David Allan Coe, cantor de música country conhecido por sua imagem rebelde e provocadora e por canções como "You Never Even Called Me by My Name" e "The Ride", morreu aos 86 anos.
A esposa de Coe, Kimberly Hastings Coe, confirmou a morte do cantor à Rolling Stone. "Um dos melhores cantores, compositores e artistas de nosso tempo. Jamais será esquecido", escreveu Kimberly à RS. "Meu marido, meu amigo, meu confidente e minha vida por muitos anos. Jamais o esquecerei e não quero que ninguém mais o esqueça." A causa da morte ainda não foi divulgada.
Coe foi uma das figuras mais complexas da música country. Uma verdadeira lenda que se gabava de suas façanhas passadas na prisão e na estrada, ele era o autor de sua própria mitologia. Coe escreveu sucessos populares para Tanya Tucker e Johnny Paycheck — "Take This Job and Shove It" foi inteiramente de sua autoria — e gravou canções country que ainda figuram em diversas playlists e tocam em rádios (inúmeras jukeboxes incluem "You Never Even Called Me by My Name"). Mesmo assim, canções ofensivas e racistas que Coe escreveu alegando serem paródias ainda incomodam muita gente até hoje.
Nascido em 6 de setembro de 1939, em Akron, Ohio, Coe passou grande parte de sua juventude entrando e saindo de reformatórios e prisões, cumprindo pena por crimes que variavam de furto qualificado de veículos a posse de ferramentas de arrombamento. Durante um período de encarceramento no outono de 1963, ele alegou ter matado um colega de cela com um balde de esfregão depois que o homem o ameaçou nos chuveiros da prisão.
Em uma entrevista de 1975, Coe disse que se sentia pertencente ao sistema penal. "Houve muitas vezes em que eu estava na cadeia do condado depois de ser preso, e eu acordava na manhã seguinte e dizia para mim mesmo: 'Ah, que bom que acabou; que bom que estou voltando para a prisão agora, onde sei que estarei seguro, onde estarei fora da sociedade'", disse.
A alegação era duvidosa. "Noventa por cento do que ele diz provavelmente é besteira", disse Shelby Singleton, produtor de Nashville que descobriu Coe, à Rolling Stone em 1976. "Pensávamos que era um truque publicitário e o promovemos dessa maneira."
Embora Coe tivesse o hábito de exagerar nos detalhes, ele viveu o tipo de vida descarada sobre a qual outras figuras do country fora da lei apenas cantavam. Ele era um personagem extremamente excêntrico, ansioso para experimentar qualquer tática para se destacar na indústria da música: dirigia um carro funerário, usava uma máscara do Lone Ranger e, segundo relatos, chegava a suar bastante do lado de fora do Ryman Auditorium, em Nashville, para parecer que tinha acabado de se apresentar naquele palco. Depois, dava autógrafos para os turistas.
Mas Coe, que chegou a Nashville em 1967, não precisou fingir ser uma estrela. Depois que Tucker transformou a canção de Coe, "Would You Lay With Me (In a Field of Stone)", em um sucesso número um nas paradas country em 1973, ele se tornou um cantor e compositor requisitado — embora ainda excêntrico. Assinou com a Columbia Records e lançou seu primeiro álbum por uma grande gravadora (e primeiro álbum country, depois de dois LPs de blues), The Mysterious Rhinestone Cowboy , em 1974. O álbum seguinte, Once Upon a Rhyme, de 1975 , incluiu a gravação de Coe de "Would You Lay With Me" e o clássico das jukeboxes "You Never Even Called Me by My Name", com seu interlúdio falado sobre ser a "canção country perfeita".
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Escrita por Steve Goodman e John Prine (sem créditos), "You Never Even Called Me by My Name" foi ideal para Coe — uma chance de satirizar e homenagear a música country, fazer imitações perfeitas de estrelas da época como Waylon Jennings e Merle Haggard, e tecer seu próprio legado mitificado. "A única vez que sei que ouvirei 'David Allan Coe'", cantou Coe em seu próprio verso, "será no dia do julgamento final de Jesus."
