O ano de Zuenir Ventura, que não terminou, só encontra precedente em 1994

Escritor, eterno pela Academia Brasileira de Letras, nos deixou nesta terça-feira

25 set 2026 - 18h27
Resumo
Assim como o icônico 1968 retratado por Zuenir Ventura, o ano de 1994 permanece inesquecível na história brasileira. Marcado pela trágica morte de Ayrton Senna e pela euforia do tetracampeonato mundial de futebol, o período transformou o país com o Plano Real, que controlou a inflação e impulsionou a eleição de Fernando Henrique Cardoso, consolidando rumos democráticos marcantes. No cenário global, o ano ainda testemunhou o fim do Apartheid com a vitória histórica de Nelson Mandela.

Zuenir Ventura tornou eterno um ano na história do Brasil: 1968. Ao narrá-lo, sob a perspectiva do New Journalism, uma maneira diferente e 'literada' de contar os fatos cujo mestre foi Gay Talese, Ventura o tornou imortal. A obra serviu de base para uma minissérie da TV Globo - Os Anos Rebeldes, que dizem, foi um dos estopins (foram muitos, na verdade) para a queda do então presidente Fernando Collor. Do livro saiu a minissérie e ela estimulou jovens de todo País a irem às ruas protestar contra o então Caçador de Marajás.

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O ano de 1968, bruto, por conta dos militares no poder, e brutal, avassalador, por conta do reboliço cultural pelo qual o Brasil e o mundo passavam, encontra talvez um único equivalente.

O escritor e jornalista Zuenir Ventura morreu aos 95 anos
O escritor e jornalista Zuenir Ventura morreu aos 95 anos
Foto: Marcos De Paula/Estadão / Estadão

Em 1994.

Também aquele ano ainda não terminou para o País e os brasileiros.

1994: foi o ano em que Nelson Mandela se tornou presidente e, com isso, varreu para o lixo da história o Apartheid.

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Dunga levanta a taça após a conquista do tetracampeonato na Copa de 94
Foto: Masao Goto Filho/Estadão / Estadão

Mas ele foi especialmente marcante por aqui. Começou com a morte de Ayrton Senna, numa curva que ele não conseguiu fazer - ou a máquina não o deixou. O piloto extraordinário se tornou mito. Para quem viveu a época, impossível não se lembrar da cidade de São Paulo parada, chorando, a espera do caixão com o ídolo, que ao desfilar pelas principais vias da cidade arrancou aplausos, papel picado e comoção.

Terminou, 1994, com o impensável tetracampeonato mundial da Seleção Brasileira. Time que chegou desacreditado nos Estados Unidos, mas foi ganhando, ganhando, ganhando e que superou até a Itália nos pênaltis (obrigado Baggio!).

O ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, segura uma nota de R$ 1 lançada no Plano Real
Foto: Alex Silva/Estadão / Estadão

Lá, no estádio na Califórnia, uma faixa exibida pelos jogadores lembrava da morte de Senna. Mais choro, mais lágrimas e uma festa impensável tomou conta do País. Um amigo, de tão feliz, saiu pulando e gritando pela rua, pulou a grade de um parque que ficava na rua de trás de onde morávamos e mergulhou em um laguinho raso, raso. Para a sorte de todos, principalmente dele, todos ficaram bem (mas essa é outra história).

No meio desses dois fatos marcantes, foi 1994 o ano em que o Plano Real ganhou vida. Um grupo de economistas criou uma moeda por trás da moeda vigente - o que teoricamente era proibido - e comandados por Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda, deu um pontapé para longe do principal câncer do País à época: a inflação que corroía tudo e punia mais, como sempre, os mais pobres.

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FHC seria eleito, então, no primeiro turno, presidente do Brasil. Depois, seria reeleito, mas abriria espaço para a consolidação da democracia quando, em 2002, passou a faixa presidencial para um desajeitado Lula. Operário, retirante. Brasileiro.

Bem que Zuenir Ventura poderia ter escrito um livro sobre isso.

Paciência.

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