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FBC fala à RS sobre carreira, novo álbum e show no Lollapalooza: 'Para mim, isso é histórico'

Rapper mineiro muda de estilo e aprofunda discussões sociopolíticas em trabalho de estúdio inédito

17 mar 2026 - 11h48

No próximo domingo, 22, o rapper mineiro FBC sobe ao palco do Lollapalooza Brasil com um show que funciona, ao mesmo tempo, como celebração e manifesto. A apresentação encerra a turnê de Assaltos e Batidas (2025), mas o artista promete ampliar bastante o repertório  — construindo uma verdadeira retrospectiva de sua trajetória musical. 

FBC
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Foto: Reprodução/Youtube / Rolling Stone Brasil

"Eu vou trazer sons de toda minha carreira, desses 20 anos que eu canto rap. Os fãs vão adorar, eu vou tocar músicas que há muito tempo já não toco nos shows", adiantou em entrevista à Rolling Stone Brasil.

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No lineup de um dos maiores festivais de música do país, FBC enxerga a oportunidade de transmitir a luta que atravessa toda a sua obra: fazer com que "a nossa cultura periférica, a nossa música popular, a nossa música eletrônica de favela" rompa as barreiras socioespaciais e históricas que ainda estruturam a indústria cultural. Para ele, o Lollapalooza simboliza mais um passo dessa longa disputa.

Na conjuntura atual do Brasil e do mundo, uma pessoa que nunca abandonou a veia política, ocupar um lugar assim, poder falar, cantar, mostrar meu trabalho, desenvolver um raciocínio ali com aquele tanto de gente, pô, isso, pra mim, é histórico. Pras pessoas que trabalham comigo, pras pessoas da minha comunidade, isso é histórico.

E o fim da era Assaltos e Batidas significa, é claro, a chegada de algo novo. Em breve, FBC pretende surpreender os fãs: seu próximo disco de estúdio, que chega às plataformas digitais em abril, provará (mais uma vez) a habilidade do rapper de transitar entre gêneros como ninguém.

Da periferia de BH ao debate político nacional

Nascido Fabrício Soares Teixeira, em Belo Horizonte, Minas Gerais, FBC construiu uma identidade musical marcada por constantes transformações, desafiando gêneros e rótulos pré-estabelecidos.

Ele estreou em 2018 com o trap S.C.A, ganhou projeção nacional com BAILE (2021) — álbum que resgatou o Miami Bass e reposicionou sonoridades dos anos 80 e 90 na música brasileira —, e seguiu explorando essa estética em O Amor, O Perdão e A Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta (2023). 

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Em 2025, no entanto, o artista decidiu voltar às raízes do rap com Assaltos e Batidas, o trabalho mais ousado e político de sua carreira (até agora), e eleito o 20º melhor álbum do ano pela Rolling Stone Brasil.

Segundo FBC, o disco nasceu de um período intenso de estudo e reflexão. "Eu demorei dois anos para fazer [Assaltos e Batidas], mas ele se desenvolveu muito rápido nos meandros que eu queria que ele fosse, que era estar presente ali em frentes de luta e atingir pessoas chaves".

Mais do que números, FBC mediu o impacto do projeto pela sua capacidade de dialogar com intelectuais de referência da esquerda brasileira, como Ian Neves e Jones Manoel, e alcançar movimentos sociais de todo o país.

Segundo o rapper, essa etapa da carreira coincidiu com um processo pessoal de radicalização política. "Radical, para mim, é ir na raiz das coisas, né? Eu acredito que pra ser radical tem que ter estudo. Eu me dediquei muito mais nesses dois anos aos estudos do que dediquei a minha vida toda", conta.

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Além de voltar pro cenário do rap, que eu tinha me afastado um pouco, consegui estar nesse lugar do debate da atualidade.

Para FBC, a presença cada vez mais forte do rap, do funk e da música eletrônica periférica em espaços dominados por outros circuitos culturais é algo a se celebrar, apesar das disparidades internas que ainda existem nestes eventos. Mas ele também ressalta que o caminho para chegar lá não é nada simples — especialmente para artistas que vêm fora do eixo Rio-São Paulo.

Acredito que foram poucas pessoas faveladas, poucas pessoas que vieram de um contexto social do qual eu vim, que ocuparam lugares assim, ainda mais em música e em arte.

Novo álbum

Nas redes sociais, FBC antecipa seu próximo álbum de estúdio, provavelmente intitulado Os Porcos Vem Aí, que deve estrear no dia 17 de abril. Ele disse à RS que ainda não pode entrar em detalhes, mas a guinada estética será novamente radical: o disco será um trabalho de rock.

Quem assina a produção é BAKA, artista mineiro que colaborou em trabalhos como Rock Doido, de Gaby Amarantos, e músicas do grupo Rosa Neon. "Ele é um cara excepcional que me ensinou muito, e eu precisava de alguém que entendesse a linguagem do rock", comenta.

Como em seus projetos anteriores, FBC diz que precisava compreender a fundo o gênero para incorporá-lo à sua obra. "Eu não queria só fazer e tocar, mas entender, eu quero chegar na raiz de tudo".

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FBC afirma que trará "referências dos anos 80, 90 e começo dos anos 2000", com batidas agressivas, e, é claro, muitas discussões sobre temas sociopolíticos contemporâneos. Nas redes, ele já revelou trechos de algumas faixas do disco, como "Guilhotina Neles", "Bandido Bom É Bandido Preso" — "Sem Anistia / Se não esses covardes tentam golpe de novo", rima — e "Canudos" — referência à A Guerra de Canudos, conflito que ocorreu no sertão baiano entre 1896 e 1897. Confira:

"Criando junto"

Aos 36 anos, FBC também vem assumindo um papel importante nos bastidores da cena independente. Baseado no estúdio Xeque-Mate, em Belo Horizonte, ele atua como diretor musical e mentor de novos talentos.

"Aqui tem quatro estúdios e funciona um tipo de habitat, um lugar que a gente vem todo dia e fica flutuando, conversando, discutindo as ideias", conta.

Entre seus projetos de direção musical está o álbum Segue o Baile, de Mac Júlia, que já colaborou anteriormente com ele no hit "Se Tá Solteira". Em fevereiro de 2026, chegou às plataformas digitais o single "Para Não", com FBC e Pepito. Escute:

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https://www.youtube.com/watch?v=8kQnyQF_sFw

O conceito do disco gira em torno do "empoderamento feminino, e as discussões sobre a autonomia da mulher nos tempos de hoje". Segundo FBC, o álbum é uma continuação conceitual da estética que ele inaugurou em BAILE: "[o título] traz a ideia de que, pô, eu tô aqui, o que eu preciso é de mim, a minha felicidade, então 'segue o baile', e também faz essa brincadeira com BAILE, já que este é o segundo álbum de Miami que eu produzo". 

FBC já fez a direção musical do rapper Abbot, em seu álbum de estreia Toda Noite, e da artista Luar, que foi sua backing vocal em 2023. Atualmente, ele está trabalhando com Mabi, jovem rapper paulistana — "É o terceiro álbum de Miami que a gente desenvolve, que vai sair esse ano" — e Marcel Tofani, cantor de pop alternativo ligado ao coletivo de Djonga.

No Lollapalooza, FBC se apresenta às 19h05 de domingo, no palco Flying Fish, acompanhado por banda completa. Ao revisitar músicas de diferentes fases da sua carreira — do rap mais cru aos hits dançantes de BAILE — ele espera que cada pessoa que o escute da plateia encontre um ponto de conexão com sua discografia. "É a hora de expandir meu público e furar pelo menos uma agulha".

Rolling Stone Brasil
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