Carlinhos Brown já tinha um papel importante na cultura popular do Brasil antes que a maior parte das pessoas tivesse consciência de quem ele era. O cantor, compositor e percussionista foi pioneiro da axé music, ajudou a moldar o carnaval de Salvador contemporâneo e teve uma influência gigante na MPB. Só então ele decidiu lançar sua carreira solo, se solidificando como um ícone brasileiro.
Isso tudo aparece na série documental Meia Lua Inteira, que estreia na próxima terça-feira, 14, na HBO Max. A produção detalha sua trajetória na música, além dos seus esforços para melhorar a vida da população do Candeal, bairro de Salvador fundado por quilombolas onde nasceu e cresceu.
Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Brown compartilhou sua reação ao assistir todos os episódios da série pela primeira vez. O que mais lhe tocou foi perceber quantas pessoas o apoiaram ao longo da carreira, auxiliando seu sucesso musical e, por consequência, seu trabalho social:
"O que mais me emocionou foi a não solidão de desejar fazer essas ações e não estar só. Porque o tempo inteiro eu tive [Gilberto] Gil perto, tive Caetano [Veloso] perto, tive Marisa [Monte] perto, tive Os Paralamas do Sucesso, eu tive os artistas todos próximos a esse desejo."
https://www.youtube.com/watch?v=zciC0j3cqVU&pp=ygUgY2FybGluaG9zIGJyb3duIG1laWEgbHVhIHRyYWlsZXI%3D
A maioria dos artistas citados teve sucessos nas paradas brasileiras compostos com a ajuda de Brown — incluindo a música gravada por Caetano que foi um dos primeiros hits de Carlinhos e dá nome à série, "Meia Lua Inteira". O dinheiro arrecadado com essas canções ajudou na urbanização do Candeal. Ainda assim, Brown deixou escapar que se beneficiou, mesmo passivamente, de um segredo mal guardado da indústria: o jabá.
"Essas pessoas sempre estiveram ao meu lado e eu pensei: 'Poxa, eu não estava só'. Eu comentava que nunca fui um cara que tive grana para botar música no rádio, mas tem músicas que meus colegas puderam fazer [isso], foi uma divulgação. Grana de rádio é divulgação, para divulgar a música, só que meus colegas conseguiram fazer isso me ajudaram e ainda fizeram clássicos disso tudo."
Apoio a Candeal
Quanto à prática descrita, Carlinhos Brown demonstrou emoções conflitantes. Para ele, o importante era não mostrar decepção com os artistas pelo ato, uma vez que todo esse sucesso possibilitou a expansão de suas oficinas de música pela cidade de Salvador e a urbanização do Candeal.
A comunidade foi fundada em cerca de 1769 pela marfinense Josefa de Santana, que veio ao Brasil para em busca de parentes escravizados. Apesar de não ter encontrado sua família, adquiriu uma pequena área rural em Salvador e começou um quilombo urbano, onde acolhia escravos libertos e fugidos.
Nos anos 1990, parte das ruas do bairro ainda não era pavimentada e havia esgoto a céu aberto. Em um dos momentos do documentário, Brown conta como seu grande sucesso com o Timbalada, "Água Mineral", foi inspirado pelas obras de estabelecer fontes comunitárias onde a população do Candeal conseguiria água limpa gratuita.
https://www.youtube.com/watch?v=wycx-Tywmrs&list=RDwycx-Tywmrs&start_radio=1&pp=ygUWdGltYmFsYWRhIGFndWEgbWluZXJhbKAHAdIHCQnaCgGHKiGM7w%3D%3D
Também à Rolling Stone Brasil, Maurício Magalhães, produtor executivo da série Meia Lua Inteira, resumiu o impacto de Carlinhos na Bahia. Segundo ele, o músico representou a primeira geração de baianos que não precisou ir morar no Rio de Janeiro ou São Paulo para ter sucesso nacional. Além disso, trabalhou para elevar a qualidade de vida de seu bairro:
"Além dele não sair de Salvador, ele não saiu do Candeal. Apesar dele não morar lá hoje, os estúdios dele são lá. A casa de eventos, o escritório, a casa da mãe... ele mudou todo o entorno. É como se Carlos Drummond de Andrade nunca tivesse saído de Itabira e ganhado o mundo. Ele continuou no Candeal e ganhou o mundo."
