Igreja Ortodoxa Russa avança na África como peça de soft power do Kremlin

19 mar 2026 - 15h31

Instituição que mantém laços estreitos com o regime de Putin vem ganhando espaço em países como a República Centro-Africana - de forma lenta, mas sólida.Nos últimos três anos, os fiéis da República Centro-Africana têm se reunido para celebrar missas ortodoxas russas na pequena paróquia de Saint-André de Bimbo, perto da capital, Bangui.

Liturgia em países africanos, como a República Centro-Africana, é feita em russo, mas fiéis acompanham por meio de intérpretes
Liturgia em países africanos, como a República Centro-Africana, é feita em russo, mas fiéis acompanham por meio de intérpretes
Foto: DW / Deutsche Welle

Patrick, de 38 anos, é um desses fiéis. Ele era membro da Igreja Católica Romana antes de se converter à Igreja Ortodoxa Russa. "Entrei para essa igreja porque gosto dos ensinamentos da Bíblia, da forma como eles nos falam e de como oferecem orientação espiritual por meio da oração", diz ele à DW.

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"Desde que fui para lá, sinto que uma mudança positiva está ocorrendo na minha vida", continua Patrick. "Me sinto em casa na minha nova igreja, na minha nova fé, e vou continuar nesse caminho."

Olive, de 35 anos, também está feliz por fazer parte da nova congregação. "Gostei do estilo da pregação na Igreja Ortodoxa porque eles ensinam bem", explica ela. "Todos nós adoramos o mesmo Deus, e me sinto em casa com a pregação e a forma como as pessoas interagem nesta igreja", conta Olive à DW.

Liturgia em russo - com intérprete

Embora a liturgia seja celebrada em russo, os fiéis conseguem acompanhar a pregação. "Isso não é problema, pois há intérpretes que nos ajudam a entender o que está sendo dito em russo."

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A paróquia de Saint-André de Bimbo é dirigida pelo padre Marcel Voyemawa, outro convertido. Ele era padre da Igreja Ortodoxa Grega, mas passou a integrar a Igreja Ortodoxa Russa.

Geograficamente, as Igrejas Ortodoxas estão organizadas em patriarcados. A África era considerada parte do Patriarcado de Alexandria, portanto, pertencia à Igreja Ortodoxa Grega. No entanto, Voyemawa defende a autenticidade teológica de sua nova igreja na rádio pró-Rússia Lengo Songo - atualmente sujeita a sanções da União Europeia.

"Aqui temos a verdadeira teologia dogmática. A Igreja Ortodoxa é composta por igrejas autocéfalas (independentes), cada uma com sua própria tradição local. O que as distingue é, acima de tudo, a língua utilizada no culto", explica Voyemawa à DW.

De acordo com o padre, a Igreja Ortodoxa Russa se baseia em valores apostólicos universais e, portanto, está em harmonia com os ensinamentos dos discípulos de Jesus. "Ir a todos os lugares: essa é a universalidade da Igreja, o apostolado. É isso que define a fé ortodoxa e o Credo Niceno-Constantinopolitano, que a igreja e os padres têm preservado fielmente."

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A pequena paróquia de Saint-André de Bimbo é apenas uma das muitas onde a Igreja Ortodoxa Russa se estabeleceu. A instituição vem expandindo continuamente sua presença na África: segundo a entidade eclesiástica, existem 350 paróquias em mais de 30 países do continente.

Em países como África do Sul, Tanzânia, Uganda e o Quênia, estão sendo construídos locais de culto cujos interiores se assemelham aos das igrejas de São Petersburgo e têm pouco em comum com as tradições religiosas locais.

"Soft power" russo na África

Os especialistas aconselham cautela em relação aos números divulgados pela Igreja Ortodoxa. Segundo a teóloga católica romana Regina Elsner, nos últimos anos, provavelmente foram fundadas menos novas igrejas no continente do que a Igreja Ortodoxa Russa afirma.

No entanto, a própria instituição tem interesse em divulgar o crescimento do número de seus fiéis. "A Igreja Ortodoxa Russa deve ser claramente vista como parte do soft power da Rússia", diz a professora de Estudos da Igreja Oriental e Ecumenismo no Instituto Ecumênico da Faculdade de Teologia Católica da Universidade de Münster, na Alemanha.

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Entretanto, de acordo com Elsner, isso não significa que toda a Igreja represente sempre apenas os interesses do Estado. Mas, desde a década de 1950, os ortodoxos russos têm trabalhado em estreita colaboração com o governo russo, em muitas áreas.

