer durante o dia, então trazer esses elementos e até rediscutir um pouco do editorial do programa é muito legal. Às vezes as pessoas imaginam que a gente só apresenta, mas eu gosto muito de me envolver na produção, de discutir, participar, isso é fundamental também.
Qual tem sido a parte mais desafiadora nesse novo momento?
É tentar inovar dentro do que a gente é e do que a gente tem, assumimos um programa que é uma marca consagrada. É manter esse legado, o que foi feito até agora, mas também dar a nossa cara, o tom de quem está ali. Assumir o programa e conseguir deixar o nível sempre muito bom, porque nos foi entregue em um nível muito bom de produção, de conteúdo. E entregar para as pessoas que estão acostumadas sem que haja uma ruptura.
Então, para quem ligava ali às 11h da manhã e sabia que ia ter aquele conteúdo, o objetivo é fazer que essas pessoas se sintam abraçadas também.
Ser apresentadora sempre acompanhou seus objetivos? Como foi esse processo até chegar na apresentação de um programa de televisão?
Nunca foi o meu grande sonho de carreira. Foi um convite da ESPN que me surpreendeu. Na época, eu era repórter na TV Tribuna, era setorista do Santos, fazia muita coisa para a Globo, Sportv, e esse sempre foi meu sonho, desde menina, ser repórter, trabalhar com jornalismo esportivo. Via a reportagem trabalhando e falava: ‘Nossa, é isso o que eu quero ser’.
Pode até parecer natural, algo gradual dentro da profissão, você sair da reportagem e ir para a apresentação, mas isso não era um plano, muito embora eu já fizesse o trabalho, também, tanto na TV Tribuna quanto na EPTV, em São Carlos– onde foi meu primeiro contato com o vídeo, inclusive.
E aí veio o convite da ESPN e eu até me peguei surpresa naquela época. Mas topei o desafio e achei interessante para aquele momento da minha carreira, e hoje vejo um crescimento profissional enorme na minha vida.
Tem algum momento da rotina como repórter que te dá saudade?
Tenho algumas lembranças nostálgicas, quando vou para a rua e encontro gente dessa época é sempre muito legal. Estive na Neo Química Arena para fazer a cobertura do jogo do Corinthians na Libertadores e encontrei muita gente, não só da imprensa, mas também do clube, da organização, e isso é muito legal porque a gente fazia muita amizade, conhece muita gente, disso sinto muita falta.
A reportagem forma grandes profissionais, minha base como apresentadora foi a reportagem que me deu, como a questão do improviso, de ter o conteúdo. Isso eu trouxe desse trabalho de apuração, que é algo que a gente não perde. No fundo, a gente nunca deixa de ser repórter.
Sobre a atuação feminina no jornalismo esportivo, ainda é uma participação pequena quando comparada à presença dos homens no meio. Como você enxerga esse momento?
Acho que hoje já é bem maior, bem mais notório como os espaços foram ocupados, e todos esses espaços com muita competência. Gosto de ressaltar isso porque existe muita competência e a gente precisa tê-la, porque o grau de exigência para cima da gente é muito maior. Porque existe muito disso, de chamar atenção por ser mulher e trabalhar nesse meio.
Só vai ser normal no dia em que alguém me perguntar como é que é trabalhar com jornalismo esportivo e ponto, sem o adendo de como é atuar sendo mulher. Não sei se um dia vai chegar a isso. Ainda existe muito machismo, muita coisa velada nesse meio, de ser preterida em relação a um homem para determinada função, questões de salário.
Digo que, quando entrei no mercado de trabalho, haviam coisas que não eram discutidas e hoje são, e que bom que são discutidas, dentro do jornalismo e da sociedade de uma forma geral, do machismo à misoginia. Cheguei a ouvir muito diretamente, ‘olha, a gente não contrata mulher para equipe de esportes’, isso recém-formada. Preocupações de chefes com a minha vida pessoal na hora do emprego, perguntas sobre as minhas pretensões de vida, de família, se gostaria de ser mãe. Coisas que tenho certeza que um homem nunca respondeu.
Acho que se normalizou muito a ocupação desses espaços pelas mulheres, mas ainda há muito a se conquistar para, um dia, a gente dizer que existe um pé de igualdade. A gente não tem margem para erro. Se eu dou uma informação errada, uma opinião que não agrade, o fato de eu ser mulher vai pesar muito mais do que se um colega vier e fizer da mesma forma.
Há o discurso que diz ‘estamos todos ao lado de vocês, a gente apoia, que bom tê-las aqui’, mas até a página 2, né? Porque sempre vai ter uma preferência daqui, outra dali, situações de assédio de todo tipo. De assédio moral, sexual, porque é mulher. A gente sabe de muitas coisas que ficam nos bastidores das empresas, de colegas que vivenciaram, porque essa ainda é a realidade.
Você já teve de lidar com algumas dessas situações em que o machismo impactou sua carreira?
São questões que todas nós precisamos lidar em algum momento, quase que diariamente. As redes sociais também acabam sendo muito permissivas. Qualquer fala nossa, qualquer recorte, se você ver, os comentários são nojentos. Não há pudor, desde ofensas a fotos e vídeos de conteúdo pornográfico. Muitas vezes chateia, já aconteceu de eu estar no ar e receber, em rede social, mensagens das mais absurdas de perfil fake.
À beira do campo, também, você ouve as coisas mais absurdas, xingamentos e ofensas pesadíssimas. Eu estou tendo que exercer meu trabalho e ouvindo isso. Mas nunca foi um impeditivo para meu trabalho, algo que abalou no sentido de me querer fazer desistir. Eu sigo trabalhando, fazendo o meu. Mas a gente fica enojada com o que recebe, mas também acho que a gente se posiciona e busca mais os nossos direitos.
E como você lida com a repercussão que as redes sociais, muitas vezes negativa, dão para o trabalho?
Odeio ser pauta nesse sentido (risos). Minha geração pegou essa transformação, essa revolução, então, às vezes, a gente ainda não sabe muito bem como lidar com isso. Eu sou extremamente preocupada com o meu conteúdo de rede social, com o que eu posto, com o que eu exponho. Eu gosto muito de trazer conteúdo, né? Muito embora, às vezes, noto que o que não tem conteúdo nenhum é o que mais agrada o povo.
Tento expor pouca coisa da minha vida pessoal, porque uma coisa é você viralizar com uma informação, a outra é viralizar com coisas banais ou de algum recorte. Então eu tenho esse cuidado, porque zelo por essa imagem de credibilidade, da pessoa que traz uma coisa fiel ao que é.
Em meio a tantas conquistas na carreira, tem algum objetivo com o qual você ainda sonha?
Eu sou muito movida a sonhos, ao que eu amo fazer. Acho que sempre tem alguma coisa que a gente tem para descobrir, para fazer de diferente. Eu nunca cobri uma edição de Jogos Olímpicos, por exemplo, acho que esse é o meu maior sonho profissional.
E sempre tem grandes coberturas, né? Um jogo de NBA, uma final de Libertadores, então sempre existem coisas a serem feitas pela primeira vez. Eu fui para minha primeira Copa in loco em 2022, numa época em que eu já era apresentadora e pensava que talvez isso não seria algo que eu faria na minha carreira, mas aconteceu e eu fui.
Então acho que a gente sempre tem muito a oferecer profissionalmente, a conquistar, e as coisas estão mudando, né? A nossa área tem se reinventado a cada dia, e a gente também precisa se reinventar o tempo inteiro e, de se repensar, a gente vê o que ainda pode fazer e aprender.