Governo diminui recursos de Previdência, servidores e BPC para acomodar reajuste do Bolsa Família

Executivo apresentou estimativas de economia de despesas para bancar aumento do benefício social em plena campanha eleitoral

24 set 2026 - 10h06
(atualizado às 10h47)
Resumo
Para viabilizar o reajuste de 15% no Bolsa Família, com impacto de R$ 5,8 bilhões em 2026, o governo Lula remanejou recursos previstos para a Previdência, servidores e BPC. Segundo a equipe econômica, a medida decorre de uma projeção de menor crescimento desses gastos obrigatórios, e não de cortes. O ajuste ocorre em meio à piora das contas públicas: a previsão de déficit primário para 2026 subiu para R$ 80,9 bilhões, pressionada pela queda na arrecadação do IR e pela alta de despesas extraordinárias.

BRASÍLIA — O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou uma redução de recursos da Previdência Social, remuneração de servidores, Benefício de Prestação Continuada (BPC), subsídios e outras despesas para acomodar o reajuste do Bolsa Família.

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Em plena campanha eleitoral, o presidente Lula anunciou um reajuste de 15% no Bolsa Família. O piso do benefício passará de R$ 600 para R$ 691, e a média, de R$ 691 para R$ 777, a partir de outubro. O impacto estimado é de R$ 5,8 bilhões em 2026 e R$ 22 bilhões em 2027.

Em plena campanha eleitoral, Lula anunciou reajuste de 15% no Bolsa Família; piso do benefício passará de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro.
Em plena campanha eleitoral, Lula anunciou reajuste de 15% no Bolsa Família; piso do benefício passará de R$ 600 para R$ 691 a partir de outubro.
Foto: Pedro Kirilos/Estadão / Estadão

Para bancar o aumento do benefício, o governo anunciou uma economia com outros recursos. Nesta quinta-feira, 24, o Executivo apresentou o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas Primárias do quarto bimestre do ano.

O congelamento de despesas para cumprir as regras fiscais diminuiu de R$ 17,9 bilhões para R$ 16,1 bilhões em 2026. A contenção é resultado de um bloqueio de R$ 2,4 bilhões e de um contingenciamento de R$ 13,6 bilhões. Até o momento, o governo tinha bloqueado R$ 17,9 bilhões em despesas e não havia nenhum contingenciamento.

Segundo o governo, ainda em 2026, haverá uma economia de R$ 11,5 bilhões com benefícios previdenciários, R$ 4,1 bilhões com despesas de pessoal e encargos sociais, R$ 1,8 bilhão com BPC, R$ 1,1 bilhão com subsídios, subvenções e Proagro e R$ 100 milhões com outros gastos. Com isso, será possível acomodar o reajuste do Bolsa Família neste ano. Para 2027, o Executivo encaminhará mudanças no Orçamento ao Congresso Nacional.

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Segundo o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, a redução de despesas não é um corte na Previdência Social, mas é uma estimativa de economia que vai reduzir o crescimento do gasto. Antes, o governo estava projetando um aumento maior na despesa, e agora ele diminuiu essa projeção.

De acordo com Moretti, a economia ocorre após o governo zerar a fila do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e diminuir a pressão sobre novas concessões.

"A gente só liberou o reajuste do programa pela inflação, nos termos que a lei autoriza, quando realmente estávamos com dados e mãos e tivemos clareza de que, em participar a previdência, teria uma redução na projeção de crescimento da despesa", disse o ministro.

Com a decisão, o governo diminuiu a quantidade de recursos que poderiam ser liberados para investimentos, pois a economia será consumida pelo aumento do Bolsa Família.

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"Esses recursos seriam desbloqueados de qualquer forma, seriam pulverizados para outros ministérios, e, quando tivemos segurança de que realmente esse nível de despesas ficaria abaixo do que era previsto, houve a decisão de governo, a meu ver consciente e correta, de priorizar a parcela da sociedade mais vulnerável que estava precisando dessa recomposição do Bolsa Família", afirmou o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron.

Qual é a diferença entre bloqueio e contingenciamento no Orçamento?

Bloqueio e contingenciamento são duas medidas para segurar gastos no Orçamento. O bloqueio acontece quando as despesas obrigatórias crescem e o Executivo precisa cumprir o teto de gastos do arcabouço fiscal. O contingenciamento ocorre quando a estimativa de arrecadação cai e a União precisa conter gastos para cumprir a meta de resultado primário.

As duas medidas têm o mesmo efeito e impedem que o governo faça despesas em determinadas áreas. Neste ano, a meta é um superávit de R$ 34,4 bilhões, podendo chegar a zero pelo intervalo de tolerância. Uma série de gastos fica fora dessa conta e, na prática, o governo espera terminar o ano com déficit.

Déficit sobe para R$ 80,9 bilhões em 2026

O governo aumentou a projeção de déficit efetivo nas contas públicas para R$ 80,9 bilhões em 2026. Anteriormente, o resultado negativo esperado era de R$ 52 bilhões.

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Houve uma redução na expectativa de arrecadação e um aumento de despesas, incluindo subsídios para conter o preço dos combustíveis e o reajuste do Bolsa Família. Com as despesas que ficam fora da meta fiscal, o déficit contabilizado cai para R$ 13,6 bilhões.

No relatório apresentado nesta quinta, houve uma diminuição de R$ 15,7 bilhões nas estimativas de arrecadação neste ano. Só na receita do Imposto de Renda, o governo reduziu a projeção em R$ 13,1 bilhões.

A queda foi puxada pela frustração na cobrança sobre lucros e dividendos, que havia sido desenhada para bancar a isenção para quem ganha até R$ 5 mil por mês.

Por outro lado, as despesas aumentaram em R$ 22,1 bilhões, principalmente pelo aumento de créditos extraordinários, que acomodam benesses do governo Lula, como as subvenções do combustível.

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