Zezé Motta volta às novelas aos 81 anos em ano cheio: 'Não é apenas trabalhar, é reafirmar presença'

Atriz, que vive Dona Menina na próxima novela das seis da Globo, faz shows e série médica e se prepara para estrear filme e musical, reflete sobre maturidade, representação e carreira

10 mar 2026 - 05h42

"Voltar não é apenas trabalhar, é reafirmar presença." É assim que Zezé Motta define seu retorno às novelas em A Nobreza do Amor, próxima trama das seis da Globo, que estreia em 16 de março, após o último capítulo de Êta Mundo Melhor!.

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Aos 81 anos, e com mais de 60 dedicados à arte, ela revisita o gênero que atravessou sua trajetória com outro tipo de consciência. O reencontro com a televisão aberta, segundo a atriz, desperta sentimentos diferentes daqueles do início da carreira. "No começo, cada novela era uma conquista, uma prova, uma afirmação de que eu estava ali para ficar", relembra.

Hoje, o retorno vem acompanhado de maturidade e senso de responsabilidade. "Existe serenidade, existe gratidão. Eu sei o que representei, e o que ainda represento, principalmente para muitas mulheres negras que sonham em se ver na tela."

Zezé Motta como Dona Menina em 'A Nobreza do Amor': parteira e benzedeira de Barro Preto, a personagem carrega sabedoria, ancestralidade e se torna referência para toda a comunidade
Zezé Motta como Dona Menina em 'A Nobreza do Amor': parteira e benzedeira de Barro Preto, a personagem carrega sabedoria, ancestralidade e se torna referência para toda a comunidade
Foto: TV Globo/Divulgação / Estadão

Dona Menina: força silenciosa e sabedoria ancestral

Na nova novela, ambientada nos anos 1920, Zezé interpreta Dona Menina, parteira, benzedeira e artesã de cerâmica na fictícia Barro Preto, no interior do Rio Grande do Norte. Moradora da vila dos colonos do coronel Casemiro (Cássio Gabus Mendes), a personagem divide o tempo entre o roçado, os partos que acompanha e as peças que vende na feira da cidade.

Para a atriz, Dona Menina é uma mulher de força contida. "Ela não precisa levantar a voz para ser ouvida. A presença dela já impõe respeito." Dentro da narrativa, funciona como uma espécie de conselheira da comunidade, alguém que observa antes de falar e que entende o peso das palavras. "Às vezes ela diz muito com um olhar", fala Zezé.

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A personagem também carrega um aspecto íntimo para atriz. O que mais a emocionou no primeiro contato com o texto foi a ancestralidade. "Minha avó materna foi parteira. Existe uma memória afetiva muito forte aí." A figura da benzedeira, que acolhe, orienta e atravessa gerações, ressoa como continuidade de uma história que vai além da ficção.

Levi Asaf e Zezé Motta em 'A Nobreza do Amor': encontro de gerações marca nova novela das 6 da Globo
Foto: Manoella Mello/TV Globo/Divulgação / Estadão

Anos 1920 como espelho do presente

Para Zezé, ambientar a novela na década de 1920 permite que o público observe o Brasil com certa distância e, justamente por isso, com mais clareza. "Quando olhamos para aquele Brasil, para aquelas estruturas sociais tão rígidas, percebemos o quanto avançamos… e o quanto ainda precisamos avançar."

Temas como poder, ambição, preconceito e disputa por espaço atravessam a narrativa. "O cenário muda, a roupa muda, mas as relações humanas continuam complexas", afirma. A atriz acredita que a estética da época marcada por elegância e charme pode encantar o público, mas ressalta que, por trás da beleza, há tensões profundas. É nesse contraste que a trama ganha força.

Ela aposta que o público pode se surpreender tanto visualmente quanto pela condução da história. "A gente sempre espera que sim", diz, sorrindo.

Permanecer também é um ato

Com uma carreira iniciada na televisão ainda nos anos 1960, Zezé atravessou diferentes momentos da dramaturgia brasileira. Ao olhar para trás e lembrar de Beto Rockfeller, fala sobre juventude e descoberta. Mas o que mais a emociona é a permanência.

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"Num país onde tantas trajetórias são interrompidas, especialmente para artistas negros, eu consegui construir uma história atravessando décadas", reflete. "Isso não é pouca coisa."

Zezé Motta em 2026: entre estreias no cinema, retorno às novelas, homenagens e uma agenda intensa de shows
Foto: Gustavo Arrais/Divulgação / Estadão

A paixão pela atuação, segundo ela, nunca esteve apenas na exposição ou no sucesso. "O que me manteve foi a curiosidade. Cada personagem é um mergulho em outra realidade." Mais do que profissão, a arte se tornou vocação. "Atuar me dá sentido. É a minha maneira de existir no mundo."

E enquanto houver frio na barriga antes do "ação", ela garante que continuará. Porque, para Zezé Motta, estar em cena é mais do que interpretar, é ocupar espaço, abrir caminhos e, sobretudo, reafirmar presença.

Um ano de múltiplas estreias

E além da novela A Nobreza do Amor, Zezé Motta vive um dos anos mais intensos de sua trajetória em 2026. Aos 81 anos, a artista multiplica projetos no cinema, na televisão, no teatro e na música.

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Na TV, ela já está no ar na série médica (In)Vulneráveis, do Universal+, ao lado de Danni Suzuki. O cinema também ganha destaque na agenda da atriz. Em 31 de março, ela estreia como protagonista de Mãe Bonifácia, dirigido por Salles Fernandes. Inspirado em uma figura histórica do Mato Grosso, o longa aborda fé, resistência e liderança feminina negra, colocando Zezé no centro de uma narrativa sobre memória e identidade brasileira.

No segundo semestre, ela estará em Somos Teresa, vivendo Tereza de Benguela, líder quilombola que comandou o Quilombo do Quariterê no século 18. Também está previsto o lançamento de Por um Fio, adaptação do livro de Drauzio Varella, dirigido por David Schurmann, no qual Zezé interpreta uma paciente em estado terminal.

A própria trajetória da artista também chegará às telas. O documentário Nas Garras da Felina, dirigido por Mariana Jaspe, acompanha os bastidores de seus 80 anos de vida e mais de cinco décadas de carreira. O título faz referência à canção Tigresa, de Caetano Veloso, que teve Zezé como uma de suas inspirações.

Nos palcos, ela será homenageada no dia 18 de março no 36º Prêmio Shell de Teatro, reconhecendo sua contribuição histórica à cultura brasileira. Já no dia 20, estreia em São Paulo o espetáculo Prazer, Zezé! O Musical, que revisita sua trajetória artística e discute temas como poder, racismo, desejo e permanência.

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Paralelamente, Zezé segue em turnê pelo País com os shows Atendendo a Pedidos e Coração Vagabundo - Zezé canta Caetano, celebrando sua carreira também como intérprete.

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