Nos números da música evangélica brasileira, uma agência aparece à frente de todas as outras quando o assunto é colocar artista no palco. 100 apresentações — o equivalente, na média do ano, a três shows por dia —, alcançando mais de mil cidades em todos os estados do país. Pelos números da própria operação, nenhuma outra agência do gênero comercializou tantos shows no Brasil no período. O detalhe que torna a marca ainda mais improvável: a empresa não fica em São Paulo nem no Rio de Janeiro, mas em Palmas, no Tocantins.
O desempenho tem explicação
O desempenho tem explicação, e ela diz menos sobre marketing e mais sobre um Brasil que a indústria do entretenimento historicamente ignorou.
A demanda que estava esperando
Na maior parte dos municípios brasileiros, não existe mercado de bilheteria capaz de sustentar um grande show. São cidades pequenas, distantes das capitais, onde nenhuma turnê comercial para. Mas é exatamente nesse Brasil que a música gospel tem sua base mais fiel — comunidades inteiras organizadas em torno das igrejas, com festas tradicionais no calendário e uma demanda reprimida por eventos à altura da sua fé.
Quem realiza esses encontros, na ponta, são as próprias cidades: aniversários de município, celebrações do Dia do Evangélico, Marchas para Jesus e festividades regionais que reúnem multidões e movimentam o comércio local. É nesse circuito — o dos eventos públicos e comunitários, contratados por prefeituras e publicados nos canais oficiais de transparência — que a Aguiar MultiMusic construiu sua liderança, levando grandes nomes do gospel a praças e avenidas de cidades que jamais entrariam no roteiro de uma turnê convencional.
"A gente chega à cidade levando o evangelho, gerando trabalho para muita gente e realizando o sonho de quem nunca imaginou ter um show assim por perto", diz o fundador da agência, Jadson Aguiar. A frase resume a tese do negócio: onde o mercado tradicional via ausência de público, ele enxergou uma demanda latente — e uma missão.
Do interior do Pará para todos os estados
A liderança nasceu longe dos holofotes. Jadson Aguiar é de Jacundá, interior do Pará, onde viveu até os 26 anos, criado em uma família de músicos e dentro da Assembleia de Deus, da qual é membro desde o berço. Em 2009 mudou-se para Fortaleza e, dois anos depois, um show gospel mudou o rumo da sua vida: ali decidiu que trabalharia para levar a música cristã aonde ela não chegava.
"Foi uma responsabilidade enorme ter uma potência musical na mão e fazer aquilo alcançar o Brasil inteiro", lembra.
Instalada depois em Palmas, a operação fez da geografia uma vantagem. "Estando no Tocantins, eu estava no centro do Brasil, conhecendo o Norte, o Nordeste, o Centro-Oeste. Eu tinha a visão do Brasil real", afirma. Foi desse ponto de observação que a agência mapeou o interior esquecido pelas turnês — os estados e regiões carentes de grandes eventos — e montou uma logística capaz de atendê-lo o ano inteiro, transformando o gospel de circuito sazonal em atividade contínua.
Nem tudo foi linha reta. Na pandemia, com os eventos suspensos, a operação voltou à estaca zero. "Eu quase desisti", admite. "
O tamanho da operação
Hoje o casting da agência reúne 53 nomes com contrato de exclusividade, entre cantores e palestrantes — incluindo alguns dos artistas mais ouvidos do gênero, como Isadora Pompeo, Midian Lima, Davi Sacer, Valesca Mayssa e a dupla Jefferson e Suellen. Somados, apenas esses cinco destaques fizeram mais de 500 apresentações em 2025.
No total, o grupo movimentou mais de R$ 150 milhões no ano — cifra que revela um segmento muito maior do que as estimativas correntes sugerem e coloca a empresa entre as mais relevantes da música ao vivo no país.
O momento ajuda: pesquisa do instituto Quaest, em parceria com a Globo, apontou o gospel como o segundo gênero mais ouvido do Brasil, com 16% da preferência nacional. Mas, para a agência, o dado apenas confirma o que seus mapas de estrada já mostravam havia uma década.
"Entendo que tudo isso é uma missão só. Onde eu separo é em não negociar princípios", diz Jadson, que segue servindo como líder de jovens da Assembleia de Deus no campo da capital tocantinense. O próximo passo, segundo ele, é atravessar fronteiras: levar o modelo para a Europa e os Estados Unidos. "
No mapa da música brasileira, porém, a marca já está feita: a empresa que mais vende shows gospel no país provou que o palco mais valioso do Brasil ficava justamente onde ninguém estava olhando.