O álbum novo do Silva, "Rolidei", chegou às plataformas digitais e o cantor capixaba quer que o máximo de pessoas possível ouça seu trabalho. Neste sentido, faz questão de ser popular. "Gosto de música feliz. Detesto ficar empurrando meu tédio para cima das pessoas", diz ao POPline. Mas ser popular é bem diferente de ser superficial ou um mero produto de marketing, sinaliza o artista.
"O que estou vendo por aí é um monte de gente brincando de ser famoso. Por último, querem ser músicos, cantores, bons artistas, sabe? Hoje, tudo é um grande trabalho de publicidade, no fim das contas. Eu sempre fui de ler Rolling Stone e as revistas que tinham no Brasil e nunca vi um músico ser elogiado pelo marketing. 'Nossa, parabéns, você é um gênio do marketing!'. Marketing, sério? Você vai elogiar o artista pelo marketing que ele faz? É tudo que ele tem a oferecer?", pontua Silva, que também estreou um curta-metragem documental no YouTube recentemente.
Música ≠ entretenimento
Silva leva música a sério. O estúdio próprio, com um piano elétrico, um Moog dos anos 1970 e um órgão Yamaha de 1985, é um dos luxos que se deu. "Só instrumento bom. Para mim, isso é riqueza", se orgulha. "Estou sempre estudando canto e violão. Você pode ter certeza que, no próximo disco, vou estar cantando e tocando melhor do que agora. Esse é meu foco", defende. Mas ele não vê a cena atual assim.
"A gente vive num mundo em que a música está só para o entretenimento, e entretenimento é uma coisa feita para você passar o tempo mais confortável. Música não é só para entreter. Música pode acabar com seu coração, pode te fazer pensar na vida, te fazer uma pessoa melhor, mais humana, mais doce, menos ansiosa. A música tem tantos poderes", disserta.
Verborragia de Silva em Brasília
Tudo isso estava na cabeça de Silva no 7 de setembro de 2025, quando ele virou notícia por um discurso inflamado no meio de um show em Brasília. "Vamos construir um Brasil com música, com gente talentosa. Mynd? Vai se fod**, Mynd! Luísa Sonza, vai se fod**. Tá ligado? Música virou publicidade", disparou. Também citou Virgínia, Serginho Groisman e Paula Lavigne, em diferentes contextos.
"Como o público estava muito na minha mão, aquilo foi me dando um respaldo para eu ir falando (risos)", lembra o cantor. Ele se arrepende do tom. Brinca que deveria ter levado o tema para a terapia apenas. Com Paula Lavigne, se acertou rapidamente. "Ela é maravilhosa. Fala na cara o que pensa", diz. Para Serginho, mandou um pedido de desculpas. Mas o cerne das críticas, sobre a música financiada pelo agronegócio e movida pelas agências de publicidade, ele mantém.
"Pô, eu sou da área. Eu tenho um lugar de fala para criticar, entendeu? Estou no mercado musical. Vejo os músicos. Eu me importo com a minha classe de músicos. Pago bem minha banda, dou muito valor. Todo mundo gosta de trabalhar comigo. A gente se cuida na estrada", conta.
Música para ouvir na Bahia
Silva se arrepende de ter dito, naquela fatídica noite, que não é "um cantorzinho de MPB, com musiquinha para vocês ouvirem na Bahia". Admite que se expressou mal. A frase veio de um lugar muito pessoal, que o público não tinha como entender o contexto. Seu "Bloco do Silva", projeto de Carnaval, virou uma máquina de fazer dinheiro, e o mercado só queria que ele cantasse axé a partir dali. Por isso, ele estava incomodado.
"Aquilo que critiquei foi muito mal colocado na época. Eu lembro de festejar quando meu show lotou em Salvador. Mais do que emplacar no Rio, o que eu mais queria era emplacar em Salvador, sabe? O que eu estava falando era do estereótipo no qual me colocaram. Essas pessoas, eu demiti. Tudo que eu queria fazer no bloco, que não tivesse músicas da Bahia, eles não gostavam", explica.
Mas "Rolidei" é música para ouvir na Bahia, sim. E no Brasil todo. Silva criou o álbum para ser ouvido como uma recompensa no fim do dia. É solar e marítimo. E sem feats, porque ele acha que essa estratégia já saturou também. "Tenho a impressão que está todo mundo se apoiando em feat. Quando tem feat demais, não consigo ver o artista ali. Neste álbum, falei: 'Chega, deixa eu cantar'", avalia.
O post Silva propõe reflexão: "Elogiar o artista pelo marketing? Sério?" (ENTREVISTA) apareceu primeiro em POPline.