Reynaldo Gianecchini reflete sobre sua trajetória de quase 30 anos de carreira com grande versatilidade, desafios pessoais e profissionais, destacando sua evolução, liberdade artística e atuação na peça "Um Dia Muito Especial".
Muitas palavras foram usadas para definir o ator Reynaldo Gianecchini, de 53 anos de idade, ao longo do tempo: talentoso, galã, discreto, dedicado, entre outras. A única palavra que não faz justiça é estagnado. Em quase 30 anos de carreira — completa 28 anos em 2026 —, ele demonstrou ser uma verdadeira ‘metamorfose ambulante’. Na televisão, fez os gêmeos Paco e Apolo (Da Cor do Pecado, 2004); no streaming, fez o temido missionário Matias Carneiro (Bom Dia, Verônica, 2022–24); já no teatro, provou sua versatilidade ao interpretar a espalhafatosa drag Mitzi no musical Priscilla, a Rainha do Deserto (2024).
“Eu gosto de olhar para trás e ver a minha trajetória, tanto profissional como pessoal. Eu vejo e percebo que está tudo no lugar certo, tudo vai acontecendo para você ser a pessoa que você é hoje. Claro, temos muito que melhorar no sentido de conhecer, de se aprimorar, tanto no trabalho quanto na vida pessoal, mas eu gosto do jeito que tudo aconteceu, todos os aprendizados, os erros e acertos. Pra mim, viver é isso, a gente ir lidando com as coisas, aprendendo, errando e acertando”, disse o ator, em entrevista exclusiva ao Terra.
Agora, ele retorna aos palcos para uma nova empreitada: contar uma história ambientada em 1938, em Roma, durante o regime fascista. Na peça Um Dia Muito Especial, baseada no premiado filme homônimo de Ettore Scola, Reynaldo Gianecchini interpreta Gabriele, um radialista recém-demitido por ser homossexual. Então, por acaso do destino, ele encontra Antonietta (Maria Casadevall), uma mulher com vida oposta à sua, mas que, por ironia dos astros, decide ouvi-lo e discutir sobre amor, sobre vida e sobre as forças que unem e afastam pessoas.
“O Gabriele é um personagem muito bonito e desafiador, e eu tenho como referência o Marcello Mastroianni [ator que fez o filme]. Eu gosto muito do jeito que ele fez o personagem, trazendo humor e um questionamento sobre a situação política da época. Ele também traz, principalmente, um olhar sobre exercitar a escuta, de você sair desse local polarizado e, ao invés de eliminar as pessoas que pensam diferente, acolhê-las, de uma certa forma tentar trocar e aprender. É também sobre se deixar transformar às vezes.”
“Ele é um personagem cheio de camadas, ele sofre no regime fascista, porque os gays foram os primeiros a serem mandados para o campo de concentração, antes mesmo dos judeus. O fascismo e o nazismo tinham uma cartilha que era: ou você se encaixa — e poucas pessoas se encaixavam —, ou você é eliminado. Isso é o fascismo: não há margem para a diversidade, e isso é uma questão até hoje.”
Por isso, a importância de tratar o assunto e de falar que o diverso também é bonito e, mais do que isso, que aquilo que te torna diferente não é uma ameaça ao outro -- Reynaldo Gianecchini
Segundo Gianecchini, em alguns momentos, a ficção se mistura com a realidade, o que ajuda a trazer veracidade ao texto do espetáculo, que está em cartaz no Teatro Bradesco, em São Paulo. À reportagem, ele confessou que, assim como seu personagem, sofreu com a pressão de ter que performar masculinidade sempre. Ele aproveitou as cenas relacionadas ao assunto para ‘vomitar’ sentimentos no palco e fazer disso também um processo de cura.
“Meu personagem sofre uma catarse ao longo da peça e tem muito a ver com um lado meu também, que queria muito ‘vomitar’ isso, de certa forma. No processo, eu descobri [que não era só comigo], mas que tinha a ver com muitos homens, independente de héteros, gays, LGBTs ou não. Acho que mexe demais com nós, homens, que sempre fomos cobrados na performance do masculino, do viril, de ter que ser o provedor, enfim. Hoje em dia, é mais fácil você entender que o homem pode ser sensível, sim, que o homem pode chorar, sim, que o homem não vai deixar de ser menos viril e que isso não tem nada a ver com a sexualidade.”
