A TV aberta carece de conversas consistentes sem pressa. Aquele bate-papo que, mesmo descontraído, suscita reflexões importantes no público.
Foi o que o ‘Mulheres’ ofereceu na estreia de seu novo formato nesta segunda-feira (2). A atração vespertina da TV Gazeta, no ar desde 1980, agora está mais elegante e com conteúdo variado. O comando passou a ser de Gloria Vanique, ex-Globo e ex-CNN Brasil.
O tema discutido com as convidadas no sofá foi a rivalidade feminina. A atriz Bianca Rinaldi rememorou os tempos de paquita da Xuxa. “Quando vinham as coisas ruins, a gente se juntava.”
Outra artista, Samara Felippo, contou que era indicada a testes de TV por amigas, apesar de existir concorrência entre elas pelo mesmo papel.
A jornalista e influenciadora Rosana Hermann ressaltou que o “sistema” não permite que uma mulher seja bonita e inteligente ao mesmo tempo, além de destacar o valor da rede de apoio para o acolhimento.
Roteirista e comediante, Beth Moreno disse que “em todos os setores da vida, há um estímulo” para que uma mulher sempre “bata de frente” com outra mulher.
“Por que a gente tem de procurar defeito em outra mulher?”, questionou Gloria Vanique. Atenta e carismática, ela conduziu a discussão com leveza e intervenções pontuais, respeitando o tempo de cada interlocutora. Houve escuta respeitosa, algo raro na TV abertura com ritmo alucinante.
A diversidade racial não foi vista no grupo, mas esteve presente numa matéria sobre a relação de afeto entre uma mãe e uma filha, ambas negras, por meio do vestuário.
Na hora da culinária, a saudosa Palmirinha Onofre, popularizada no ‘Mulheres’ a partir da década de 1990, foi homenageada com a presença na cozinha de sua neta, a chef Adriana Rosa, preparando uma releitura do ‘sonho’, doce associado à trajetória da ‘vovó do Brasil’.
Nesse momento, a apresentadora mostrou o jogo de cintura ao rir de falhas: um bolinho que esturricou no óleo de fritura. Mais tarde, ela contornou um vazamento de áudio no estúdio.
A pauta médica foi sobre a chegada da menopausa, com a participação do ginecologista e obstetra José Bento. Vanique exibiu desprendimento ao se colocar entre as mulheres que precisam de “receitas” para aumentar a libido na maturidade.
A produção acertou ao usar elementos cênicos para diferenciar as fases hormonais do corpo feminino, deixando o diálogo mais interessante visualmente. A trilha sonora de fundo ajudou a dar dinamismo.
Se estava nervosa ao longo do programa, Gloria Vanique não transmitiu no vídeo. Saiu-se bem até nas ações de merchandising. Não é fácil para uma jornalista condicionada à seriedade do ‘hard news’ ter de vender panelas diante das câmeras. Disso depende a viabilidade comercial dessas atrações voltadas à mulher ou à família em geral.
A redução de tempo do quadro de comentários sobre os famosos foi um acerto. Abre-se mais espaço para assuntos de impacto na sociedade. Sem o apelo popular dos mexericos, talvez a audiência do novo ‘Mulheres’ sofra no começo. Nem sempre a qualidade editorial é refletida rapidamente nos índices aferidos pelo Ibope. Os anunciantes precisam compreender isso.
Por fim, o ‘Mulheres’ renovado acertou também no cenário: cores fortes, como vermelho e roxo, deram energia à imagem na TV. O maximalismo, quando bem-aplicado, fica agradável de ser visto por quem está do outro lado da tela.