"Nunca negamos nossas aspirações e objetivos, pois não somos uma dessas bandas meio indie que diz: 'não nos importamos em ficar grandes' —sempre quisemos ser uma atração grande e global." O discurso do baterista David Grayson sobre o grupo que cofundou, Culture Wars, é contundente. E é notado na música feita por ele ao lado de Alex Dugan (voz), Dillon Randolph (baixo), Caleb Contreras (guitarra) e Josh Stirm (guitarra).
Embora tenha sido fundada em 2017, esta banda de rock alternativo criada em Austin, no estado americano do Texas, levou um tempo até se encontrar. Seja em sonoridade — seu EP de estreia, Teche (2021), traz influências eletrônicas pouquíssimo presentes hoje em dia — ou em formação, pois os guitarristas só entraram depois. "Alguns grupos seguem com os mesmos integrantes desde o início, como Coldplay e U2, mas a maioria tem muitos membros entrando e saindo até que as coisas se consolidem", afirma Grayson, dono de fala ponderada e meticulosa, em entrevista concedida à Rolling Stone Brasil na Cidade do México, junto de seus colegas.
A identidade foi encontrada, enfim, em Don't Speak, álbum lançado em abril último após cinco anos incessantes de trabalho — e retrabalho — criativo. A maior parte das 12 faixas presentes no disco saiu antes como single e ajudou a consolidar uma forte presença online. Cinco de seus videoclipes bateram 1 milhão de visualizações no YouTube, enquanto que, no Spotify, o quinteto acumula mais de 1,1 milhão de ouvintes mensais.
https://www.youtube.com/watch?v=rFj2zExDYck
O som é um rock alternativo, meio indie, de referências diversas, mas quase sempre mirando no que há de mais grudento e acessível. Há abertura para construções melódicas — e até algumas instrumentações — pop, vocalizações e grooves que bebem tanto do rock clássico quanto do R&B contemporâneo, refrães enormes, flertes pontuais com o emo e linhas de guitarras que parecem sair de bons discos do Strokes e Kings of Leon.
Reflexo de um quinteto com, interseções à parte, influências muito diferentes. David aprecia o rock alternativo dos anos 1990 e 2000 como Third Eye Blind e o citado Kings of Leon, enquanto Alex, dono de vocais agudos, admira nomes mais clássicos, a exemplo de U2 e Oasis. Josh e Dillon curtem mais indie rock, a ponto de o baixista se definir como o "sad boy do emo" e destacar sua predileção por Beach Fossils e Alex G. Caleb, talvez o elemento mais distinto da formação — e por isso a "cereja do bolo" em termos sonoros —, gosta de pop e R&B. É ele, também, o produtor e engenheiro de som de Don't Speak.
"Ter um produtor dentro da banda mantém a coesão", explica o guitarrista, que demorou a se pronunciar durante a entrevista, mas ofereceu falas interessantes quando resolveu falar. "Como produtor, normalmente, você não passa tanto tempo com o artista. Já estando no grupo, convivo mais com eles do que com qualquer outra pessoa. Eu já estava por perto antes de trabalhar com eles. Entendi o que é Culture Wars passando tempo com eles e tentando entender qual é o ponto forte de cada um."
A história do Culture Wars
Curiosamente, a dupla de guitarristas foi a última a entrar para a formação. Mas, antes, "comecemos pelo começo". Culture Wars surgiu das cinzas de outro projeto, The Vanity, mais orientada ao rock clássico. Alex Dugon, natural de Houston, e David Grayson, oriundo de Dallas, faziam parte deste grupo, formado em Austin após ambos terem se mudado para lá com o objetivo de trabalhar com música. "Um amigo em comum nos colocou em contato e o Alex me submeteu a um teste para a banda dele", afirma Grayson, aos risos. "Mas eu passei!"
Quando The Vanity deu lugar a Culture Wars, a sonoridade era orientada ao electrorock. Dillon Randolph, natural de Austin, se juntou ao grupo e já participou do EP Teche (2021), citado por todos como um "experimento". "O EP foi muito focado na produção e tínhamos essas faixas muito produzidas antes do Alex cantar nelas", reflete Randolph, baixista talentoso e fã de artistas brasileiros como Tom Jobim, Caetano Veloso, Os Mutantes e mais. "Vimos que este não era o caminho, então simplificamos nossa abordagem criativa: agora, a música tem que funcionar só com voz e violão."
