Os rumores que circularam durante o fim de semana se confirmaram rapidamente. A gigante do entretenimento Live Nation firmou um acordo com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos poucos dias após o início de um julgamento antitruste que vinha sendo acompanhado de perto pela indústria musical e pelo mercado de shows. A decisão encerra parte do embate judicial e estabelece mudanças importantes na operação da empresa dentro do país.
De acordo com a própria companhia, o entendimento firmado com as autoridades americanas "resolverá todas as pendências com o Departamento de Justiça, sem qualquer admissão de culpa". O acordo também inclui uma série de ajustes estruturais na maneira como a empresa administra seus negócios relacionados a eventos ao vivo, vendas de ingressos e parcerias com casas de espetáculos nos Estados Unidos.
Entre as medidas anunciadas, a empresa informou que passará a permitir maior participação de outros promotores em suas estruturas. Segundo o comunicado, a Live Nation abrirá seus anfiteatros "a todos os promotores, permitindo que eles decidam a melhor forma de distribuir até 50% dos ingressos e limitando as taxas de serviço de bilheteria a 15%". A mudança altera a forma tradicional de distribuição de ingressos em diversos espaços operados pela companhia.
Live Nation irá se desfazer de seus 13 contratos de exclusividade
Outra mudança relevante envolve os contratos de exclusividade com casas de shows espalhadas pelo país. A empresa confirmou que irá "desfazer-se de seus 13 contratos de exclusividade com anfiteatros em todo o país", o que pode abrir espaço para novos formatos de parceria entre promotores e operadores de eventos. O objetivo é permitir maior flexibilidade na gestão de apresentações e no relacionamento comercial com locais de espetáculos.
Além disso, a Ticketmaster, empresa de venda de ingressos pertencente ao mesmo grupo, também passará por ajustes operacionais. Segundo o acordo, a plataforma irá "fornecer propostas de venda de ingressos, tanto exclusivas quanto não exclusivas, para todas as principais casas de shows… para as casas que optarem por isso, elas poderão distribuir parte de seus ingressos por meio de outras plataformas de venda de ingressos". A medida pode ampliar as opções de distribuição para espaços culturais e promotores independentes.
Um ponto considerado central nas negociações envolve as consequências financeiras para a empresa. A Live Nation não será obrigada a vender ingressos da Ticketmaster como parte do acordo e também não receberá multa direta relacionada ao processo. Ainda assim, a companhia reservou cerca de US$ 280 milhões em um "fundo de indenização", valor que deverá ser utilizado para cobrir eventuais reivindicações apresentadas por procuradores-gerais estaduais que participaram da ação judicial.
Mesmo com o acordo estabelecido, a decisão não agradou todos os envolvidos no processo. A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, afirmou que o entendimento "não aborda o monopólio que está no centro deste caso e beneficiaria a Live Nation em detrimento dos consumidores". Segundo ela, o estado continuará participando da disputa judicial em busca de medidas mais amplas contra a empresa.
Outra crítica veio da associação de casas de espetáculos independentes NIVA. A entidade declarou que o fundo de indenização de US$ 280 milhões "equivale a quatro dias de sua receita de 2025, o que significa que eles poderiam potencialmente recuperar esse valor até esta sexta-feira" e classificou o acordo como "uma falha do sistema judiciário".
A senadora Amy Klobuchar também se posicionou contra o entendimento. Em declaração à imprensa, ela afirmou considerar o acordo "fraco", principalmente porque a decisão não determina a separação estrutural entre a Live Nation e a Ticketmaster, tema que vinha sendo debatido ao longo da investigação antitruste.
"Se parece com um monopólio e age como um monopólio, então é um monopólio, e esse é o caso da Live Nation-Ticketmaster", disse ela. "Este acordo pouco contribui para reduzir custos, preservar casas de shows independentes ou proteger os fãs."
Enquanto aguarda a aprovação final do acordo e o andamento das possíveis indenizações, a Live Nation aparenta ter saído do processo sem impactos corporativos significativos. O presidente e CEO da empresa, Michael Rapino, demonstrou confiança no futuro da companhia ao comentar o resultado das negociações.
"Nunca dependemos da exclusividade para impulsionar nosso negócio de venda de ingressos; ele sempre foi o resultado de termos os melhores produtos, serviços e pessoas do setor", disse Rapino. "Estamos felizes em dar passos importantes para capacitar artistas e espaços culturais em suas decisões sobre ingressos e confiantes de que continuaremos a ter sucesso na qualidade do que oferecemos."