De modo geral, quando meus pais vão a um protesto, eu não me preocupo com eles. Nos últimos anos, eles participaram de várias das grandes manifestações do No Kings em Fresno, na Califórnia. Eles também me levaram ao meu primeiro protesto lá, em 2003, para me manifestar contra a Guerra do Iraque. Lembro de gritar "No Blood for Oil" ("Não ao sangue por petróleo") e de receber buzinadas de caras reacionários em caminhonetes com suspensão elevada. A polícia, mesmo naquela época, parecia mais entediada do que qualquer outra coisa. Na maioria das cidades americanas de médio porte, é assim que acontecem a maioria dos protestos: eles são autorizados, têm boa participação e são celebratórios; espaços confortáveis para que liberais tradicionais expressem suas frustrações com o governo. As pessoas escrevem cartas para seus congressistas, montam centrais telefônicas, votam nas primárias, fazem doações a organizações sem fins lucrativos e talvez caminhem pelas ruas algumas vezes por ano carregando um cartaz de papelão feito em casa, tudo para sentir que estão participando do processo político.
Existem outros tipos de protesto, que muitas vezes podem ser espontâneos, explosivos e crus. São aqueles que você vê no noticiário. Há os que tomam conta das rodovias e paralisam cidades. Há também aqueles em que pessoas se machucam, em que a Primeira Emenda se choca contra uma barreira de escudos de plástico, cassetetes de aço e gás lacrimogêneo, em que prédios são incendiados e carros, destruídos. As pessoas que acabam nesses protestos mais caóticos, muitas vezes, pertencem a grupos demográficos diferentes dos primeiros: são mais jovens, mais revoltadas, mais dispostas a colocar o próprio corpo em risco, a sentir que estão lutando por alguma coisa em vez de apenas fazendo suas vozes serem ouvidas.
A verdade é que, nos Estados Unidos, há espaço para muitos tipos de protesto. Precisamos de espaços nos quais grandes parcelas da nossa sociedade possam sentir que estão contribuindo para um movimento no qual são vistas e ouvidas. E, em alguns casos, também precisamos dos outros tipos: a semana de trabalho de cinco dias, os direitos civis e os direitos LGBT foram movimentos conquistados com muita luta, que combinaram protestos pacíficos, desobediência civil e outras formas mais diretas de ação. Discordâncias ordeiras e silenciosas, muitas vezes, não alteram o status quo.
Mas é preciso entender uma coisa: nos Estados Unidos de Donald Trump, todos os tipos de protesto são considerados inaceitáveis. E, se ele conseguir o que quer, todos os envolvidos em qualquer um deles poderão enfrentar o mesmo destino. Trump está atualmente em guerra contra a esquerda. Antifa, comunistas, agitadores radicais de esquerda — chame-os como quiser, ele está atrás deles. Mas também está fazendo planos para ir atrás do centro: atacando organizações sem fins lucrativos, processando a imprensa e fazendo todo o possível para criminalizar o tipo de resistência pacífica e participação política que é um dos pilares da nossa democracia.
Já vimos como isso começa. No início desta semana, escrevi sobre Autumn Hill, uma ré no caso do tiroteio de Prairieland envolvendo o ICE, que foi condenada por fornecer apoio a terroristas e sentenciada a 50 anos de prisão simplesmente por participar de um protesto no qual um policial foi baleado. (Outros réus no caso foram condenados a décadas de prisão por crimes indiretos, como transportar uma caixa de zines e outros documentos que o FBI considerou provas.) Hill era um alvo fácil: é uma mulher trans, uma nerd excêntrica que fazia parte de uma cena politicamente peculiar de esquerdistas e anarquistas, os hippies do amor livre da nossa geração. Ela trabalhava fazendo bicos como funcionária responsável pelo manuseio de encomendas na UPS. Tinha pouco capital político ou econômico para consolidar seu lugar na sociedade. E o protesto ao qual ela foi, no fim das contas, não foi pacífico.
Há outros exemplos também. Veja o caso de Fergie Chambers, herdeiro de um conglomerado de mídia e ativista de longa data que, no mínimo, é uma figura controversa. Atualmente, ele aguarda extradição para os Estados Unidos depois de ser preso na Espanha sob acusações de lavagem de dinheiro relacionadas a doações que fez para instituições de caridade em Gaza. Chambers, é claro, tem dinheiro, mas também levou uma vida caótica, hipócrita e fragmentada à margem da sociedade. Assim como Autumn e seus corréus, ele é um alvo fácil.