Caleb Contreras e Josh Stirm se envolveram com Teche mesmo ainda não integrando a banda. O primeiro, também natural de Austin, foi o produtor do EP. O segundo, vindo do Oregon, fazia estágio como assistente de gravação no estúdio em que o material foi gravado, na cidade de El Paso. "Eu estava ali passando cabos, mas rolou uma energia entre nós", diz Stirm, talvez o mais descontraído dos cinco, antes de ensinar uma receita, servida no local, que envolvia misturar vodca com picles.
Contreras se juntou naturalmente à formação, enquanto Stirm foi chamado de início como guitarrista de turnês. Com a formação estável, o antes-quarteto / agora-quinteto passou a trabalhar em músicas para suceder o EP "experimental". O processo durou aproximadamente cinco anos e foi iniciado ainda durante a pandemia, enquanto Alex havia fixado residência temporariamente na Austrália. Todos concordavam que a sonoridade precisava se aproximar mais do rock.
"Caleb dizia que precisávamos de músicas melhores para o álbum, focar nas canções", reconhece Dugan, vocalista de personalidade magnética a ponto de logo dominar a dinâmica da entrevista e, curiosamente, envolvido também com as negociações de shows. "Então, decidimos compor apenas com voz e violão — se não ficava bom só com esses dois elementos, não avançávamos. Quando estava pronto, a banda poderia simplesmente ser a banda. Isso liberou todo mundo."
https://www.youtube.com/watch?v=WHh8NFDeirg
Parte do material que se ouve agora em Don't Speak nasceu após o grupo decidir descartar quase um disco inteiro, findada uma turnê abrindo para Maroon 5 e Lany na Ásia. "Bittersweet", "(Tokyo)", "cortisol, it's not always what's in your head", "In the Morning" e a faixa-título estão entre as canções criadas após outras ideias terem ido para o lixo. De sessões anteriores, eles preservaram composições como "Miley" (a primeira do álbum a nascer) e "Wasting My Time" — curiosamente, ambas ainda com alguns elementos eletrônicos.
O "hit" — e a reação de diferentes públicos
No meio do processo, nasceu "Typical Ways", canção que hoje é a mais popular do Culture Wars tanto no streaming quanto em shows. Com parte musical toda desenvolvida por Dillon Randolph, a faixa sempre despertava as reações mais enérgicas dos fãs de Maroon 5, Lany, Banners, The Cult e ZZ Top, grupos — tão diferentes — para os quais eles abriram ao longo dos anos.
Curiosamente, os demais integrantes estavam inseguros em relação a ela, pois soava como um rock "pesado" e "convencional" demais e, talvez, pouco representativo do som geral do Culture Wars. "Só vimos que ela funcionava quando começamos a tocá-la ao vivo, quando notamos que não havia risco algum em relação a ela", admite Caleb Contreras. "Ela tem um gancho cativante e às vezes as melhores canções são as mais simples", complementa David Grayson.
Conforme abriam para gigantes como os já citados Maroon 5 e Lany, bem como Keane e Wallows — especificamente no México, onde construíram sua maior base de fãs até aqui —, o quinteto dava seus primeiros passos rumo ao objetivo de se tornar uma atração global. A relação com o país norte-americano logo ao sul dos Estados Unidos foi construída aos poucos, mas rendeu frutos de modo relativamente rápido.
"Viemos aqui pela primeira vez e abrimos para o Keane em Monterrey [em fevereiro de 2025], daí voltamos e tocamos com o Wallows [em maio de 2025], e foi esta segunda turnê que abriu nossos olhos", explica Grayson. "Como banda de abertura, você não espera muito do público porque eles não sabem quem somos; precisa conquistá-los. Mas o público estava cantando nossas músicas. Ficamos impressionados."
O retorno ao México se deu no fim de maio deste ano, para duas apresentações, na Cidade do México e em Monterrey. O primeiro, realizado para cerca de mil pessoas no Foro Puebla, foi o maior show como atração principal de toda a história da banda — saiba aqui como foi. O segundo, ocorrido diante de 600 pessoas no Foro Corona, teve ingressos esgotados dias antes de ocorrer. A capital mexicana, diga-se, é a cidade que mais ouve Culture Wars no Spotify.
https://www.youtube.com/watch?v=ZIl2n3Bslzw
E quem está em quarto lugar? São Paulo. Também aos poucos, o grupo tem construído uma base de fãs no Brasil, ainda que nunca tenha visitado o país para shows. Isso deve mudar entre este ano e o próximo. "Já escolhemos os locais e estamos conversando; é questão de tempo, pois queremos garantir que iremos vender todos os ingressos. Somos intencionais em tudo", antecipa Alex Dugan.
