'O futebol sintetiza o encontro entre as nações': o que explica a tensão entre Irlanda e Israel

Seleções voltam a se enfrentar pela Nations League após protestos no primeiro jogo e tensão diplomática entre os países

3 out 2026 - 06h11
Resumo
O confronto entre Irlanda e Israel pela Nations League expôs fortes tensões políticas ligadas à guerra em Gaza. Marcada por protestos irlandeses, recusa de cumprimento e luto no hino israelense, a partida reflete o histórico apoio da Irlanda à autodeterminação palestina, fruto de sua própria memória contra o domínio britânico. O jogo simboliza o futebol como palco político que, embora não mude decisões diplomáticas, amplifica pautas internacionais e mobiliza a opinião pública global.

Irlanda e Israel se enfrentam pela Nations League neste domingo, 4, em Backa Topola, na Sérvia. A partida acontece poucos dias após o primeiro encontro entre as equipes, marcado por protestos dos irlandeses e declarações sobre a situação na Faixa de Gaza. Desde 2023, o território é alvo de um conflito que já deixou mais de 74 mil palestinos mortos, segundo dados do Ministério da Saúde local registrados pelo escritório humanitário da ONU.

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Heimir Hallgrimsson, técnico da seleção da Irlanda, foi um dos primeiros a se manifestar sobre o confronto entre os países. Em coletiva durante a convocação para esta Data Fifa, o treinador afirmou que iria jogar "contra o genocídio". Antes da partida, o goleiro Gavin Bazunu decidiu deixar a concentração e não disputar o confronto, alegando motivos morais relacionados ao conflito.

No dia do jogo, os jogadores irlandeses entraram em campo em meio a protestos. Antes do pontapé inicial, os atletas permaneceram de cabeça baixa durante o hino de Israel, usaram faixas pretas nos braços, em sinal de luto pelas mortes em Gaza, e não participaram do tradicional cumprimento entre as equipes. O embate terminou com vitória da Irlanda por 3 a 0.

A tensão entre os dois países, porém, não começou com os atuais confrontos. Desde 1980, a Irlanda mantém uma posição de apoio à criação de um Estado palestino e foi o primeiro membro da então Comunidade Europeia a defender essa ideia. Décadas depois, em maio de 2024, o país reconheceu oficialmente a Palestina.

A história aproximou Irlanda e Palestina

A posição adotada pelo governo irlandês tem relação com uma memória histórica que, segundo Rodrigo, ajuda a explicar a aproximação de parte da sociedade com a causa palestina. A experiência do domínio britânico e o processo de independência fizeram com que questões como soberania, ocupação e autodeterminação ganhassem espaço na memória política do país.

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"A experiência particular do domínio britânico, que é inclusive compartilhada, tendo em vista que a Palestina também foi ocupada pelos britânicos e o território palestino foi tomado através de uma lógica de mandato britânico que no final da primeira metade do século XX criou o Estado de Israel, demonstra uma herança comum", explicou.

O internacionalista faz referência ao período em que a Palestina esteve sob administração inglesa. A presença do Reino Unido na região começou em 1917, enquanto o Mandato Britânico da Palestina foi formalizado pela Liga das Nações em 1922 e terminou em 1948.

Para Rodrigo, a experiência irlandesa de independência, a divisão da ilha e o conflito na Irlanda do Norte ajudaram a colocar temas como colonialismo, ocupação e autodeterminação no centro da memória política do país.

"O domínio britânico, a luta pela independência, particularmente a luta irlandesa pela divisão da ilha, e o conflito na Irlanda do Norte, vão fazer com que esses temas, como colonialismo, ocupação, autodeterminação e soberania nacional, ocupem o lugar central na memória política irlandesa e que, por isso, se associa a essa solidariedade Palestina", afirmou.

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A deterioração das relações chegou também ao campo diplomático. Em dezembro de 2024, Israel anunciou o fechamento de sua embaixada em Dublin. A Irlanda lamentou a decisão, mas afirmou que os dois países continuariam mantendo relações diplomáticas.

Partida ganha significado além do resultado em campo

No futebol, Rodrigo vê outra dimensão dessa disputa. Para ele, partidas entre seleções transformam o encontro entre países em um espaço de representação e permitem que manifestações políticas ganhem visibilidade para além das quatro linhas.

"O campo do futebol, apesar de ser um espaço supostamente de entretenimento, é inevitavelmente político, sobretudo quando falamos de seleções. O espaço do futebol sintetiza o encontro entre as nações e tem um efeito imagético importante, como duas seleções disputando uma vitória tal qual uma metáfora de um campo de batalha", explicou.

Apesar da carga política, o professor avalia que o principal efeito de um jogo como Irlanda x Israel está no campo simbólico, e não na capacidade de alterar diretamente as decisões dos governos. Para ele, a força do confronto está na possibilidade de transformar a questão em imagens e manifestações que ultrapassam o resultado da partida.

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"Uma partida de futebol por si só dificilmente vai alterar a política externa de um Estado, mas seu impacto está exatamente na capacidade de tornar essa questão política visível, mobilizar a opinião pública e produzir imagens que circulam internacionalmente", concluiu.

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