Kip Winger não cabe no arquétipo de uma estrela do rock. O vocalista e baixista da banda que carrega seu nome, Winger, se tornou uma figura notória na história do gênero graças aos contrastes de sua carreira: embora famoso como artista de hard rock oitentista/glam metal, estudou composição orquestral e hoje em dia foca a maior parte do seu tempo nessa atividade.
Seu grupo sempre se destacou pela performance técnica, rara em seu segmento específico. Por outro lado, uma de suas músicas mais populares, "Seventeen", fala sobre um romance com uma garota ainda menor de idade com direito a um videoclipe em que o próprio Kip sensualiza diante das câmeras.
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Em 2025, o Winger anunciou uma turnê que era para ser sua despedida dos palcos. Após o fim desta temporada, vieram mais datas — e o Brasil entrou na agenda.
Dessa forma, a banda irá se apresentar no Bangers Open Air, a ser realizado no Memorial da América Latina, em São Paulo. A atração está escalada para o segundo dia, 26 de abril. Outros grupos na data incluem o Angra (juntando-se a ex-membros), Within Temptation e Smith/Kotzen. Ingressos estão disponíveis via Clube do Ingresso.
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Kip Winger se abriu sobre o conjunto e seus companheiros. As origens, altos e baixos e como a despedida da estrada não significa necessariamente o fim do Winger.
Entrevista com Kip Winger
1) Estado atual do Winger
Oo show no Bangers Open Air
Kip Winger: Não lido com expectativas. Estou feliz pelo convite e por fazer parte disso. Amo o Brasil, onde fiz ótimos shows. Os fãs brasileiros são alguns dos melhores para os quais já me apresentei, pois vivem e respiram a música.
O quão familiarizado está com o resto da programação no dia em que vão se apresentar no Bangers Open Air
KW: Richie Kotzen é um grande amigo meu, então conheço o projeto dele. Ele é incrivelmente talentoso. Não conheço muito bem os outros artistas. Procurei ouvir tudo e todas as bandas pareceram ótimas, ao meu ver. Não acompanho muitas das novas bandas que estão surgindo, mas estou feliz por estarmos nesse lineup com esses grupos porque acho que nos coloca em uma luz diferente. Somos meio que uma atração de legado e sempre gostei do desafio de competir com a galera mais jovem, só para ver como, aos 64 anos, me saio pessoalmente.
A turnê de despedida do Winger
KW: Nunca anunciei que eu ia parar, desistir do Winger ou algo assim. Fiz uma declaração de que não quero mais fazer turnês porque isso está tirando tempo e energia da minha nova carreira em música orquestral. Comecei a falar sobre isso com Rod [Morgenstein, baterista do Winger] uns seis anos atrás, aí a pandemia aconteceu e me fez pensar: "Ok, vamos adiar para garantir que a gente cubra todas as áreas possíveis". Fui ao Japão e disse que seria a última vez. Fizemos algumas coisas na Europa e disse que seria a última vez. Sob essa perspectiva, nós meio que estamos parando. Eu só nunca fiz uma declaração: "Este é o último show que eu vou fazer". Sentia que oportunidades como esta no Brasil poderiam vir. Isso tem a ver com as pessoas que foram fãs da banda por muito tempo e dar-lhes a oportunidade de nos ver pela última vez. Há um elemento emocional para mim, de pensar: "Uau, nós construímos isso e tem sido bastante bem-sucedido." Não é a maior banda do mundo, mas nós encontramos nosso nicho e fizemos coisas ótimas. Pessoalmente, vou sentir falta de ver Reb Beach fazer o solo de "Headed for Heartbreak" todas as noites. Há 35 anos vejo isso e me surpreende todas as noites. Ou me virar para Rod Morgenstein, sem acreditar que estou no palco com essa grandeza. E o Paul [Taylor, tecladista] também. E outra coisa é que são todos os membros originais, então poucas bandas podem dizer isso.
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2) Atividades fora da banda
Como o estudo de composição orquestral auxilia sua abordagem musical
KW: É como ser um carpinteiro que entra para consertar um apartamento. Começa com uma chave de fenda e um martelo. É por aí que eu comecei. Ao buscar educação sobre música, é como se eu tivesse agora um enorme estojo de ferramentas elétricas: um compressor de ar, uma espátula, um pincel. Isso só te dá mais ferramentas para facilitar ideias. Há muitos artistas com ótimas ideias, mas sem as ferramentas para viabilizar. Minha área de interesse era composição musical em termos de ser um astro do rock, mas eu era atraído por bandas que tinham música mais complexa como Yes, Jethro Tull, Gentle Giant, Genesis.
https://www.youtube.com/watch?v=zqfYN2Vrrnc&list=PLlPBpM4CpE0Kd_BBwp269EgR1oUYcsr7U
A música que compôs para o balé Ghosts
KW: Estudei balé aos 16 anos, porque minha namorada queria fazer balé e ninguém queria fazer com ela. Eu já tinha feito caratê e curtia essa vibe atlética. Quando fiz minha primeira aula de balé, fiquei viciado. É tão atlético, artístico e difícil. E a música é tão legal. Parte do meu objetivo ao estudar composição orquestral era compor música para dança. Na primeira tentativa, fui apresentado a quem agora é um coreógrafo muito famoso chamado Christopher Wheeldon, mas na época não era. Ele usou a música de uma peça que compus nos anos 2000 para o San Francisco Ballet e foi um grande sucesso. A ironia é que eu queria compor música para dança, mas esse é o único balé que fiz.