Ser uma banda de rock — e tentar ser grande — em 2026
Como citado, Culture Wars é "intencional em tudo", inclusive no objetivo em se tornar uma banda global — o que requer trabalho incessante e turnês constantes por diferentes pedaços do planeta. O quinteto rodou por América do Norte, Europa, Reino Unido e Ásia em pouco tempo, retornando a países e regiões até três vezes no mesmo ano. "Estamos construindo nossa carreira de um jeito diferente, nos permitindo estar sempre em movimento, em todos os lugares ao mesmo tempo", aponta Alex Dugan.
Em busca de seguir este objetivo global, contrariaram orientações de vários "engravatados" do meio musical, que desejavam uma concentração de esforços nos Estados Unidos, principal mercado mundial. "Foi a melhor decisão que já tomamos", afirma Dillon Randolph. Seus colegas garantem que a ambição não afeta em nada a parte artística. "Criatividade envolve fazer o que queremos ouvir — e se mais alguém gostar, ótimo. A ambição é de nós cinco: temos algo em mente que nunca nos satisfaz e nos faz procurar o próximo passo. Levamos a ambição para as turnês, para o marketing, e não aceitamos um 'não' como resposta", explica Alex.
Embora tentem manter o máximo de envolvimento possível com suas atividades, o Culture Wars conta com apoios importantes nessa trajetória. Don't Speak foi lançado pela distribuidora AWAL, adquirida em 2021 pela Sony Music. O grupo faz parte da cartela de clientes da Greatness Gathers, empresa de desenvolvimento de carreira comandada por Ben Facey, americano radicado na Austrália e por anos envolvido com o marketing de gravadoras como Universal, Republic e Warner. Sua agência de agendamento de shows é a Primary Talent, que também trabalha com The Cure, Alt-J, o já citado Kings of Leon, entre vários outros.
Não é o tipo de suporte que tantos outros grupos jovens de rock têm à disposição. "É mais fácil para a indústria apoiar um artista solo porque eles podem contratar uma equipe de compositores para criar tudo", reflete David Grayson. "No nosso caso, criamos tudo sozinhos. E vemos que as pessoas estão ansiando por uma banda de rock. É como se gerações mais jovens estivessem vendo isso pela primeira vez. Nada novo, mas agora tem frescor. Diferentemente de antes, hoje você tem que se desenvolver sozinho e a indústria não investe em você."
https://www.youtube.com/watch?v=or5vX0pji1s
O próprio formato de "banda" tem se tornado um pouco mais raro nos dias atuais, pois, conforme apontado por Dillon Randolph, a tecnologia musical de hoje "demanda muito mais tempo e esforço para trabalhar com outras pessoas". "Qualquer pessoa pode fazer música rock no laptop sozinha, e não precisa brigar com outras cinco pessoas sobre qual parte da guitarra colocar. E nós brigamos o tempo todo: o nome Culture Wars é sobre nós na banda termos atritos e discordarmos. A maioria das pessoas não têm estofo para isso. Mas estamos melhorando justamente porque estamos discordando", pontua.
No fim das contas, nem tudo é sobre música. Mas também é. "Você não pode tentar ser uma banda enorme e não se sentir confiante com a música que você está fazendo", arremata Josh Stirm.
Bônus: a melhor música do Culture Wars para cada integrante
Perguntamos a cada integrante do Culture Wars sua música favorita da própria banda. Eis as respostas:
— Alex Dugan escolhe "(Tokyo)": "É uma reação emocional, pois Tóquio representa a saudade que sinto da minha esposa e, agora, do meu filho, enquanto estou na estrada. Fizemos um show enorme em Tóquio, com tudo que eu queria na vida, mas tudo o que eu conseguia pensar era em sentir falta dela".
— David Grayson escolhe "cortisol, it's not always what's in your head": "Critiquei bastante essa música quando a criávamos, mas ficou muito boa. Agora, acho a versão ao vivo dela ainda melhor que a do álbum — gostaria até de poder voltar e gravá-la de novo".
— Dillon Randolph escolhe "Bittersweet": "Amo a energia dela. Sinto que ela estaria na trilha do videogame FIFA. Sinto que muitos de nós tentamos criar uma música assim por muito tempo. E também a linha de baixo é animal".
— Caleb Contreras escolhe "(Tokyo)": "Para além do que Alex disse, essa música tem uma vibe muito boa. Ela vai evoluindo. É perfeita para colocar para tocar e sair dirigindo".
— Josh Stirm escolhe "Don't Speak": "É uma música ainda mais no estilo de uma banda de rock. Nela, cada um faz o seu melhor. A personalidade de cada um se exemplifica ali. E é muito divertida ao vivo".
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*A reportagem viajou para a Cidade do México a convite da agência de marketing musical responsável pela banda.
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