Não é mero golpe de sorte que o BBB 26 tenha se tornado uma "edição de colecionador". Foi uma temporada recheada com muitas brigas, participantes interessantíssimos e reviravoltas que poderiam ter sido desenhadas por roteiristas de Hollywood. Mas não foram.
Então, o que foi, realmente, que fez do Big Brother Brasil 26 uma edição tão memorável? O título de "colecionável", dado pelo público nas redes sociais e cooptado pela produção do programa, não vem do acaso: é fruto de um trabalho intenso realizado nos bastidores para identificar e corrigir os problemas que ficaram pelo caminho nos últimos quatro anos.
Se a coroação de Ana Paula Renault consagra este trabalho, o que fez o Big Brother Brasil 26 grandioso vai além de uma única participante. A estratégia de trazer veteranos quando o formato está cansativo, afinal, já havia sido utilizada em outras ocasiões; o BBB 10, inclusive, foi a primeira vez em que isso funcionou, com a surpreendente vitória de Marcelo Dourado, que retornava após ter sido odiado no BBB 4.
Mas a vitória de Ana Paula prova que um raio cai, sim, duas vezes no mesmo lugar. É claro que com suas particularidades: Renault era forte candidata a chegar à final na edição 16, se não tivesse caído em uma armadilha criada por adversários para se aproveitar de seu então descontrole.
Dez anos depois, parece uma espécie de correção de rota. Desta vez, ela retornou ao programa mais serena, comprando brigas com estratégias e sem deixar que outros participantes se isolassem ou se valessem unicamente de pautas sociais.
Tudo isso beneficiou seu jogo. Ana Paula soube aproveitar todas as oportunidades que o confinamento deu e compreendeu a regra máxima do programa; entregou seu jogo para o público e o escondeu — muito bem — de todos os seus adversários, que não compreendiam como ela permanecia na casa após cada Paredão.
Mudança no sistema de votação
Ainda assim, o grande acerto do BBB 26 começou muito antes das Casas de Vidro. Ao mudar o peso dos votos único e de torcida no sistema de votação, o programa tirou a importância do fanatismo que sequestrou narrativas e tornou o reality completamente previsível e cansativo nas edições após o BBB 21.
Neste ano, foram vários os Paredões em que enquetes externas, por exemplo, não foram tão certeiras quanto já foram um dia. Em outros contextos, a final de "Eternos" provavelmente não teria se desenhado.
Menos dinheiro ao longo do programa fez bem
Aos trancos e barrancos, a diminuição dos muitos prêmios de patrocinadores entregues ao longo do programa também fez bem. Com menos mordomias e brindes e valores em dinheiro entregues aos montes a cada semana, o jogo tornou-se mais acirrado e a necessidade de ir mais longe se fez mais urgente.
Elenco forte, o fator explosivo Ana Paula + Milena e o luto coletivo
Podemos argumentar, é claro, que nada disso teria surtido efeito se não houvesse uma boa seleção de elenco, e há de se dar os créditos ao fenômeno causador de caos que foi a junção de Ana Paula e Tia Milena. Talvez as tretas ainda existissem sem elas, mas, felizmente, jamais saberemos como seria esta versão do BBB 26.
A edição que tinha tudo para terminar no ponto alto, no entanto, precisou abrir espaço para as imprevisibilidades da vida e para o luto que atravessou dois de seus personagens mais importantes, já a caminho do fim. A angústia que tomou conta do programa do último domingo, 19, quando Ana Paula recebeu a notícia da morte de seu pai e Tadeu contou aos finalistas sobre a morte de seu irmão, Oscar Schmidt, fez o programa atravessar as barreiras que separam a ficção da realidade. Deixou um gosto amargo na boca de quem o assiste e não queria sentir que aquelas dores estavam sendo usadas para o entretenimento.
Calhou de o programa ser capaz de contornar este momento tão pesado com um gesto bastante humano que veio na segunda, 20, quando Tadeu Schmidt entrou na casa e provou ser, naquele momento, exatamente o tipo de apresentador do qual o programa precisava. Se em outras ocasiões já faltou pulso firme do jornalista para não deixar os participantes fugirem de provocações, ali ele demonstrou ser a pessoa certa, no lugar certo. Ainda bem.
Desta forma, o BBB 26 termina com uma grande vitória para Ana Paula e também para o público cativo do programa.
Lições para o BBB 27
Para o BBB 27, sobra a pressão gigantesca de suceder uma temporada tão marcante e duas lições: a primeira delas é que talvez não sejam necessários 100 dias de confinamento — a dez dias da final, mesmo uma edição de colecionador já havia esgotado todo o seu repertório; e a segunda é que os quadros de humor com inteligência artificial precisam urgentemente ser proibidos para sempre. O Fanfic BBB foi o maior prejudicado dessa moda tão sem criatividade.