Longe de ser uma função extinta, o ponto teatral — profissional que dita falas discretamente para evitar lapsos dos atores — segue vital nos palcos brasileiros. Seja via fone de ouvido ou da coxia, ele assegura a fluidez em textos complexos e traz segurança ao elenco. Especialistas adaptam o ritmo a cada artista e, em montagens recentes, o ponto deixa a invisibilidade dos bastidores para ser incorporado diretamente à dramaturgia e à cena, atuando de forma visível e integrada à narrativa.
Figura comum nos bastidores do teatro em boa parte do século 20, o ponto é o profissional que fica fora da cena encarregado de soprar as falas de atores e atrizes sem que a plateia perceba. O texto é ditado geralmente da coxia com uma voz baixa e neutra e contorna esquecimentos que possam paralisar a cena devido a um "branco".
Na Europa, o recurso ainda é utilizado, principalmente nas companhias de repertório que intercalam diferentes peças simultaneamente e, no Brasil, engana-se quem acredita que se trata de uma atividade em extinção. Em alguns casos, além do uso do ponto eletrônico, aparelho acoplado no ouvido dos artistas, a dramaturgia e a encenação escolheram incorporar a presença do profissional juntos aos atores.
O ator e produtor Rafael Fernandes, de 39 anos, se especializou como ponto desde 2013 e estabeleceu uma longa parceria com o ator Pedro Paulo Rangel (1948-2022) nos espetáculos Azul Resplendor (2013), Histeria (2016) e O Ator e o Lobo (2019). Fernandes acompanhava os ensaios, e Rangel o orientava sobre a forma como precisaria receber o texto a cada trabalho. "É uma fala lenta, articulada e, faltando três palavras para terminar a frase do outro ator, já começava a dar o texto", conta Fernandes. "Com o Pedro Paulo, eu falava mais alto que o normal porque ele tinha um problema de audição, então eu não ficava na coxia porque minha voz vazava para a plateia e já cheguei a fazer o ponto até da garagem do teatro."
Fernandes trabalhou ainda com a atriz Suely Franco no drama Três Mulheres Altas e na comédia musical A Vedete do Brasil entre 2022 e 2024. O processo da artista é diferente daquele que havia se acostumado com Rangel, definido em suas palavras como "mais intenso". Para Suely, quanto mais invisível o ponto, melhor, e ela gosta de receber as palavras com o mínimo de elaboração, através de uma leitura neutra e ditada.
O mais recente trabalho de Fernandes foi com a atriz Danielle Winits, de 52 anos, em Choque! Procurando Sinais de Vida Inteligente, de Gerald Thomas. "Claro que Danielle sabe o texto, mas como a dramaturgia do Gerald é discursiva e não segue uma lógica, ela se sente mais segura e evita imprevistos", explica.
Em espetáculos recentes, o ponto tem sido incorporado à encenação e, no caso de Não me Entrego, Não!, virou até personagem. No monólogo escrito e dirigido por Flávio Marinho, o ator Othon Bastos, de 93 anos, relembra passagens marcantes de sua carreira e interage com a "sua memória", representada em diferentes temporadas pelas atrizes Juliana Medela e Marta Paret.
Recurso semelhante é usado pela atriz Vera Holtz, de 73 anos, no solo Ficções, criado e dirigido por Rodrigo Portella em cima do livro Sapiens, Uma Breve História da Humanidade, de Yuval Noah Harari. O longo texto não obedece a uma linearidade e, no caso desta montagem, o ponto presencial é parte da narrativa que gira em torno de diferentes formas de construção de uma história.
Sentada em cena, a socióloga Lúcia Soares, de 55 anos, serviu como um dos pontos para Vera nas temporadas paulistanas. Com o texto impresso nas mãos e um figurino escuro, ela se posiciona no palco e espera algum sinal da protagonista para entrar em ação. "Muitas vezes, a Vera nem precisa, mas, em outros momentos, ela me lança um olhar e eu sopro o texto, o que não deixa de ser uma contracena entre nós que já me emocionou várias vezes a ponto de eu chorar", completa Lúcia, que, encantada com os bastidores do teatro, fez um curso de audiodescrição e trabalhou em sessões das peças A Baleia e Viva! Vida!.
Como está em cartaz desde 2022, Ficções já teve vários pontos e uma delas é Regina Holtz, de 72 anos, que, além de professora de matemática, é irmã da protagonista. Em 2023, Regina acompanhou Vera nas viagens para outras capitais brasileiras e, no ano seguinte, durante a excursão para Portugal, o seu nome foi lembrado com naturalidade para participar da encenação. Regina, que, no teatro, sempre se limitou ao papel de espectadora, se surpreendeu com a proposta, mas resolveu aceitar. "Fazer o ponto exige uma outra postura e você não pode ser capturado pela emoção da atriz para não desviar a atenção do texto", conta.
A intimidade familiar é um ponto positivo para a parceria profissional dar certo. Regina garante que conhece Vera como poucos e basta uma pausa mais prolongada para entender que a irmã precisa de seu auxílio. "Como sou professora, já aconteceu de eu automaticamente dar broncas no palco quando ela pulou parte do texto ou esqueceu de algo importante", comenta, rindo. "A plateia percebe de cara essa nossa cumplicidade e se diverte muito com isso."
Sopro
- Onde: Teatro Raul Cortez - Sesc 14 Bis. Rua Doutor Plínio Barreto, 285, Bela Vista
- Quando: De 22/10 a 15/11. Quinta a sábado, 20h; domingo e feriado, 18h.
- Quanto: R$ 60
- Importante: Não haverá sessão no domingo, 25