Desde então, a instituição construiu uma ampla presença internacional por meio de paróquias, estruturas eclesiásticas e representação em organismos internacionais — como as Nações Unidas e a União Europeia, em Genebra e Estrasburgo, respectivamente, afirma Elsner.

"Na África, a Igreja Ortodoxa Russa está presente há muitos anos, principalmente no âmbito das missões diplomáticas russas", acrescenta ela. "Desde 2022, essa presença se expandiu com uma estrutura eclesiástica própria e a pretensão de ser a única verdadeira Igreja Ortodoxa do continente africano."

Elsner diz que a influência da Igreja Ortodoxa não se deve tanto à propaganda russa direta, mas sim a uma promoção sutil dos interesses de Moscou. "Em primeiro lugar, a Rússia e a Igreja Ortodoxa Russa têm sido defensoras ativos dos cristãos perseguidos em muitos países africanos há muitos anos", enfatiza. Quase nenhum outro país defendeu tão veementemente essa causa no cenário internacional, continua a teóloga, o que rendeu ao lado russo uma grande simpatia por parte dos cristãos perseguidos.

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Soma-se a isso a postura da instituição religiosa contra o chamado colonialismo liberal ocidental. "A Igreja Russa explora e reforça o ceticismo em relação à democracia e às políticas de direitos humanos dos países ocidentais, especialmente entre a população religiosa e as igrejas africanas já existentes, e assim consegue legitimar o apoio a uma presença russa", complementa a professora da Universidade de Münster.

A história da Igreja Ortodoxa Russa na África

Embora estime que o número de fiéis seja relativamente pequeno, Elsner vê "relevância geopolítica na presença" da Igreja Ortodoxa Russa e acredita que ela também possa exercer uma influência muito forte no equilíbrio de poder no contexto internacional. A expansão da fé ortodoxa russa compete com a Igreja Ortodoxa Grega em Alexandria, no Egito. Segundo Elsner, o Patriarcado de Alexandria remonta ao século 3 e responde por toda a África.

Até recentemente, o Exarcado de Alexandria mantinha boas relações com a Igreja Russa - havia uma separação rígida dentro do mundo ortodoxo. As pequenas paróquias estavam estabelecidas principalmente no Norte da África e no Quênia e permaneceram inalteradas durante séculos.

Isso mudou em 2019. Naquele ano, o Patriarca Teodoro 2º de Alexandria reconheceu a Igreja Ortodoxa independente da Ucrânia. Com isso, o Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa rompeu a comunhão eucarística com o episcopado da Igreja de Alexandria. "Para Moscou, esse movimento foi uma espécie de anexação", afirma Elsner.

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A Igreja Ortodoxa Russa, liderada por Cirilo 1° de Moscou, representa a ideologia russa no exterior: os ministérios do governo mantêm estreita colaboração com a religião, o que beneficia estrategicamente o governo de Vladimir Putin.

Segundo a teóloga e cientista política belarrussa Natallia Vasilevich, a expansão da influência é, antes de tudo, uma preocupação pessoal do bispo Leônidas Gorbachev, que liderou o Exarcado na África de 2021 até 2023.

"Sua ascensão esteve intimamente ligada à presença russa no continente, incluindo as redes ligadas a Yevgeny Prigozhin, fundador da organização paramilitar Grupo Wagner", explica Vasilevich à DW.

"Nesse contexto, ele procurou ampliar a influência do Patriarcado de Moscou na África sob o pretexto de uma missão eclesiástica, bem como a sua própria influência no continente", continua ela. O pretexto formal para essa intervenção foi a decisão do Patriarcado de Alexandria de reconhecer a Igreja Ortodoxa na Ucrânia, reforça Vasilevich.

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Representantes da Igreja Ortodoxa Russa optaram por um caminho mais simples e agressivo contra a Igreja de Alexandria. Eles direcionaram os esforços contra a própria igreja e tomaram como alvo seu clero, suas congregações e sua infraestrutura, afirma a teóloga.

"Na prática, isso significou atrair padres e congregações ortodoxas já existentes para longe da Igreja de Alexandria, em vez de construir algo novo", diz.

Isso foi feito, por exemplo, concedendo refúgio ao clero em conflito com seus bispos. De acordo com Vasilevich, não foi um trabalho missionário, mas uma estratégia de oportunismo.

Para ela, uma coisa é certa: "Essas atividades da Igreja Ortodoxa Russa no continente são profundamente prejudiciais para a ortodoxia africana. Elas exploram a fragilidade financeira das congregações na África e atraem clérigos e fiéis com incentivos materiais, o que, na verdade, gera tensões dentro das próprias congregações."

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*Jean-Fernand Koena, em Bangui, contribuiu para este artigo.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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