Beatriz Segall para além de Odete Roitman: frases, papéis e histórias de uma grande atriz

Artista completaria seu centenário neste sábado, 25; relembre seus últimos trabalhos na TV e no teatro e seus pensamentos marcantes sobre a vida e a carreira

25 jul 2026 - 06h10

Beatriz Segall, nome histórico da TV e do teatro no Brasil, completaria seu centenário neste sábado, 25 de julho. Marcada por personagens elegantes, muitas vezes vilãs, como a Odete Roitman, de Vale Tudo (1988), ela morreu em 5 de setembro de 2018, aos 92 anos de idade.

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Relembre a seguir mais detalhes sobre sua vida e carreira, seus trabalhos mais marcantes, os últimos papéis em vida e algumas frases ditas pela atriz em entrevistas.

O início de Beatriz Segall

Beatriz nasceu no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, então capital do Brasil. Filha de professores, chegou a pensar em seguir os passos da família, mas desde a infância, quando sonhava em ser bailarina, demonstrava interesse para as artes. A primeira peça de sua vida foi vivendo a personagem Cathos numa apresentação de As Preciosas Ridículas de Molière, na Aliança Francesa, como parte de um curso de línguas. Ao fim da apresentação, foi convidada para o teatro profissional.

Beatriz Segall como a Odete Roitman, de 'Vale Tudo', em foto de 1988. À época, atriz tinha 64 anos de idade.
Beatriz Segall como a Odete Roitman, de 'Vale Tudo', em foto de 1988. À época, atriz tinha 64 anos de idade.
Foto: TV Globo/Divulgação / Estadão

"Estava me achando um gênio. Um mês antes, meu pai havia sofrido um enfarte e estava convalescendo. Na noite em que eu ia ao primeiro ensaio, ele me disse: 'Pode ir, mas você me dá um grande desgosto'. E eu não fui", relatou ao site Memória Globo. Posteriormente, porém, vieram outras oportunidades. No cinema, a primeira foi em A Beleza do Diabo.

Por que Beatriz Segall fez uma pausa de 14 anos na carreira

Veio então um período de estudos e peças, no Brasil e na França, em que foi aperfeiçoando sua capacidade artística. Na década de 1950, porém, decidiu reduzir o ritmo. "Queria muito me casar, ter filhos, ser mãe de família. Nunca ninguém me disse 'Agora você não pode mais trabalhar'. Parei automaticamente", relatou ao programa Provocações, da TV Cultura, em 2014.

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Beatriz Segall ao lado do marido, Mauricio, em foto de outubro de 1976.
Foto: Arquivo/Estadão / Estadão

"Nem discuti isso com meu marido, nada. Eu simplesmente queria ser dona de casa e fazer tudo que as feministas diziam que não podia fazer. Assim eu fiquei durante 14 anos. De repente, o Zé Celso me chamou para substituir a [Henriette] Morineau em Andorra [1964]. Eu disse: 'Vou brincar um pouco'. Fui e não saí mais", prosseguiu Beatriz Segall.

O casamento de Beatriz com Mauricio Segall

O marido em questão era Maurício Segall, museólogo e filho do pintor Lasar Segall. Eles chegaram a assumir a administração do Teatro São Pedro durante alguns anos. Ao Provocações, em 2014, ela comentou a relação com o companheiro durante o regime militar.

"Ele evitava o máximo possível que eu tivesse qualquer atividade política. Eu e meus três filhos sempre tivemos passaportes atualizados e preparados se fosse preciso sair do Brasil. Pensávamos muito nessas coisas. De qualquer jeito, foi duro para todo mundo viver numa ditadura."

Beatriz Segall à frente de quadro de Lasar Segall feito para ela, em sua casa no bairro do Jardins, em São Paulo, em 2014.
Foto: Evelson de Freitas/Estadão / Estadão

Sobre o sogro, renomado artista brasileiro, dizia: "Seu Lasar era um homem muito agradável, fino, delicado, charmoso, encantador. Sempre gostou de mim, me tratou muito bem. Tenho quadros e desenhos que ele fez para mim, de mim. Sempre me dei muito bem com ele."

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O último trabalho de Beatriz Segall na TV

Beatriz Segall passou por praticamente todas as emissoras importantes nas primeiras décadas de TV brasileira, incluindo Tupi, Record, Excelsior, Cultura, Bandeirantes e Globo. Nesta última, esteve em novelas marcantes como Dancin' Days, Pai Herói, Água Viva, Vale Tudo, Barriga de Aluguel, De Corpo e Alma e O Clone.

