Em sua temporada de transição para a principal categoria do automobilismo nacional, André Moraes Jr. tem motivos para comemorar o ritmo de sua adaptação. Acostumado a acelerar os potentes protótipos da Endurance Brasil, o piloto de 26 anos conversou com o Portal Parabolica para fazer um balanço de suas primeiras etapas. Ele explicou as diferenças técnicas e os desafios de domar o carro de turismo, os segredos do gerenciamento de pneus sem assistências eletrônicas e a verdadeira "aula" que recebe diariamente do companheiro de equipe, o pentacampeão Cacá Bueno.
O desafio em Interlagos e o aprendizado constante
A recente passagem da categoria por Interlagos testou a resiliência do piloto desde o início. Um problema no suporte do radiador o impediu de participar da classificação, forçando-o a largar nas últimas posições. Apesar do contratempo, Moraes Jr. viu o saldo do fim de semana como positivo.
"As duas corridas eu acredito que fomos bons. A gente fez ultrapassagens boas e tivemos um ritmo bom, principalmente no sábado", avalia André. No domingo, no entanto, a equipe optou por uma aposta de configuração que não surtiu o efeito desejado. "A gente arriscou o setup e acabou prejudicando. O carro piorou em relação ao dia anterior, mas serve de aprendizado. O que a gente errou vamos levar para que na próxima etapa consigamos ajustar."
Protótipos x Turismo: a arte de frear
Para André, a parte mais complexa dessa nova fase foi a "regressão" aerodinâmica. Enquanto na Endurance ele pilota um protótipo Ligier P3, um carro colado no chão pela pressão aerodinâmica, o veículo da Stock exige um estilo de pilotagem completamente diferente, especialmente no momento de atacar as curvas.
"A Ligier se apoia muito em aero. É um carro que aceita muito a freada lá dentro e precisa carregar velocidade para ter mais downforce. O Stock, por outro lado, não adianta eu querer mergulhar muito. Preciso aproveitar a borracha, mas sem abusar", explica o piloto. A diferença prática na pista é brutal: "Na Ligier a gente passa a placa dos 50 metros acelerando e freia talvez nos 40 ou 35 metros, com 25 km/h de reta a mais. Aqui no Stock a gente deve estar freando nos 70, quase 60 metros. Preciso ser mais cauteloso e respeitar o limite de um carro GT."
Gerenciamento de pneus "no pé"
Outro grande choque de realidade está na dinâmica das corridas e nos compostos de borracha. Nas provas de quatro horas do Endurance, os pilotos contam com tecnologias como freios ABS e controle de tração, permitindo gerenciar o desgaste de forma mais eletrônica ao longo dos longos stints. Na Stock Car, a leitura precisa ser feita na sensibilidade do pé durante tiros curtos de 50 minutos.
"Na Stock, a gente precisa ser um pouco mais cauteloso nesse pneu para não dar aquele overheat (superaquecimento) de temperatura ou até mesmo de libra, e aí a aderência não volta mais", detalha o piloto. "É algo que eu tô me adaptando, entender até onde vem o overheat e o quanto consigo levar aquele ritmo forte."
O peso da experiência de Cacá Bueno
Para encurtar todo esse caminho de aprendizado, Moraes Jr. conta com um trunfo de peso dentro dos boxes da sua equipe. Dividir a telemetria com Cacá Bueno, o maior vencedor em atividade do grid, tem sido fundamental. A diferença de rodagem é encarada com muito respeito e bom humor pelo novato.
"Eu tenho 26 anos de vida, ele tem 27 anos de Stock Car", brinca André. "O cara não foi cinco vezes campeão à toa. Ele tem uma bagagem muito grande e vem com uma base muito mais técnica do que a minha, principalmente aqui na categoria. A gente troca ideia em pós-treino, pré-quali, vê o ritmo um do outro. Só tenho a agradecer, é extremamente positivo."
Metas atualizadas para 2024
Satisfeito por já conseguir andar no sempre disputado pelotão intermediário da categoria, onde "não tem nenhum bobo" e "todo mundo acelera", como ele mesmo define, as expectativas de André Moraes Jr. ganharam um novo contorno para a reta final do calendário.
"Talvez no início da temporada eu esperava estar onde estou hoje, no meio do grid. Mas a gente vem tendo bastante velocidade nos finais de semana de corrida, e isso traz um ânimo a mais. Acredito que até o final do ano a gente consegue estar entre os dez, entre os doze do campeonato", projeta o piloto.