De um canal de humor extremamente popular no Youtube aos palcos com um projeto autoral de muito peso: LVCAS, também conhecido como Lucas Inutilismo, tem uma história com a música desde muito cedo. Antes mesmo de ganhar fama com seus vídeos cômicos na internet, Lucas Vinicius já alimentava sua paixão por instrumentos. Após decidir expor seu talento de forma mais séria na internet — com covers, especialmente as retrospectivas musicais que criou durante alguns anos, e visuais muito bem trabalhados — e ganhar ainda mais notoriedade por isso, Lucas mergulhou de cabeça em um projeto que o obrigaria a se reinventar.
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Migrando para o autoral
A decisão de migrar para a área de produção e criação musical, porém, não foi repentina. LVCAS afirma que o Youtube significou para ele o espaço responsável por expor sua personalidade ao público. "Não teve um momento exato, tipo: 'agora virei músico sério'. Eu sou músico desde a infância, desde quando ganhei minha primeira guitarra do meu pai, que também era instrumentista. O Youtube foi onde eu me tornei conhecido pelo grande público e acabou sendo minha principal vitrine por muito tempo", compartilha.
"A virada veio quando eu comecei a sentir que estava me repetindo ali e que a música era o único lugar onde eu ainda me sentia desconfortável, no melhor sentido, de evolução. Priorizar o projeto autoral foi quase uma decisão de sobrevivência criativa. Eu precisava voltar a me desafiar, errar, testar coisas novas sem a obrigação de performar para o algoritmo."
Ainda, para LVCAS, um show realizado no Espaço UNIMED, em São Paulo, foi um grande divisor de águas na decisão de migrar de fato para criações autorais. O show reuniu 8 mil pessoas e, para o artista, ficou claro que havia demanda real ao vivo. Até então, o cantor havia rodado o país com espetáculos que traziam covers de funk e outras músicas, porém nada autoral.
Barreiras no rock: lógica de excesso
Questionado sobre sua experiência buscando encontrar seu espaço na cena, LVCAS aponta para uma lógica que contrasta o excesso de pessoas boas com a demanda que, nem sempre, é capaz de acompanhar. "Espaço existe, mas ele não é neutro. A gente vive numa lógica de excesso com muita oferta, muita gente boa, e nem sempre a demanda acompanha. A cena ainda funciona muito por validação interna, por indicação, por quem já está dentro. Existe, sim, uma lógica de "clube", só que hoje ela é mais difusa", afirma.
LVCAS afirma que ser youtuber foi uma barreira no começo de seu trabalho como, de fato, artista. "Eu já senti essa barreira principalmente no começo, quando o rótulo de youtuber vinha antes de qualquer escuta real do meu trabalho. Mas também entendi rápido que ninguém vai te entregar espaço, você constrói. Então, em vez de tentar me encaixar, eu fui criando meu próprio caminho, meu público e minha narrativa dentro do rock."
"Ao mesmo tempo, o rock e o metal se fragmentaram em vários subgêneros e isso muda completamente o jogo. O nu metal, por exemplo, que é uma referência direta no meu som, é uma dessas ramificações que voltaram a ganhar força. Quando surgem novas demandas de sonoridade, seja por estética, linguagem ou comportamento de público, isso abre espaço para quem consegue atender esse tipo de expectativa. Não é só sobre existir espaço, é sobre existir demanda específica e músicos que saibam dialogar com ela."
Percepção do público: um artista que já foi youtuber
LVCAS afirma que pode ser perigoso se esforçar para provar algo para alguém, e a percepção sobre o assunto se estende quando a profissão do artista é posta em questão: LVCAS ou Lucas Inutilismo? Músico ou youtuber? Para ele, vale mais a pena dirigir seus esforços em prol de criar algo que satisfaça a si mesmo, sem buscar validação. "Eu acho perigoso viver tentando provar alguma coisa, porque você começa a criar em função da validação dos outros, e não da sua inquietação artística. Em algum momento eu entendi que quem ainda me vê só como youtuber não está errado, afinal, essa foi minha porta de entrada. Mas parar aí já é uma escolha da pessoa."
"Eu prefiro gastar energia fazendo música do que tentando corrigir percepção. A prova, se existir, está no som, não no discurso. Hoje eu estou na minha terceira turnê nacional, com plateias lotadas, e divulgando meu segundo disco autoral, 'Abatido Mas Não Derrotado'. Isso, por si só, já mostra que existe demanda e uma carreira sendo construída de forma consistente."
Festivais brasileiros: repetição de nomes ou pouca demanda para o que é novo?
LVCAS acredita que os festivais de música no Brasil "tendem a jogar no seguro", pois, segundo ele, isso impacta diretamente a renovação. "Existe uma repetição de nomes porque exista uma lógica de mercado que evita risco", afirma. "O público ainda consome novidade de forma muito superficial. Muita gente diz que quer coisa nova, mas não sustenta isso ao vivo, não compra ingresso, não acompanha carreira. Aí vira um ciclo. O produtor não arrisca porque o público não garante, e o público não descobre coisa nova porque não tem espaço. Em algum momento isso precisa ser quebrado."
"Eu acredito que o surgimento de subgêneros ajuda a renovar a cena e é questão de tempo até esses nomes chegarem aos grandes festivais, como já aconteceu em outros gêneros no Brasil. Mas isso depende de investimento, consistência e também de um público disposto a acompanhar esse processo."
Carol Biazin e Lady Gaga: nomes que LVCAS gostaria de colaborar
LVCAS garante que gosta da ideia de colaborações como contrastes entre personalidades pois, de acordo com ele, "quando você sai do seu território, a música ganha outra dimensão". Nessa lógica, o artista afirma que ter Carol Biazin em alguma de suas músicas seria um sonho realizado, principalmente pela "sensibilidade melódica absurda" e a maneira direta e emocional que compõe suas canções. "Eu acho que isso criaria um contraste interessante com o peso que eu faço", diz.
"E, olhando mais longe, eu tenho uma admiração gigante pela Lady Gaga, pela coragem estética, pela construção artística ao longo dos anos, por nunca se acomodar. Esse tipo de artista que se reinventa sem perder identidade me inspira muito. Pra mim, são nesses encontros improváveis que a coisa realmente acontece."
O post "Eu precisava voltar a me desafiar": LVCAS comenta sobre carreira na música e aponta desejo de colaborar com Carol Biazin (ENTREVISTA) apareceu primeiro em POPline.