'Daughter From Hell' é o melhor álbum de Gracie Abrams até agora

O terceiro disco da estrela pop mergulha mais profundamente em seu mundo interior, com um som mais grandioso e envolvente do que nunca

14 jul 2026 - 17h13

"Estou vivendo com uma faca na lateral / Vou dar uma voltinha com ela", canta Gracie Abrams na terceira música de seu novo álbum. Esta não é a primeira vez que a palavra "faca" aparece em Daughter from Hell, nem será a última. Ela menciona facas quatro vezes ao longo do álbum, sem contar a impressionante balada ao piano "The Knife".

Gracie Abrams
Gracie Abrams
Foto: Joseph Okpako/WireImage / Rolling Stone Brasil

Para Abrams, essas lâminas são uma ferramenta para descrever sua dor — a maneira como elas giram, cortam até o osso e até mesmo permanecem por um tempo. E em Daughter From Hell, você quase pensaria que ela gosta disso. "Eles estão me desafiando a tirá-la", ela canta. "Provavelmente vou guardá-la para o resto da vida."

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As expectativas são altas para Daughter From Hell, que chega às plataformas digitais na próxima sexta, 17, pela Interscope. E isso não se deve apenas ao fato de ser o terceiro álbum de Abrams, um momento notoriamente desafiador e decisivo na carreira de qualquer artista.

Abrams, filha do cineasta JJ Abrams e da produtora de Hollywood Katie McGrath, lançou seu álbum de estreia, Good Riddance, em 2023 — o mesmo ano em que abriu os shows da The Eras Tour de Taylor Swift e recebeu uma indicação ao Grammy de Melhor Artista Revelação. Um ano depois, lançou seu segundo álbum, The Secret of Us, e a edição deluxe incluiu seu primeiro hit no Top 10: a contagiante "That's So True". Abrams já foi rotulada como "nepo baby", um termo que ela abordou com elegância e autoconsciência. Ela também já foi alvo de diversos memes por ser uma garota eternamente triste que, segundo a internet, não tem o direito de ser assim — especialmente quando se tem um abdômen sarado e se namora um ator famoso (Paul Mescal).

Mas, como Abrams admite no emocionante single "Look at My Life", ela conseguiu o que queria, e isso não lhe parece certo. Na verdade, pode ser uma fase ruim. Em Daughter From Hell, há fantasmas, amigos imaginários, motores falhando e possíveis colisões de trem — mas é o seu melhor álbum até agora, com 16 faixas que brilham com angústia, beleza e toda a bagagem que vem com a vida adulta.

Abrams pode ser tão antiga quanto a Família Soprano (ela nasceu em 1999), mas compõe com a sabedoria adquirida com a experiência que compositores passam a carreira inteira tentando alcançar. "Não há ninguém no topo em quem confiar", ela canta na delicada "Humming", composta em parceria com seu colaborador de longa data, Aaron Dessner, e Justin Vernon, do Bon Iver. "Que jeito de se sentir aos vinte e poucos anos."

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Os dois primeiros álbuns de Abrams eram deliciosamente introspectivos, com sua voz sussurrada e intimista entregando seus maiores segredos diretamente aos seus fones de ouvido, sobre uma instrumentação suave. Às vezes, porém, suas músicas corriam o risco de soar muito parecidas, se misturando tanto sonora quanto liricamente. Ela elimina essa noção em Daughter From Hell, que coproduziu com Dessner, mergulhando fundo e experimentando como nunca antes.

A faixa-título é um rock cru e devastador, diferente de tudo em seu catálogo, e facilmente uma das melhores músicas de sua carreira. Ela agradece à mãe e, ao mesmo tempo, pede desculpas por ter sido uma adolescente problemática, cantando sobre uma guitarra distorcida: "Eu era uma pílula, você me engoliu / Dizem que eu tenho a sua boca."

Abrams também deu um salto enorme com seus vocais aqui. Ouça como ela alcança oitavas suaves em "Good Reason", ou como ela incorpora totalmente Adele no refrão de "Men Like You". A irreverente "Mini Bar", composta em parceria com sua melhor amiga, a cantora pop Audrey Hobert, apresenta o mesmo estilo coloquial de "That's So True". Só que aqui não há caretas — em vez disso, temos versos hilariamente identificáveis sobre sair à noite ("Estou no mercadinho da esquina / Tenho 50 dólares e um neurônio") e ansiedade social ("Estou na festa / Sou só eu, ou vocês também se sentem loucos?"). É esse tipo de humor charmoso e vulnerabilidade que lhe rendeu tantos fãs devotos, que comparecem aos seus shows usando laços e saias brancas, cantando a plenos pulmões todas as músicas.

"Imaginary Friend", a faixa seguinte, contrasta fortemente com a atmosfera festiva de "Mini Bar" — uma espécie de calmaria, uma joia acústica minimalista para a tranquilidade da manhã seguinte. Abrams a compôs em parceria com outro colaborador de Daughter From Hell: Paul Mescal, o famoso ator em questão. "Não seja fruto da minha imaginação", insiste Abrams. "Mas você é, e eu odeio isso pra caralho." Pode ser difícil compor boa música quando se está em um relacionamento feliz, mas Abrams parece não ter esse problema — ela está mais criativa do que nunca. "Você diz a verdade sobre tudo", ela canta em "Afflictions", que apresenta um arranjo sutil de cordas. "De todas as suas aflições / Essa é a minha favorita."

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Logo na abertura de Daughter From Hell, na faixa "Hit the Wall", Abrams tenta entender por que "vive num ciclo de crises". Ela insere Joni Mitchell, sua bússola, num verso: "'A Case of You' tocando no corredor/Alucinações que eu minimizo". Isso define o tom para o resto de Daughter From Hell, porque, assim como a lenda canadense, Abrams sabe que sua melhor arma é compor — sem precisar de facas.

Rolling Stone Brasil
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