O day after ao papelão proporcionado pelo Botafogo na Copa Libertadores possibilita ao cronista a chance de uma análise sem o calor do momento, embora as olheiras estejam sempre condicionadas aos resultados esportivos da equipe alvinegra e a verdade seja inegociável. Após três anos na principal competição, não há como decifrar, neste momento, como será a abordagem da comissão técnica para a Sul-Americana, o torneio B do continente e com times que ficaram em zonas intermediárias de suas ligas locais. No exercício de futurologia, no entanto, alguns prognósticos são viáveis, como, por exemplo, o enfraquecimento do elenco com as vendas na janela da metade do ano, processo que o Mais Tradicional iniciou em janeiro de 2025 por conta das presepadas de John Textor na Eagle Football Holdings. No ano passado, contudo, ainda havia resquícios de um conjunto campeão. Em 2026, o clube trafega por uma zona cinzenta, pois o sócio majoritário da SAF optou por manter o planejamento igual a uma verdadeira roleta-russa. "Vim para me divertir", admitiu o Godfather na cerimônia de encerramento do falido Campeonato Carioca.
O all-in de Textor
Em 2024, no primeiro all-in, o Botafogo atravessou a fase preliminar da Libertadores e a primeira rodada da fase de grupos com um interino (Fábio Matias). Anunciou o treinador somente em abril. Textor, no entanto, montou um grupo fabuloso e o entregou nas mãos de Artur Jorge. O final todos sabem, assim como o desmantelamento daquela equipe que entrou para a história e a saída conturbada do comandante bracarense. Veio 2025. O big boss passou 45 dias correndo atrás de um treinador para contratar um profissional que estava desempregado e que poderia ter acertado com o clube logo no 1º de janeiro (Renato Paiva). Como consequência, o time jogou no lixo a possibilidade real de ganhar dois títulos inéditos (Supercopa do Brasil e Recopa) e perdeu as taças de forma humilhante. Bastava competir por uma delas para evitar ruídos e terminar o ano bem, com um caneco no museu. Nesta temporada, o transfer ban ocupou o picadeiro. O magnata prometeu resolver a questão rapidamente. A demora, porém, impediu o técnico Martín Anselmi de contar com Edenilson, Medina, Júnior Santos e Ferreresi na Liberta, jogadores que fortaleceriam o Mais Tradicional.
Textor sustenta que o Botafogo-2026 tem material humano para brigar por títulos e não admite mediocridade. A cartada do Godfather, em 2026, foi colocar o Fogão para disputar uma Libertadores sem goleiro, quando o campo já havia alertado sobre esta urgência no plantel desde 2025. John saiu. Neto falhou de forma grosseira na eliminação para o limitado Vasco na Copa do Brasil. Linck, na série contra um Barcelona-EQU inferior na técnica e com um investimento dez vezes menor, conseguiu ser pior. Pecou nos dois gols do adversário no 2 a 1 do placar agregado. Passou, no fim, de forma incontestável, quem tinha um arqueiro.
Botafogo em queda
Vender é compreensível para o funcionamento da SAF e fundamental para a saúde financeira do clube. Qualquer gestão defenderia estes preceitos. O grande "x" da questão, contudo, foi a reposição quando o Botafogo tinha acabado de receber a premiação do Mundial, além das taças do Brasileirão/Libertadores. Por mais que o politicamente correto tente impedir, a comparação é necessária para situar o internauta e torcedor alvinegro. Pausa, então, para perceber, por A + B, como as decisões de Textor impactaram no futebol e como o Mais Tradicional ficou com um elenco invertebrado, ou seja, com várias opções em algumas posições e grandes lacunas em outras:
John x Linck - O primeiro, hoje no Nottingham Forest (ING), é um dos melhores goleiros da história do Botafogo. Está, certamente, no top-10. Textor, entretanto, preferiu realizar o sonho do keeper e largou a torcida do Glorioso em um pesadelo. Linck falha em todos os jogos e não tem a confiança necessária para ficar sob as traves de um clube com a magnitude do Alvinegro.