Na televisão, a despedida pôde ser vista no episódio O Assalto, da minissérie Os Experientes, da TV Globo. Em entrevista ao Gshow em abril de 2015, ela comentou sobre as gravações e elogiou o trabalho de João Côrtes, com quem contracenou.

Beatriz Segall como Yolanda, de 'Os Experientes', sua última personagem na televisão. Atriz morreu em 2018, aos 92 anos de idade.
Foto: Zé Cardeal/Globo/Divulgação / Estadão

"Não é sobre a terceira idade. Trata de pessoas mais vividas, que têm uma história a contar que você não imaginava que aconteceu com elas", dizia, sobre a trama. É possível assistir à íntegra do programa no streaming Globoplay.

Em cena, surge como a personagem Yolanda. Aparentemente vulnerável, uma idosa que precisa de ajuda para mexer no caixa eletrônico de uma agência bancária. Ocorre um assalto. Um dos criminosos é baleado.

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Médica, ela se dispõe a cuidar dele, se aprofundando também na conversa para entender as motivações do crime. Relata que uma vez presenciou um assalto em que cinco pessoas morreram, com somente uma sobrevivente.

Beatriz Segall em foto tirada em 6 de maio de 2015, pouco menos de três meses antes de a atriz se aposentar dos palcos.
Foto: Gabriela Biló/Estadão / Estadão

No fim, sua personagem revela que não tem medo de morrer. Na verdade, a sexta integrante do crime de décadas antes era ela - uma ex-revolucionária da época da ditadura. O programa encerra com ela caminhando para longe de policiais, médicos e imprensa e seguindo seu caminho sozinha, às lágrimas.

O adeus de Beatriz Segall aos palcos

Já a despedida de Beatriz Segall nos palcos veio no espetáculo Nine - Um Musical Felliniano, de Charles Möeller e Claudio Botelho. Versão brasileira do sucesso da Broadway que faturou diversos prêmios Tony em 1982.

A história girava em torno de Guido Contini (Nicola Lama), um diretor de cinema que revisitava o próprio passado em flashbacks e memórias durante um período de descanso e de crise existencial num spa em Veneza, na Itália.

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Beatriz Segall contracena com Nicola Lama em cena de 'Nine - Um Musical Felliniano', último espetáculo que fez em vida. Foto tirada no Teatro dos Arcos, na Bela Vista, em maio de 2015.
Foto: Gabriela Biló/Estadão / Estadão

Beatriz Segall aparecia justamente como a mãe do protagonista. O elenco trazia outros nomes conhecidos do público da TV, como Totia Meireles, Carol Castro, Mayana Moura e Leticia Birkheuer.

Com quase dois meses da peça em cartaz, uma homenagem estava preparada por conta do aniversário de 89 anos da atriz, em um domingo, 26 de julho de 2015. Antes, porém, Beatriz Segall acabou sofrendo uma queda no palco, que fez com que precisasse passar por uma cirurgia no braço, sendo substituída no elenco.

A morte de Beatriz Segall

Beatriz Segall morreu em 5 de setembro de 2018, aos 92 anos. À época, sofria com problemas respiratórios e com a doença de Alzheimer.

Beatriz Segall durante lançamento de seu livro na Livraria Cultura, em São Paulo, em dezembro de 2007.
Foto: Marina Malheiros/Estadão / Estadão

A imprensa repercutiu um último gesto de generosidade: teria deixado, entre diversos itens de testamento a familiares e amigos, um carro e uma alta quantia em dinheiro ao motorista Adilson Ricardo Leite, seu funcionário de confiança por cerca de 15 anos.

A eterna Odete Roitman de Beatriz Segall em 'Vale Tudo'

"Minha vida está mudada por causa dela. Ao supermercado eu não vou mais de jeito nenhum. E ando pouco por aí. Mas não é por precaução ou medo da reação negativa porque normalmente, ao contrário do que se pensa, as manifestações são cordiais", dizia a atriz sobre a personagem ao jornal O Globo em 1988.

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"Levo muito tapinha no ombro acompanhado de frases como 'E aí, Odete!', 'Você é ruinzinha, mesmo, hein, Odete?' ou 'Tô te esperando lá em casa hoje à noite, viu, Odete?'. Nada ofensivo, mas tudo muito cansativo. As pessoas se acham originais com essas brincadeiras de Odete, mas, para mim que ouço isso o dia inteiro, há de convir que é...", desabafava.

