Após 42 anos de estrada, o Sepultura se prepara para seus últimos capítulos nos palcos. Enquanto os fãs ainda tentam assimilar a despedida, Andreas Kisser encara o momento com serenidade, gratidão e a convicção de que a história da banda ultrapassa qualquer encerramento formal. O grupo faz nesta semana sua reta final em São Paulo, com apresentações no Cine Joia e na Suhai Music Hall, palco do show derradeiro da carreira.
Para o guitarrista, a principal herança deixada pelo Sepultura não está apenas nos discos ou nos recordes conquistados ao redor do mundo, mas na contribuição singular que a banda trouxe para o heavy metal ao incorporar elementos da cultura brasileira a uma linguagem universal.
“O heavy metal é um movimento maravilhoso, inclusivo e democrático. É um privilégio fazer parte dessa tribo. Tenho orgulho de ver o Sepultura ocupando um lugar único nessa história, levando ritmos e melodias brasileiras para a música pesada”, afirma.
Ao longo de mais de quatro décadas, a banda ajudou a transformar o metal produzido no Brasil em referência internacional. Para Kisser, a trajetória do grupo também serve como exemplo de persistência e dedicação.
“Tudo é possível quando você acredita em você, investe em você e se prepara física e mentalmente para encarar a estrada”, resume.
A despedida que virou celebração
Embora o anúncio do fim tenha provocado surpresa entre os fãs, Andreas afirma que a decisão foi construída de forma planejada. Segundo ele, a banda começou a discutir o encerramento cerca de dois anos antes do anúncio oficial.
O resultado superou qualquer expectativa.
“É a melhor turnê que fizemos na nossa história, disparado”, diz.
Durante a excursão, novos projetos surgiram naturalmente, como o EP The Cloud of Unknowing e apresentações em locais que inicialmente nem faziam parte do roteiro. O clima entre músicos, equipe e público também transformou a despedida em uma celebração constante.
“Muito melhor do que a gente imaginava. Foi uma escolha consciente e a realidade acabou superando tudo que planejamos.”
Fãs transformaram a turnê em um fenômeno
Se a banda está convencida da decisão de encerrar as atividades, o mesmo não pode ser dito sobre muitos admiradores.
“Quase 100% das pessoas pedem para a gente não parar”, conta o guitarrista.
Segundo Andreas, o anúncio da despedida fez com que muita gente fosse ver o Sepultura ao vivo pela primeira vez. Também aproximou diferentes gerações de fãs, criando cenas frequentes de pais e filhos dividindo a experiência nos shows.
“O heavy metal é muito família. Passa de geração para geração.”
Para ele, essa relação de lealdade construída ao longo dos anos é uma das maiores conquistas da banda. Afinal, foi o público que manteve o grupo relevante durante décadas, comprando ingressos, discos, camisetas e acompanhando cada transformação artística.
Repertório sem nostalgia forçada
Nos últimos shows, o Sepultura optou por não construir um repertório guiado apenas pela nostalgia ou por debates sobre diferentes formações da banda.
A ideia, segundo Andreas, sempre foi tocar as músicas que fazem sentido para o momento atual.
“A gente toca o que está a fim de tocar.”
O repertório mistura clássicos e faixas de diferentes fases da discografia, além de surpresas preparadas especialmente para os shows finais. Entre elas estão participações de convidados e músicas que não aparecem nos setlists há anos.
A turnê também servirá de matéria-prima para um futuro álbum ao vivo, gravado em diversas cidades ao redor do mundo.
A importância de Greyson Nekrutman
Andreas também destaca a contribuição do baterista Greyson Nekrutman, que assumiu as baquetas em meio ao processo de despedida.
Para o guitarrista, o músico trouxe novo fôlego ao grupo e rapidamente assimilou uma das características mais marcantes da sonoridade da banda: a influência dos ritmos brasileiros.
“Ele trouxe uma nova vida ao Sepultura.”
A sintonia entre os integrantes foi tão positiva que acabou motivando a gravação de The Cloud of Unknowing, trabalho que originalmente não fazia parte dos planos do grupo.
O futuro depois do Sepultura
Apesar do encerramento de uma das bandas mais importantes da história do metal brasileiro, Andreas garante que pretende continuar ativo.
Entre os projetos que seguirão em andamento estão o De La Tierra, o programa de rádio Pegadas de Andreas Kisser, o Kisser Clan e iniciativas ligadas ao debate sobre cuidados paliativos e direitos dos pacientes.
Além disso, ele pretende dedicar mais tempo ao violão, aos estudos musicais e às artes visuais, retomando a paixão pela pintura herdada da mãe.
“Quero descansar um pouco, curtir o momento e ver onde as possibilidades me levam.”
Um adeus sem drama
Para Andreas, não existe exatamente uma “ficha caindo”. O fim vem acontecendo gradualmente, cidade após cidade, em cada último show realizado ao redor do mundo.
“Muita gente que nunca viu o Sepultura ao vivo saiu de casa para ver a banda. Isso é muito emocionante.”
Mais do que encerrar uma trajetória, a turnê de despedida parece confirmar a dimensão que o Sepultura alcançou ao longo de sua história. Uma banda que passou por mais de 80 países, influenciou gerações e ajudou a redefinir os limites do heavy metal mundial.
E, na visão de seu guitarrista, esse legado seguirá vivo.
“A música vai continuar para sempre.”
Serviço
Sepultura – The Last Ceremony
Data: 5 de novembro de 2026 (quinta-feira)
Horário: 20h30
Local: Cine Joia
Endereço: Praça Carlos Gomes, 82, Liberdade, São Paulo
Classificação: 18 anos
Ingressos: à venda pela plataforma Shotgun
Sepultura – Celebrating Life Through Death (Último Show)
Data: 7 de novembro de 2026 (sábado)
Local: Suhai Music Hall
Endereço: Avenida das Nações Unidas, 22540, Jurubatuba, São Paulo
Abertura dos portões: 16h
Horário dos shows: 21h
Participações: Metal Allegiance, Krisiun, Sacred Reich e convidados especiais.