Imagens psicodélicas nos telões antecipam a entrada de Harry Styles no palco do MorumBIS. "É um prazer enorme estar de volta no Brasil", ele diz. "Se vocês quiserem cantar conosco, se quiserem dançar conosco, por favor se sintam livres para serem quem vocês sempre desejaram ser aqui, nesta noite."
Quatro anos após sua última passagem pelo país, em 2022, Styles retornou com todas as suas energias na sexta-feira, 17 de julho, para estrear a turnê Together, Together. Abandonando os macacões e conjuntos brilhantes da Love on Tour, ele estrelou o figurino característico desta turnê: uma camisa social preta com flores brancas (a gravata invertida) e calça azul. O público, naturalmente, não ficou para trás: centenas de gravatas podiam ser vistas na plateia, usadas pelos fãs nos mais diferentes estilos.
Primeiro, vale destacar o excelente ato de abertura. O duo nova-iorquino Fcukers entregou uma apresentação intensa, marcada por luzes, sintetizadores e batidas pulsantes. Embora a sonoridade eletrônica não tenha encontrado total sintonia com parte dos fãs do astro pop, a escolha faz sentido. Harry costuma escolher a dedo os artistas que irão abrir seus shows, usando a turnê como espaço para apresentar nomes que admira ao público.
E após passar três dias circulando por São Paulo como um turista comum — com visitas ao Parque Ibirapuera, ao bairro da Liberdade e a um cinema de rua — Harry finalmente chegou ao lugar onde pertence: o palco.
Em geral, ele se concentrou nas músicas do seu novo álbum, Kiss All The Time. Disco, Occasionally, que parecem feitas especialmente para o ao vivo. A abertura explosiva com "Are You Listening Yet?" tira milhares de espectadores do chão. Correndo pelos quatro cantos da enorme passarela, o cantor deixa claro que a proposta da Together, Together é transformar o estádio em um espaço de conexão.
Em seguida, Styles passeia pelos principais hits de Fine Line (2019), "Golden", "Adore You" e "Watermelon Sugar". Entre elas, "Golden" ganha um brilho especial. O astro canta sobre se permitir ser ele mesmo — e expressa tal sentimento com a mesma intensidade no palco.
Depois, uma curta passagem por Harry 's House (2022): "Music For a Sushi Restaurant" é um momento leve de descontração, antes de o show assumir um tom mais contemplativo.
À primeira vista, a sequência melancólica de "Coming Up Roses" e "Fine Line" parece interromper o ritmo da apresentação, mas Harry explica que trazer a canção-título para encerrar este primeiro ato não aconteceu por acaso.
"['Fine Line'] foi um grande lembrete de o quão bonita, difícil, inspiradora e frágil a vida pode ser", diz. "Tocamos essa música mais cedo agora porque, desde que voltei à estrada, lancei o novo álbum, e fui lembrado do espírito e da comunidade que vocês construíram, nunca me senti mais esperançoso sobre o futuro. O mundo está em um momento difícil, e estar em lugares como este é incrivelmente inspirador". Assim, ele inicia uma das canções mais belas de sua discografia, cantada em um coro sussurrado por todo o estádio.
Depois desse momento íntimo, os efeitos visuais crescem e Harry retorna para uma passagem mais contínua por Kiss All The Time, comprovando como o álbum encontra sua melhor forma diante do público. Apesar de não ter sido recebido com o mesmo sucesso comercial de álbuns anteriores, as novas faixas parecem ter sido feitas para serem vividas coletivamente.
Em "American Girls", Harry brinca com o refrão ao cantar "Brazilian Girls", arrancando uma reação querida da plateia. Após "Keep Driving", a excelente banda de apoio do cantor se transporta para o centro da extensa passarela, espalhada por boa parte da pista.
Esse foi com certeza um dos melhores momentos da noite. Dançarinas, backing vocals, orquestra e músicos se unem na sequência de "Ready, Steady, Go!", "Dance No More", "Treat People With Kindness", "Pop" e "Season 2 Weight Loss", transformando o estádio em uma verdadeira festa.
Como o próprio cantor comentou em diversas entrevistas, Kiss All The Time nasceu da vontade de traduzir a sensação de se perder em uma pista de dança, de encontrar liberdade na música e dividir esse sentimento com outras pessoas. Ao vivo, Styles cumpre essa promessa com êxito.
Depois, ele desacelera novamente com um mashup de "Carla's Song" e "Satellite", de Harry's House — embora a segunda acabe ficando um pouco ofuscada pela primeira. Harry compartilha a história que inspirou "Carla's Song": "Conheci novos amigos e uma cadeia de coisas positivas aconteceu [na minha vida] porque comecei a dizer sim", conta. "Foi um lembrete de como é um privilégio fazer parte da vida das pessoas através da música."
"Aperture" ganha um significado especial ao vivo, com o coro de "we belong together" mostrando a união através da música a qual Harry se refere. A música surpresa da primeira noite, "Matilda", também carrega um simbolismo especial e emociona os fãs. Então, a orquestra presenteou o público com trechos de "Night Changes" e "History", reacendendo a nostalgia de quem acompanha Harry desde os tempos da boy band One Direction.
Outro momento muito especial foi a penúltima música do repertório — e a única representante do álbum de estreia de Harry, "Sign Of The Times". (Vale ressaltar a triste ausência de "Kiwi" do setlist. Não pensávamos que essa música perfeita para o ao vivo iria nos deixar tão cedo. Para consolar — ou provocar? — o público, Harry cantou as duas primeiras estrofes durante "Watermelon Sugar").
"SoTT" dispensa explicações. A balada crescente no piano chega a uma explosão de emoções no final, e continua sendo um dos momentos mais arrebatadores da discografia de Styles. O estádio inteiro canta em uníssono. Mas o que não esperávamos era um show de fogos de artifício, sintetizando a grandiosidade do espetáculo que Harry construiu. Para finalizar com alto astral, ele apresentou o single "As it Was" enquanto dava uma última volta pela passarela.
Fãs de longa data de Styles podem sentir falta de uma distribuição mais equilibrada entre os álbuns na setlist. Mas este é um espetáculo muito mais sólido do que o da Love on Tour, desde os efeitos visuais até a estrutura elaborada, que garante que todo o público da pista veja o cantor a poucos metros de distância em algum momento. A capacidade de correr e ainda cantar durante duas horas é impressionante (as maratonas que fez durante seu período longe dos palcos realmente deram resultado).
No fim, a mensagem na abertura faz ainda mais sentido. Por duas horas, o MorumBIS se tornou um lugar onde milhares de pessoas puderam cantar, dançar, e simplesmente ser quem sempre desejaram ser. É um retorno triunfal (e incrivelmente divertido) para Harry Styles.