Em entrevista à Rolling Stone Brasil, o rapper BK' revisitou sua discografia de cinco álbuns, detalhando a evolução criativa de sua carreira. Da estreia crua em "Castelos & Ruínas" à expansão artística em "Gigantes", o artista navegou por temas de liderança e negritude em "O Líder em Movimento", homenageou a própria trajetória em "Ícaros" e explorou novos samples e conceitos visuais em "DLRE". Para BK', cada projeto representa um elo contínuo de inovação estética e busca por novas linguagens musicais.
Ao longo de cinco álbuns, BK' transformou diferentes momentos da própria trajetória em música. De Castelos & Ruínas, marcado pela vontade de rimar e encontrar um caminho, a DLRE — Diamantes, Lágrimas Justas para Esquecer, construído a partir da ideia de seguir em frente, o rapper passou por diferentes fases criativas e estéticas.
Em conversa com a Rolling Stone Brasil, BK' revisitou cada um dos projetos e explicou o que estava vivendo, pensando e buscando no momento em que foram criados.
Castelos & Ruínas: a vontade de falar
Primeiro álbum solo de BK', Castelos & Ruínas nasceu de uma necessidade de colocar ideias para fora. O projeto chegou a ser planejado para 2015, mas acabou adiado até que o rapper sentisse que estava pronto.
"Castelos e Ruínas foi o meu disco que eu levei 26 anos para fazer", explica. Algumas músicas saíram durante o processo e "Próximo Nascer do Sol" entrou como a última faixa.
Na época, BK' sentia vontade de apresentar sua visão e falar sobre o que estava vivendo. Para ele, o "castelo" do título não estava necessariamente relacionado a dinheiro, mas à procura por um caminho que fizesse sentido na vida pessoal e profissional.
O álbum também representava liberdade criativa. Sem a pressão dos trabalhos seguintes, o rapper define o disco como movido pela "pureza" e pela vontade de fazer algo inspirador.
Gigantes: deixando a criatividade ir além da rima
Em Gigantes, BK' quis mostrar um lado diferente daquele já conhecido pelo público. Se antes estava mais concentrado em suas próprias experiências, passou a incorporar também vivências de pessoas próximas.
"Gigantes é onde eu consigo mostrar mais habilidades sem ser o que a gente tá acostumado a ser a habilidade de um MC", afirma.
O disco também marcou uma aproximação maior com outras linguagens artísticas, especialmente as artes plásticas. Para o rapper, foi o momento em que conseguiu deixar a criatividade ir além das habilidades tradicionais de um rimador.
O Líder em Movimento: um manual de sobrevivência
Já O Líder em Movimento surgiu a partir de um conceito mais definido. BK' criou um personagem para abordar questões relacionadas à vivência preta, liderança e identidade.
"Ele é um estudo para mim, ele é um manual para mim também", explica.
A gravação aconteceu durante um período complicado. Para se concentrar no trabalho, BK' e sua equipe ficaram uma semana fora do Rio de Janeiro. A pandemia, porém, interrompeu parte dos planos e o álbum não teve videoclipe ou show de lançamento naquele primeiro momento.
Ainda assim, o rapper considera o disco fundamental para sua trajetória e para as escolhas criativas que vieram depois.
Ícaros: olhar para a própria trajetória
Depois da pandemia, BK' queria voltar com um trabalho mais ambicioso. Em Ícaros, passou a usar a própria discografia como fonte de inspiração, revisitando elementos de Castelos & Ruínas, Gigantes e O Líder em Movimento.
"Ícaros é onde eu uso a minha própria trajetória de inspiração", conta.
O álbum também trouxe uma preocupação diferente: criar um trabalho que o público pudesse compreender logo nos primeiros contatos. Os corais acabaram se tornando uma das principais marcas estéticas daquela era.
DLRE: samples, mudanças e o "monstro"
Em DLRE — Diamantes, Lágrimas Justas para Esquecer, BK' decidiu buscar novamente um elemento que marcasse o disco. A escolha foi o sample, inspirado pela maneira como o recurso é utilizado no rap.
O rapper também passou a trabalhar com mais cuidado com direitos autorais depois de enfrentar problemas relacionados ao uso de samples em projetos anteriores.
Conceitualmente, o álbum nasceu da ideia de abandonar algumas coisas para conseguir seguir em frente. Embora as love songs estejam entre os destaques do projeto, BK' explica que o disco também fala sobre relações de amizade, trabalho e outros momentos de mudança.
A estética ganhou força com a criação do "monstro", associado ao tempo e à sensação de correria. A ideia levou BK' e sua equipe até a Etiópia, onde gravaram um filme visual para o projeto. As hienas aparecem como representação do monstro, enquanto a viagem também dialoga com o nome Bebe Bikila, referência ao corredor etíope Abebe Bikila.
Para BK', DLRE conseguiu unir música, estética e show em uma experiência mais próxima do conceito 360 que busca oferecer em seus trabalhos.
Uma carreira em movimento
Ao revisitar a discografia, BK' enxerga uma continuidade entre os trabalhos: cada álbum parte de uma fase anterior para buscar novas possibilidades.
E o movimento não terminou em DLRE. O rapper conta que está sempre pensando no próximo projeto e, enquanto finaliza um disco, já começa a imaginar o seguinte.