Carreira solo de Carlinhos Brown
Após mais de uma década de influência nos bastidores, como homem de apoio para algumas das maiores estrelas do país ou na função de membro do Timbalada, Carlinhos Brown resolveu se lançar como artista solo. Seu álbum de estreia, Alfagamabetizado (1996), vendeu mais de 150 mil cópias no embalo de hits como "A Namorada" e o firmou como uma estrela da música brasileira.
Segundo o músico, o impulso de tomar a frente do palco para si surgiu a partir de dois motivos. O primeiro era o desejo natural de expandir sua visão musical. O segundo estava relacionado a defender uma de suas criações:
"Diziam que axé music estava cambaleando com menos de uma década. Em 1990, a pessoa já dizia que axé music morreu, em 1996 já tinham dito que morreu. Foi quando eu surgi com a Timbalada, com novas rítmicas, com novas estruturas musicais e com olhar muito mais no mundo, no rai francês, world music e todo mundo começou a vir para a Bahia."
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Colaboração com Sepultura
Quando Carlinhos Brown diz "todo mundo", é todo mundo mesmo. Um aspecto não abordado no documentário é o seu trabalho junto com a banda mineira Sepultura, maior nome da história do heavy metal brasileiro. Brown contribuiu arranjos de percussão no álbum Roots (1996), um marco internacional do gênero.
Quando questionado sobre essa parceria, o cantor fez uma revelação inesperada. "Ratamahatta", música composta por ele junto do Sepultura, partiu de uma ideia que havia oferecido primeiro ao Paralamas:
"Inclusive, no documentário do Paralamas, eu até pareço tocando ela ainda, mas Herbert [Vianna, vocalista e guitarrista do grupo] gostou de 'Uma Brasileira', que já estava até melhor encaminhada."
https://www.youtube.com/watch?v=NiwqRSCWw2g&list=RDNiwqRSCWw2g&start_radio=1&pp=ygUVc2VwdWx0dXJhIHJhdGFtYWhhdHRhoAcB
Felizmente, Brown encontrou em Max Cavalera, vocalista e guitarrista do grupo, o parceiro perfeito para explorar esse conceito. O Sepultura já estava interessado em incorporar elementos incomuns no metal desde seu álbum anterior, Chaos A.D. (1993). Quando Carlinhos abordou Max com a ideia de experimentar com percussão afro-brasileira e indígena, a união pareceu natural:
"Roots é clave de dizer que música é música, e o percussionista não é um detentor de estilo, ele é a percussão. Em qualquer utilização que a percussão for convocada, ela tem que responder, porque toda música é feita de ritmo. A escolha do instrumento não pode ser a decisão, nem preconceituosa, de quem define que 'aquele estilo não pode entrar em tal instrumento', nem também a defeituosa de que tenha uma má aplicação. Então, se tem bateria no heavy metal, você pode ter surdos [tipo de tambor], porque os surdos são como tímpanos também."
Brown ainda contou sobre as sessões de gravação realizadas na Califórnia, anterior à imersão da banda na cultura indígena por meio de uma visita ao povo xavante. A área na qual o estúdio ficava localizado era utilizada por nativos para rituais religiosos — e isso inspirou o percussionista:
"O Sepultura ainda não tinha ideia de ir na tribo [gravar 'Itsári'], mas a partir daquilo que a gente fez uma loucura. Tinha tanta folha no chão. Eu disse: 'vamos botar o microfone aqui e vamos a gente fazer um toré [dança circular de comunidades nativas do Nordeste brasileiro]'. E a gente começou a pintar, mas para fazer: 'vamos fazer igual índios, fazer um onomatopeia'. Aquilo foi muito forte. Quando o Sepultura vai e chega nas tribos, aquilo só ganhou um fortalecimento. Quando a gente evoca nossas origens com respeito, elas virão... E vamos dizer que esse é o heavy metal mais afro-indígena — o afro-ameríndio, vamos dizer — da história."