Coe exploraria essa habilidade para a autorreferência ao longo de toda a sua carreira. Em "Longhaired Redneck", um rock estridente de 1976, ele cantava: "Dizem que me pareço com Merle Haggard /e minha voz é muito parecida com a de David Allan Coe". Ele se inseriu na história da amizade entre Willie Nelson e Waylon Jennings em "Willie, Waylon and Me", de 1977, introduzindo o segundo verso com a declaração arrogante: "Meu nome é David Allan Coe e sou de Dallas, Texas!" (Ele era natural de Ohio). E em "Son of the South", de 1986 , ele citou uma longa lista de artistas cujos discos ele tocava "no volume máximo", incluindo Hank Williams Jr., Lynyrd Skynyrd, Allman Brothers Band e "David Allan Coe".
https://www.youtube.com/watch?v=H3OcOPDJeZk
Embora Coe tenha tido algum sucesso como cantor nos anos 70, sua maior vitória naquela década veio como compositor. Em 1977, Johnny Paycheck, outro cantor fora da lei de vida boêmia, gravou a música de Coe "Take This Job and Shove It", alcançando o primeiro lugar nas paradas country e adicionando um bordão sobre mandar o sistema às favas ao vocabulário popular. Coe gravou sua própria versão um ano depois para Family Album(1978), um LP que também incluía a atmosfera tropical de "Divers Do It Deeper" ("mergulhadores fazem mais fundo, jóqueis fazem mais curto... marinheiros fazem mais molhado, soldados fazem melhor", dizia o refrão).
Apesar de ser uma canção relativamente inocente, "Divers Do It Deeper" já dava indícios do que estava por vir de Coe. Ele lançou e vendeu de forma independente, por correspondência, dois álbuns de teor sexual explícito, com canções polêmicas sobre sexo e raça. Conhecidos como os álbuns "para maiores de 18 anos", Nothing Sacred (1978) e Underground Album (1982) foram criticados pelo uso de insultos raciais e linguagem misógina. Coe afirmou que os escreveu como uma paródia, após ouvir o álbum Freakin' at the Freakers Ball, de Dr. Hook, lançado em 1972 com canções de Shel Silverstein.
Nos anos 80, Coe voltou a canções mais convencionais, retornando com o álbum de 1983, Castles in the Sand, que alcançou o Top 10 da parada de álbuns country graças ao single "The Ride". Escrita por Gary Gentry e JB Detterline Jr., a canção narra o encontro de um caroneiro com o fantasma de Hank Williams. Incapaz de resistir a mais uma referência, Coe adicionou um verso final no qual Hank elogia a nova geração de cantores country, de Waylon Jennings e Billy Joe Shaver a David Allan Coe.
https://www.youtube.com/watch?v=uh6u4O-264Q
Coe continuou lançando novos álbuns, gravações ao vivo, projetos de spoken word e coletâneas até os anos 2000. Entre 1999 e 2003, gravou uma série de músicas com membros da banda de heavy metal Pantera para o álbum Rebel Meets Rebel (2005). Ele também fez amizade e começou a colaborar com Kid Rock, que convidou Coe para abrir uma de suas turnês e gravou sua música "Single Father".
Nos últimos anos de sua carreira, Coe era uma figura marcante e intimidadora no palco, com cabelos longos e barba trançada. Ele se apresentava curvado sobre seu violão — um deles decorado com o motivo da bandeira confederada — e cantava em um microfone de fone de ouvido, apresentando seus próprios sucessos e covers de artistas que iam de Kid Rock a Merle Haggard. Ele era uma atração especialmente popular no circuito de encontros de motociclistas e gravou um álbum ao vivo, Live From the Iron Horse Saloon, no Biketoberfest de 2001 em Daytona Beach, Flórida, não muito longe de sua casa em Ormond Beach.
https://www.youtube.com/watch?v=f0-NbqMZmOQ
Coe enfrentou dificuldades financeiras em meados da década de 2010. Ele se declarou culpado de obstrução e impedimento da administração das leis tributárias em 2015 e foi condenado a três anos de liberdade condicional por sonegação fiscal, além de ter sido obrigado a pagar quase US$ 1 milhão em impostos atrasados ao IRS (Receita Federal dos EUA). Embora fosse bem diferente dos delitos pelos quais havia sido acusado no início da vida, o crime reforçou a imagem de Coe como um fora da lei.
Em um filme de 1975 que é parte documentário, parte filme-concerto e parte performance artística, Coe visita a Instituição Correcional de Marion, em Ohio, onde é entrevistado em uma cela sobre suas experiências atrás das grades e, mais uma vez, revela o que o motivava: a busca pela notoriedade.
"Encontrei meu lugar na sociedade. E não é em uma prisão", disse. "Não preciso mais voltar aqui e ter que explicar para todos quem é David Allan Coe; agora todos na rua sabem quem eu sou. Então, ainda tenho a satisfação de ser alguém."