Gatito x Neto - Dois goleiros com idade elevada. Mas o paraguaio sempre esteve na ativa e, mesmo como reserva, correspondeu quando acionado. Basta lembrar o Bragantino x Botafogo, pela Libertadores, e a vitória sobre o Inter, no Beira-Rio, pela penúltima rodada do Brasileirão-2024. Assim como Linck, Neto pecou em vários jogos importantes e não teve nenhuma atuação destacada.
Telles sem reserva - Cuiabano sempre foi uma mão na roda para o camisa 13. Além de manter a qualidade com novos atributos na lateral esquerda, o camisa 6 garantia o descanso ao veterano. Cuia poderia ter retornado ao Mais Tradicional se não fosse o transfer ban. Pois é… Caiu no colo do Vasco.
Gregore x Newton - O pitbull de 2024/25 sagrava-se multicampeão pelo Botafogo enquanto o cabeça de área atual era rebaixado pelo Criciúma. Newton ganhou espaço porque o clube não encontrou outro "5" no mercado. Danilo foi testado na posição, mas não rendeu. Sobrou, portanto, para o atual camisa 28, jogador que ainda não convenceu a torcida.
Almada x Montoro - O Monstrinho, aposta em 2025, caiu vertiginosamente nos últimos compromissos e sentiu a pressão dos jogos maiores, algo que não acontecia com o atual meia do Atlético de Madrid (ESP), absurdamente regular com o manto alvinegro. A inexperiência não é desculpa. No ano passado, Alvarito saiu-se muito bem na Libertadores, com as cores do Vélez Sarsfield (ARG).
Savarino x Tucu - Todos os argumentos a favor do futebolista do Norte da Argentina se esgotaram na última terça-feira (10), no Estádio Nilton Santos. Por mais que tenha caído em relação a 2024, o venezuelano volta e meia tirava alguns coelhos da cartola em 2025. Decerto que seria mais útil, apesar de que não precisa muito para oferecer mais intensidade do que Correa.
Luiz Henrique x Artur - Sem comentários.
Jesus x Cabral - De olho na Seleção Brasileira, o atual centroavante do Nottingham Forest (ING) está no auge da carreira, ao passo que o seu substituto no Mais Tradicional mal consegue se locomover pelo campo. Marcar gols, então, é tarefa quase impossível para o ex-jogador do Benfica (POR).
Tiquinho x Ramos - Protagonista em 2023, o centroavante do Santos perfilou-se como um ótimo reserva em 2024, algo que o espanhol, artilheiro de um clube da Segunda Divisão daquele país, jamais conseguiu. Qualquer leigo sabe que o antigo 9 do Botafogo joga muito mais bola.
Sem contar que ainda houve De Paula, Rwan, Elias, Nathan, Mastriani… Mas a coluna é justa e também enumera acertos. Santi apresentou uma melhora de uns tempos para cá. Pantaleão é um baita zagueiro. Lamentavelmente, teve a infelicidade da grave lesão. Marçal, chamado de volta pelo clube, encontrou o seu lugar como beque. O cracaço Danilo ocupa a faixa de "8" muito melhor do que Freitas. E para por aí!
Temor
O ápice de 2025 foi a vitória do Botafogo sobre o Paris Saint-Germain por 1 a 0, na Copa do Mundo de Clubes, nos Estados Unidos. Houve, em seguida, a polêmica dos três volantes, tema crucial para a troca de Renato Paiva por Davide Ancelotti no comando da equipe. Neste ano, o Glorioso pode ter atingido o teto na goleada sobre o Cruzeiro por 4 a 0, pela primeira rodada do Campeonato Brasileiro. Curiosamente, rola, agora, o debate sobre os três zagueiros de Martín Anselmi, uma boa desculpa para John Textor tomar outra atitude intempestiva. A queda na Libertadores também pode ser o prenúncio de algo pior, já que a eliminação afeta diretamente as finanças. Paro por aqui para evitar um colapso mental…
*Esta coluna não reflete, necessariamente, a opinião do Jogada10.
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