Notícias publicadas no 'Estadão' em 1988 sobre a morte de Odete Roitman na novela 'Vale Tudo'.
Foto: Acervo Estadão / Estadão

Uma das maiores vilãs da história da TV brasileira, Odete, a presidente do grupo Almeida Roitman, demorou dezenas de capítulos para aparecer pela primeira vez em Vale Tudo - sua personagem vivia em Paris, com horror ao Brasil. Seu jeito arrogante, elitista e manipulador marcou época, em especial a cena de seu assassinato.

À época, tudo indicava que o esperado momento iria ao ar numa sexta-feira, 23 de dezembro de 1988. O capítulo passou, passou... e nada da morte de Odete Roitman. Entre diferentes versões divulgadas, a mais popular é a de que o motivo foi um anúncio estrelado por Beatriz Segall em páginas de grandes jornais - incluindo o Estadão.

A Codiseg, sigla para Comitê de Divulgação Institucional do Seguro, havia feito uma proposta no valor de 800 milhões de cruzados para que a emissora adiasse a cena e a atriz aparecesse sorrindo ao lado da frase: "Faça seguro. A gente nunca sabe o dia de amanhã".

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Publicidade com a inscrição "Faça seguro - A gente nunca sabe o dia de amanhã" marcou época às vésperas da morte de Odete Roitman (Beatriz Segall) em 'Vale Tudo' (1988)
Foto: Acervo Estadão / Estadão

Lillian, o 1º papel de Beatriz Segall depois de Odete Roitman

O primeiro trabalho de Beatriz Segall após Odete Roitman foi a peça Lillian, que estreou em março de 1989 no Teatro Cândido Mendes, no Rio de Janeiro. No palco, dava vida à escritora Lillian Hellman, em texto de William Luce. Só no primeiro ato, fumava oito cigarros.

A peça se passava em uma sala de espera de hospital, com a autora visitando memórias enquanto seu companheiro, Dashiell Hammett, estava à beira da morte. Surgiam outros personagens no monólogo, como a mãe, o pai, a empregada ou o tio da protagonista.

Beatriz Segall em cena como Lillian Hellman na peça 'Lillian', em 1989.
Foto: Inês Rezende/Divulgação / Estadão

"Lillian é um bom espetáculo, e Beatriz Segall está muito bem - estaria melhor ainda se tivesse dado ao personagem de Lillian Hellman a verdadeira característica desta: a de Odete Roitman", consta em crítica de Ruy Castro ao Estadão em 1989.

Questionada pelo jornal O Globo sobre a possibilidade de o público confundir ou comparar o novo papel com o de Odete, rechaçava: "Não sou do tipo de atriz que pega coisas do personagem e traz para casa."

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"Tenho o mesmo olho, a mesma boca, o mesmo nariz, mas não há como fazer comparação dentro da personagem. Não uso peruca nem outra maquiagem para parecer Lillian porque qualquer tentativa nesse sentido seria ridícula. Nunca ouvi sua voz, não sei como andava. Sei que era elegante e vestia grifes caras quando tinha dinheiro", completava.

A atriz Beatriz Segall em foto tirada no seu apartamento na cidade de São Paulo, em janeiro de 2007.
Foto: Sérgio Castro/Estadão / Estadão

Frases de Beatriz Segall

Relembre a seguir algumas frases ditas pela atriz em entrevistas ao longo da vida.

  • "Só havia duas cidades no mundo onde eu poderia viver: Rio de Janeiro e Paris. Moro há 60 anos em São Paulo. E sou muito feliz."
  • "O povo que tem um bom cinema, um bom teatro, uma boa orquestra, boa música ao alcance do povo, é muito mais feliz. Mas é preciso que esse país tenha educação alta para dar. Nós não temos."
Beatriz Segall em foto de abril de 2007, durante gravação do programa 'Profissão Professor', da TV Cultura.
Foto: Ed Viggiani/Estadão / Estadão
  • "Ninguém é feliz o tempo todo. Você é feliz por momentos."
  • "Quando a gente começou, os atores tinham uma preocupação enorme em se formar e se informar. Ler, aprender, ver o que estava acontecendo fora. Tentar fazer um teatro brasileiro. Hoje em dia não há mais essa preocupação. A preocupação maior é aparecer na televisão. Você vai para a TV, 15 dias depois você é celebridade."
Beatriz Segall e Jorge Cerrutti em cena de 'Maflor' (1977)
Foto: Arquivo/Estadão / Estadão
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