Em seguida, continuou: “Então, se você é uma criança sensível como eu fui, sabe que era muito difícil, porque como é que você sobrevive num mundo onde não há espaço para o homem, para um menino, ser sensível? Quando eu cheguei nessa cena, me veio [na cabeça] muito a cobrança de tudo que passei, como fui sensível quando criança, como fui massacrado, como não me foi permitido ser quem eu era, como isso é muito determinante, como você precisa, anos depois, talvez, de terapia para entender o quanto você foi reprimido… E aí, de novo, não estou falando só de sexualidade, é sobre você ser livre, você ter o seu fluxo de criatividade, de expressão, da forma que for”.
“Manoel Carlos ‘bateu o pé’ para me colocar na Globo”
Essa habilidade de usar as próprias vivências para levar vivacidade aos personagens é algo que Gianecchini desenvolveu ao longo de seus quase 30 anos de carreira. Se hoje ele é considerado uma referência para uma geração de atores, é fruto de seu esforço e trabalho duro. Natural de Birigui, no Noroeste de São Paulo, ele não tinha artistas na família ou padrinhos no meio midiático, logo teve que cavar com as unhas o próprio holofote.
As portas para a sétima arte apenas se abriram em 2000, quando foi chamado para interpretar o charmoso Edu Albuquerque em Laços de Família (Globo). Na trama de Manoel Carlos, que morreu em janeiro de 2026, ele fez um jovem médico recém-formado que se envolve num triângulo amoroso entre Helena (Vera Fischer) e Camila (Carolina Dieckmann), mãe e filha. Antes, ele tinha feito apenas dois trabalhos no teatro: Cacilda e Boca de Ouro.
“Não tem como a gente não ficar sensibilizado [com a partida dele]. Mas, no caso do ‘Maneco’, eu não posso falar dele nunca com tristeza. Apesar da perda, que é gigante, eu só vou falar dele com sorriso, porque eu tenho muita gratidão por ele e por tudo que ele fez para mim profissionalmente. Ele que me colocou lá [na Globo], ele bateu o pé, ele me queria naquele papel, ele abriu as portas da televisão e me deu a possibilidade de continuar nessa carreira. Enfim, é gigante a minha gratidão por ele, ele foi um ser humano incrível”.
“Eu tinha acabado de estrear no teatro, então eu não sabia o que era nada. Tinha pouco conhecimento do que era o teatro e nada sobre o audiovisual, daquele esquema maluco que é fazer uma novela dentro de uma emissora tão gigante como a Globo. Tudo isso me deu a possibilidade de ter uma estrutura para eu me desenvolver como ator e como ser humano. Então eu vou ser sempre grato. Ele foi um grande pai, não só artístico, ele me acolheu de verdade na casa dele, com a família dele, eu virei muito amigo, a filha dele fazia minha irmã na novela e virou uma irmã de verdade na vida. Eu olho para trás e passa uma historinha na minha cabeça, são tempos mágicos na minha vida, muito intensos e mágicos”.
O ator entrou no canal em uma época em que ainda se firmavam os famosos contratos fixos e de exclusividade. Nisso, ele passou 20 anos na Globo, atuando em diversas produções, com destaque para Da Cor do Pecado, na qual interpretou os gêmeos Paco e Apolo (2004), trabalho este considerado um de seus maiores desafios; Pascoal da Silva em Belíssima (2005); Dante em Sete Pecados (2007); Frederico Lobato Filho em Passione (2010) e mais.
‘Comecei a terapia quando fiquei doente’
Em 2011, ele passou por um momento delicado em sua vida profissional e pessoal. Em agosto, foi internado para cuidar de uma faringite e acabou descobrindo um linfoma não Hodgkin. Na mesma época, seu pai também enfrentava um câncer no aparelho digestivo. Em meio ao tratamento, Gianecchini decidiu que, mesmo psicologicamente bem, era o momento de aproveitar a pausa na intensidade da vida artística para progredir no pessoal.