3) Primórdios da carreira
Como Kip Winger entrou para a banda de Alice Cooper
KW: Eu me mudei para Nova York por volta de 1982, após o término da banda que tinha com meus irmãos. Eu já estava trabalhando com o produtor Beau Hill, que tinha produzido a gente em Denver, mas se mudado para Nova York. Fez grande sucesso com o Ratt. Antes de todo mundo conhecê-lo, eu e meus irmãos éramos tipo os músicos de estúdio dele. Um dia, ele me fala: "Estou trabalhando com Alice Cooper. Precisamos de um baixista para quatro músicas." Eu era muito fã, então fui ao estúdio e conheci Kane Roberts [guitarrista], que estava co-criando aquele álbum. Até hoje converso com Kane. E foi ele quem me disse: "Estamos montando uma banda. Eu perguntei pro Alice sobre você. Você quer?"
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Quando conheceu Reb Beach
KW: Beau estava produzindo uma artista chamada Fiona Flanagan e o baixista dela, Donnie Kisselbach, conhecia um sujeito chamado Reb Beach: um jovem prodígio na guitarra, 19 ou 20 anos. Gravei algumas sessões no álbum da Fiona e fiquei muito impressionado com ele. Beau falava pra gente compor algo junto. Reb e eu nos juntamos, criamos algumas coisas, mas não chegou a lugar algum.
Paul Taylor e a saída da banda de Alice Cooper
KW: Quando consegui o trabalho com Alice Cooper, Kane e eu testamos outros caras para a banda dele. Paul Taylor conseguiu o trabalho de tecladista imediatamente. Uma decisão óbvia. Ele cantava, tocava guitarra muito bem, tocava teclado perfeitamente. Enquanto estávamos na estrada, Paul e eu criamos algumas músicas no quarto do hotel. Nossa banda seria Paul, eu e Ken Mary, baterista da banda do Alice. Fizemos algumas demos antes de eu fazer algo com o Reb, mas também não vingou. Após uma lesão na minha última turnê com o Alice, recebi uma compensação financeira por isso e saí. Todos acharam loucura, mas Alice foi muito solidário.
Quando o Winger finalmente vingou
KW: Reb e eu fizemos um pacto de compor músicas por seis meses e não aceitar nenhum trabalho externo. Depois, tentaríamos um contrato com gravadora. Beau, produtor badalado, divulgava nossa demo. Fomos rejeitados por todo mundo. Só conseguimos assinar com a Atlantic Records devido a um favor que deviam a Beau, pois ele gerava tanto dinheiro para eles. Na época das demos, conhecemos Rod Morgenstein. Reb era um grande fã. Eu já sabia que Paul estaria na banda. Gravamos o álbum, que de início não vendeu. Estávamos em perigo de sermos dispensados. Felizmente, tínhamos um informante na MTV que nos ajudou a colocar nosso clipe no ar. O resto é história.
4) O fim da era de ouro
Na virada dos anos 90, a imagem do Winger foi muito prejudicada por alguns acontecimentos. No clipe da música "Nothing Else Matters", do Metallica, Lars Ulrich foi visto jogando dardos numa foto de Kip Winger. Além disso, o desenho Beavis & Butt-Head associou a banda ao personagem Stewart Stevenson, vítima constante de insultos da dupla principal. No meio de tudo isso, o grunge surgiu...
KW: Quando olho para trás, parece que aconteceu em um dia, mas foi ao longo de meses. A primeira coisa de que tivemos notícia foi sobre o Metallica. Ali, instruíram todos os fãs deles a não curtirem nossa banda. Lars nunca falou comigo, mas James Hetfield [vocalista/guitarrista] me ligou anos depois. Foi muito legal, super educado, parece um cara incrível. O Nirvana também estava na praça. Quando "Smells Like Teen Spirit" saiu, acabou para todas as bandas que nem a gente. Mesmo sem Metallica e Beavis & Butt-Head, ainda teríamos sumido, porque aconteceu com todas as bandas como a nossa. Lembro de ver Jon Bon Jovi em Miami e ele falar: "Cara, está horrível. Estamos fazendo shows com meia lotação" — no auge do grunge. Mas por todo o resto, meu nome se tornou tóxico. Até hoje, quando posto coisas no Facebook sobre meu trabalho orquestral, sempre aparece um cara tirando sarro de mim por causa do Stewart.
https://www.youtube.com/watch?v=4xbLN7aDvEk&pp=ygUVc3Rld2FydCBiZWF2aXMgd2luZ2Vy
O álbum Pull (1993), lançado após toda essa controvérsia — e o último da fase original da banda
KW: Até hoje é provavelmente o disco favorito dos fãs dentre todos que fizemos. Se você pegasse mil fãs do Winger e perguntasse qual álbum eles mais gostariam, a maioria deve dizer Pull. E mesmo com toda essa reação negativa, vendemos 500 mil ou 600 mil cópias desse disco.
https://www.youtube.com/watch?v=HSfosnvz_mE&list=RDHSfosnvz_mE&start_radio=1&pp=ygULd2luZ2VyIHB1bGygBwE%3D