A Fórmula SAE Brasil chega à sua 22ª edição reunindo 61 equipes de universidades do Brasil e da Argentina, divididas entre 46 carros a combustão e 15 elétricos. Essa competição de engenharia tem como objetivo a construção de um carro de corrida, cuja concepção é inteiramente desenvolvida pelos alunos. Os projetos são avaliados não apenas na pista, mas também em provas estáticas que analisam aspectos como concepção, custos e business case.
O desenvolvimento de um carro de Fórmula SAE acontece ao longo de um ano. Nesse ciclo, é necessário projetar um novo veículo, construí-lo e testá-lo. A equipe conta com o apoio de patrocinadores na fase de manufatura, mas, em geral, são os próprios alunos que projetam e montam o protótipo do tipo fórmula.
O Fórmula UTFPR é a equipe que representa a Universidade Tecnológica Federal do Paraná – Campus Curitiba. Integrante dos projetos do Departamento Acadêmico de Mecânica (DAMEC), foi fundada em 2016 e participa da competição desde 2018. A equipe é conhecida por ser a mais bem-sucedida com motor turbo, utilizando o motor Yamaha YZF R3.
Neste ano, o Fórmula UTFPR, equipe a combustão, definiu um objetivo claro: concluir o enduro, a prova mais desafiadora e que vale mais pontos, e que a equipe jamais havia conseguido. Durante a temporada, que se estendeu de agosto de 2025 até julho deste ano, a equipe concentrou seus esforços em desenvolver um carro confiável. Foram quase 500 km de testes com o modelo do ano passado, o EK506, o que é bastante coisa para um carro de Fórmula SAE. Isso deu a base para o EK507. A equipe conseguiu também fabricar todo o carro muito antes dos anos anteriores, colocando o projeto em testes já em abril, tendo três meses para realizar ensaios.
"O desenvolvimento do carro se deu, em grande parte, a partir de testes que conseguimos realizar com o protótipo anterior após a competição de 2025. Com isso, conseguimos identificar as causas-raízes e atacá-las para concluir o enduro deste ano. Tanto que todo o nosso carro foi projetado justamente para garantir a conclusão da prova. Abrimos mão de parte do desempenho e da dinâmica do veículo, no sentido de que o nosso foco não foi a otimização de massa para ganho de posição ou coisas do tipo; o foco principal foi puramente terminar a prova." — Ronan Faesser, Gerente de Projetos
Na competição, o EK507 se mostrou um carro muito confiável. Após passar em todas as inspeções na sexta-feira, foi para as provas dinâmicas no sábado. Essas eram as provas de aceleração, onde o carro percorre uma pista em linha reta, ficando em 15º lugar.
"Na aceleração foi muito bom. O carro estava muito confortável de arrancar e foi. Estava respondendo muito bem, a troca de marcha estava muito fácil, o flat shift funcionando perfeitamente. O carro estava simplesmente rápido." — Allan da Silva, Piloto
Depois veio o Skid Pad, uma prova em formato de oito, que avalia a capacidade do carro em fazer curvas, onde a equipe conquistou a 7ª colocação, melhor resultado da equipe nessa prova, superando 2023.
O então fui lá, é, dei meu melhor [...] o carro conseguia apontar bem para curva, contornar muito bem. É, não precisava ficar fazendo muitas correções no volante. — Gabriel Lima, Piloto
Após as duas provas na parte da manhã, ainda havia o AutoCross. Essa prova é caracterizada por testar o carro em um traçado sinuoso, semelhante a uma volta rápida. Cada piloto tem duas chances para completar a volta. Nesta prova, a equipe terminou na 10ª colocação. Foi a primeira a finalizar as voltas, o que permitiu uma preparação melhor para o grande momento no dia seguinte: o enduro.
Até então, a equipe já havia participado dessa prova em cinco oportunidades. Em 2022 e 2025 foi quando chegou mais longe, completando metade da prova, mas abandonando por problemas de vazamento de óleo. O enduro é caracterizado por uma distância de 22 km, com troca de piloto no meio, sem possibilidade de auxílio externo durante a prova.
Pela posição no AutoCross, a equipe foi a 23ª a entrar no Enduro. Com muita expectativa, o EK507 poderia ser o primeiro carro da equipe a finalmente quebrar essa última barreira que faltava. A primeira parte do enduro foi feita pelo piloto João Pedro Siqueira, que completou 15 voltas até a parada.
"O carro estava muito bom dinamicamente, era o melhor carro que a equipe já produziu, sem dúvidas. Então, hã, foi muito emocionante assim, descendo do carro, né, e preparando pra prova, pra troca de piloto, foi também, hã, um momento muito, muito mágico assim." — João Pedro Alves Siqueira, piloto
Após a parada, a expectativa era se o carro iria conseguir voltar, já que qualquer problema poderia levar os juízes a retirar o carro da prova. Mas tudo deu certo: foram mais 15 voltas para finalmente o piloto Eduardo Baggio concluiu a prova para conquistar a glória esperada há tanto tempo, nos 10 anos da equipe.
“Entrei no carro muito mais confiante. O João passou o feedback, o carro estava ok, não apresentou nenhuma falha, nada. Fui para a pista também 100% concentrado. Só que, conforme foi chegando perto do final, foi caindo a ficha de que a gente iria conseguir — já estava quase no fim, né? A gente acaba se perdendo um pouco nas voltas quando está ali dentro, em quantas ainda faltam. Mas começou a cair a ficha: ‘Pô, esse ano vai, esse ano vai dar boa.’. Dali para frente foi só concluir o que já estávamos fazendo, mantendo o ritmo mais tranquilo, mais seguro. E, na hora da bandeirada, foi um alívio, uma sensação de dever cumprido.” — Eduardo Baggio, Piloto
A equipe conquistou o 8º lugar na prova de Enduro. Já na prova de eficiência energética, que está vinculada ao Enduro, o resultado foi o 9º lugar.
"Quando a equipe concluiu o Enduro, o sentimento de dever cumprido foi único. Valeu a pena todo o esforço e a organização que mantivemos ao longo de um ano inteiro. Tudo isso serviu para alcançar, finalmente, o maior objetivo da história da equipe em dez anos: completar o Enduro. E, afinal, aconteceu. Foi uma sensação indescritível para todos que fizeram parte do time em 2026, um sentimento verdadeiramente inacreditável."— Carol Rodrigues, Vice-capitã
Pela primeira vez, a equipe conseguiu finalizar todas as provas. Após sete participações na competição, este foi o melhor resultado geral, alcançando o 11º lugar.
"Nesse último ano, vivi uma das melhores experiências da minha vida. O desafio de gerenciar mais de 60 pessoas em um projeto de engenharia e buscar resultados jamais alcançados parecia distante. As dificuldades que surgiram ao longo do caminho mostraram-nos o quanto precisamos ser resilientes e a importância de estarmos preparados para tudo. Hoje, com o objetivo concluído, o sentimento que permanece é de orgulho e gratidão a todos que, em algum momento, fizeram parte dessa equipe, especialmente àqueles que estiveram conosco neste último ciclo." — Carlos Henrique, Capitão
O Fórmula UTFPR encerra o ciclo mais vitorioso de sua história, após conquistar o tão sonhado objetivo. Agora, todas as atenções estão voltadas para a 23ª competição, que acontecerá daqui a um ano. Um novo projeto está em andamento, com um novo carro e desafios pela frente.