O governo Trump está caçando esses ativistas de propósito. É assim que funciona a repressão política. O governo escolhe os mais vulneráveis, os mais extremistas, os desajustados e excêntricos que pode marginalizar por meio de narrativas enviesadas. Pega indivíduos que podem ou não ser culpados de crimes menores e os joga na prisão pelo resto da vida. O objetivo, sempre, é criar um precedente. Se você pode pegar 50 anos de prisão por participar de um protesto que o governo classificou como um "motim", ou se alguém que você conhece cometer um crime mais grave, então já existe uma justificativa pronta para dar a qualquer réu a sentença que bem entenderem. O governo está descobrindo o que funciona. E já podemos vê-lo se expandindo.
Na quinta-feira, o New York Times publicou uma reportagem chocante detalhando os esforços do governo Trump para investigar, infiltrar e desmantelar tanto grandes grupos políticos, como sindicatos, quanto organizações de ajuda mútua em nível comunitário durante os protestos contra o ICE em Minnesota no início deste ano. A reportagem do Times mostrou que o Departamento de Segurança Interna de Trump usou intimações administrativas para vasculhar três anos de dados financeiros da organização sem fins lucrativos Sunrise Movement e de um sindicato, o Communication Workers of America, além de obter listas de transferências bancárias do mesmo período referentes ao Service Employees International Union, alegando que tais ações faziam parte de uma investigação sobre "arrecadação de fundos para terrorismo doméstico". O governo sustentou que uma grande conspiração envolvendo ONGs, organizações sem fins lucrativos e grupos políticos havia participado dos esforços para impedir a atuação de agentes federais de imigração durante a Operação Metro Surge, realizada neste inverno em Minneapolis.
O SEIU está longe de ser uma organização política de "extrema esquerda". O Sunrise Movement tem fama por suas ações irreverentes e disruptivas nas redes sociais e por algumas iniciativas legítimas de organização política, mas está longe de ser uma gangue de antifascistas do bloco negro. Os indivíduos que foram efetivamente presos em Minneapolis — 15 pessoas que o governo afirma estarem no centro dessa grande rede — eram ativistas de rua. À primeira vista, alguns deles guardavam semelhanças com os réus de Prairieland — alguns, sem dúvida, estavam envolvidos em círculos mais dedicados à organização antifascista e de esquerda. Mas, ao contrário de Prairieland, os crimes de que os réus de Minneapolis são acusados estão longe de constituir terrorismo: eles supostamente bloquearam algumas ruas para impedir a entrada de agentes do ICE e usaram escudos rudimentares durante confrontos físicos com a polícia. A acusação mais grave feita contra eles foi de "agressão a um agente federal", algo pelo qual manifestantes já foram acusados no passado simplesmente por chegarem perto demais de um policial.
É tentador para alguém que se considera politicamente moderado olhar para esses casos e pensar que a repressão em curso nunca vai atingi-lo. Pode até ter participado de um protesto, claro, mas nunca usou um escudo. Nunca tocou em um policial, ergueu uma barricada ou acendeu um rojão. Mas isso é não compreender o que o governo Trump está fazendo.
Nos próximos meses, ou quando surgir o próximo ponto de tensão na política americana, veremos acusações ainda mais vagas contra ativistas que ousarem sair às ruas. Veremos mais organizações sem fins lucrativos sendo submetidas a auditorias ou investigações. Na Geórgia, há alguns anos, promotores estaduais acusaram integrantes de um fundo comunitário para pagamento de fianças — criado para fornecer dinheiro a manifestantes presos para que pudessem sair sob fiança — de associação criminosa, numa tentativa de destruir as redes legais e legítimas que apoiam pessoas no exercício de seus direitos garantidos pela Primeira Emenda.
A mensagem que o governo quer transmitir é que a resistência não é apenas inútil, mas perigosa. E essas acusações não serão aplicadas apenas à extrema esquerda. Para os moderados, as autorizações para protestos deixarão de chegar. Os cartazes de papelão serão guardados. O governo Trump vem construindo o argumento de que qualquer nível de dissidência pode ser interpretado como perigoso e tem usado o precedente estabelecido em um caso para perseguir ainda mais os próximos ativistas que ultrapassarem a linha.
Não precisamos concordar com todos os objetivos de um manifestante, nem com todos os seus métodos, para reconhecer que as sentenças desproporcionais que eles podem enfrentar fazem parte de uma máquina deliberada que poderá nos atingir em seguida. No fim das contas, se o governo Trump conseguir o que quer, toda a esquerda política será forçada à clandestinidade ou eliminada. Se o centro político americano não levantar a voz e reagir agora, talvez não tenha outra chance.