Chester Bennington foi a voz da dor e raiva para uma geração

Saudoso cantor do Linkin Park, que completaria 50 anos nesta sexta-feira, 20, ajudou as pessoas em tempos difíceis porque foi aberto sobre os seus próprios problemas

20 mar 2026 - 12h00

No amanhecer do novo milênio, o Linkin Park fazia parte de uma nova revolução juvenil e a voz de Chester Bennington era sua trombeta. Tanto sua interpretação quanto suas letras mesclavam vulnerabilidade sincera com raiva descontrolada. Canções como "In the End" e "Crawling" mostravam o artista, que completaria 50 anos nesta sexta-feira, 20, alternando violentamente entre esses estados de espírito. Começava com declarações tenras de derrota antes da raiva subir pela sua garganta em gritos de angústia que faziam as veias saltarem.

Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, em 2014
Chester Bennington, vocalista do Linkin Park, em 2014
Foto: Chiaki Nozu / WireImage / Rolling Stone Brasil

Os jovens que se depararam com os ataques de tristeza e raiva de Bennington quando o Linkin Park estourou nas paradas viam nele a personificação da dor reprimida incapaz de ser expressa, liberada ou sequer compreendida. Quando foram mais a fundo, além da raiva, encontraram expressões apaixonadas de desespero, desesperança e medo. Ele passou sua carreira sendo honesto e direto sobre suas lutas contra a depressão, o vício e o trauma, especificamente por ter sido abusado sexualmente quando criança.

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Em músicas como a visceral "One Step Closer", aqueles que carregavam demônios semelhantes aos de Bennington encontraram um reflexo desafiador. "Tudo o que você me diz me leva um passo mais perto da beira, e estou prestes a quebrar", ele brada para o mundo, transmitindo frustração como só um jovem de 24 anos poderia.

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Embora Hybrid Theory tenha sido lançado em 2000, o álbum só estourou em 2001 e se tornou o maior disco daquele ano. O final da década de 1990 encontrou heróis da angústia em estrelas em ascensão como Eminem e Limp Bizkit, além de veteranos como Nine Inch Nails, mas o gosto americano estava dominado por um movimento pop chiclete "disneyficado", liderado por boy bands e divas em início de carreira na faixa dos 16 anos.

O Linkin Park estourar e vender mais do que atrações mais familiares como 'N Sync e Britney Spears mostrou como o mercado precisava de um ícone mainstream capaz de refletir linhas de gênero cada vez mais borradas, com um toque de rock.

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Enquanto o nu metal brilhava, a banda reescrevia suas possibilidades. O machismo do gênero, impulsionado pelo Limp Bizkit, se tornava menos potente com a maneira ágil que a voz de Chester Bennington interagia com o rap sutil, porém eficaz, de Mike Shinoda. O grupo abraçou a música eletrônica para complementar sua habilidade musical, em vez de dominá-la. E, ao mesmo tempo, era a vulnerabilidade entre os gritos, riffs pesados e tons frios que colocava o Linkin Park um passo à frente.

Mesmo enquanto envelhecia e se tornava mais bem-sucedido, Bennington serviu de exemplo sobre como a doença mental é uma luta para o resto da vida, desvendando sua dor de maneiras mais complexas e maduras até seu álbum final com o Linkin Park, One More Light (2017). Em entrevista para a Music Choice no início deste ano, ele descreveu sua mente como um "bairro perigoso onde eu não deveria caminhar sozinho". Para uma conversa com o The Mirror, no que é alegado ser sua entrevista final, Bennington parecia encontrar uma luz no fim do túnel, vendo a criação de seu último álbum do LP como "terapêutica".

Para muitos, ouvir Linkin Park é como relembrar uma memória de sobrevivência. Isso acrescenta ainda mais à tragédia e às circunstâncias de como a vida de Bennington chegou ao fim. Ele ofereceu catarse a quem desejava poder gritar como ele, o mesmo tipo de catarse que ele sentia ao ouvir bandas como Stone Temple Pilots e Soundgarden quando adolescente. Bennington viria a assumir a liderança do STP depois da demissão de Scott Weiland em 2013, a realização de um sonho de toda a vida. Com o Linkin Park, Bennington teve a oportunidade de fazer turnê com Chris Cornell em 2008 e até cantou "Hunger Strike", o sucesso do Temple of the Dog, com seu herói no palco.

Assim como os fãs de Bennington perderam a luz que os inspirou durante a juventude, o cantor testemunhou as trágicas mortes prematuras de Weiland e Cornell — este último um amigo próximo seu por anos e cujo aniversário teria sido no mesmo dia em que o vocalista do Linkin Park tirou a própria vida.

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"Sua voz era alegria e dor, raiva e perdão, amor e desilusão, tudo ao mesmo tempo", escreveu Bennington em uma carta aberta após o suicídio de Cornell, suas palavras ecoando muito do que seus ouvintes ao longo dos anos ouviram em músicas do Linkin Park como "Numb" e "Heavy". "Suponho que é isso que todos nós somos. Você me ajudou a entender isso."

** No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV), associação civil sem fins lucrativos, oferece apoio emocional e prevenção do suicídio, gratuitamente, 24 horas por dia. Qualquer pessoa que queira e precise conversar, pode entrar em contato com o CVV, de forma sigilosa, pelo telefone 188, além de e-mail, chat e Skype, disponíveis no site www.cvv.org.br.

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