“Eu sempre quis fazer, mas demorei muito tempo pra começar. Eu sempre quis fazer antes, mas nunca achava tempo. Prioridade, na verdade. Eu nunca dei prioridade, mas sabia que um dia ia chegar. Então eu comecei com 40 anos, quando eu fiquei doente. Eu tive um câncer e era superagressivo, fiquei meio ali, entre a vida e a morte mesmo, era uma questão de vida ou morte para mim".
"Eu estava até bem de cabeça, mas quando eu estive entre a vida e a morte, eu falei: ‘Cara, eu estou aqui cuidando da minha saúde, brigando para viver, e agora eu quero entender também a minha saúde mental. Eu quero entender como foi a história que eu contei pra mim mesmo esse tempo todo’” -- Reynaldo Gianecchini
Para ele, existe um Gianecchini antes e outro depois da terapia. Foi ali que ele aprendeu seus ciclos viciosos, seus traumas, coisas que colocava para baixo do tapete, dores que nem tinha sentido ainda. “E, assim, foi muito lindo, eu realmente comecei a descobrir muita coisa minha, fui de peito aberto para a terapia, querendo fuçar mesmo nos meus demônios, nas minhas coisas mais cabeludas, e foi ali que eu comecei a aprender muito de mim. Tem um ditado que diz que a vida começa aos 40, e para mim faz total sentido, porque comecei a ficar muito impressionado com coisas minhas que eu realmente ainda nem tinha acessado”.
‘Liberdade é algo que não se compra’
Em 2012, Reynaldo Gianecchini já se encontrava em um momento melhor de saúde. Recuperado, ele aproveitou para voltar ao ritmo intenso de trabalho. Na década de 2010, ele fez diversos projetos, com destaque para Guerra dos Sexos (2012), Cheias de Charme (2012), Verdades Secretas (2015) e A Lei do Amor (2016). Em 2017, em comunicado ao público, ele chegou a comemorar cinco anos de remissão de seu linfoma não Hodgkin.
Em 2021, no meio da pandemia do novo coronavírus, o ator surpreendeu o público ao anunciar seu rompimento com a Rede Globo, onde tinha passado 20 anos. Seu último trabalho no canal, até então, havia sido como Régis Mantovani em A Dona do Pedaço (2019). Segundo ele, o fim do ciclo profissional na emissora foi quase um ‘alinhamento de astros’.
“Na pandemia, muita coisa começou a mudar, foi um momento de repensar o que eu queria como artista. E aí eu comecei a falar: ‘Acho que deu para mim de fazer novela’. Não foi algo de uma hora para outra, eu já não tava querendo mais fazer novela, tava querendo experimentar outras coisas" -- Reynaldo Gianecchini
"E com a reformulação financeira da emissora os contratos começaram a acabar. Foi se tornando impraticável para a Globo manter aquele tipo de contrato. Então, assim, ao mesmo tempo que acabou, também era uma vontade minha. Às vezes é bom não estar preso a um contrato, porque eu queria liberdade para poder escolher o que eu queria fazer, então foi um fluxo perfeito”.
Após a saída da Globo, Reynaldo Gianecchini fez trabalhos de destaque em diferentes plataformas e formatos, como o missionário Matias, de Bom Dia, Verônica (Netflix), e a drag Mitzi, de Priscilla, a Rainha do Deserto – O Musical. Ao Terra, ele contou que não descarta um retorno à TV, mas reconhece a vontade de continuar explorando formatos diferentes, como tem feito.
"Depois que saí de lá, eu fui experimentar outras linguagens, personagens, outro jeito de contar história, fui para o streaming, fui fazer umas peças que foram grandes sucessos, como Priscilla e Brilho Eterno", disse. “Eu continuo achando [a Globo] fantástica, gostaria muito de continuar sempre trabalhando lá. Mas realmente não sinto muita vontade de fazer novela. Eu realmente quero [continuar] experimentando outras coisas.”
Como citado anteriormente, atualmente Reynaldo Gianecchini está em cartaz com a peça Um Dia Muito Especial, no Teatro Bradesco, em São Paulo. Com direção de Alexandre Reinecke, ele divide cena com Maria Casadevall. Aos interessados, o espetáculo faz uma temporada na capital paulista e em breve deve seguir para terras cariocas, no Rio de Janeiro.