Ao completar 30 anos de carreira aos 43 de idade, a modelo Isabeli Fontana reflete sobre as intensas pressões estéticas do mundo da moda. Para lidar com a ansiedade e as exigências do mercado, ela adotou a ioga, a meditação e práticas de autocuidado desde a adolescência. Fontana destaca a importância de ouvir os limites do próprio corpo e afirma que aceitar o processo natural de envelhecimento é o segredo para viver com equilíbrio e alcançar a verdadeira felicidade.
Acorda e pega a fita métrica: 89 cm de quadril, quase no limite máximo. Hora de voar para Paris. Campanha de inverno da Valentino, três xícaras de café e um casting. Voltar para Nova York por alguns dias, para logo depois desfilar na São Paulo Fashion Week. Foi uma rotina como essa que levou a então adolescente Isabeli Fontana, aos 17 anos, a praticar ioga e buscar a meditação.
"Me olhei muitas vezes e pensei: 'Consegui conquistar tantas coisas e por que sou infeliz?'", conta ao Estadão a supermodelo paranaense, que agora completa 30 anos de carreira. "Ou eu fazia algo para me acalmar ou eu surtava."
Isabeli usa sua experiência e práticas de bem-estar para lidar com a rotina com mais leveza, ainda que a indústria da moda continue com as mesmas exigências. "Quem nos contrata, geralmente, espera o físico do início da nossa carreira. E com o tempo, a gente vai envelhecendo e o nosso corpo não vai responder tão bem quanto você gostaria", conta a modelo de 43 anos. "É uma coisa natural. Não tem como você ir contra. Acredito que aceitar a sua idade é o primeiro passo da felicidade."
Na conversa, Isabeli também reflete sobre a relação com a ioga e sua busca pelo autocuidado. A seguir, confira os principais trechos da entrevista:
Neste ano você completou 30 anos de carreira. Teve algum momento em que a rotina pesou?
Sim, foi o momento em que tudo caiu em cima da minha cabeça e eu me vi completamente infeliz porque a única coisa que me alegrava era trabalhar, mas eu não estava trabalhando todos os dias e acabei entrando em depressão profunda. Então, procurei a espiritualidade, iniciei a meditação e entrei para a ioga. Tudo isso na adolescência, com 17 anos. Essa fase foi muito difícil para mim, ainda mais porque nesse tipo de trabalho eu sou julgada o tempo todo. Quando começou a abrir para a internet, havia mais público para julgar. Isso foi traumático porque ou você se joga naquilo, o que não faz bem, ou você procura ajuda. Nessa mesma época, me olhei muitas vezes e pensei: 'Bom, eu consegui conquistar tantas coisas e por que sou infeliz?'.
A ioga entrou na sua vida com 17 anos. Como é a sua relação com a prática?
Iniciei aos 17 anos porque eu surtava ou fazia alguma coisa para me acalmar. Na época, eu estava viciada em café, era viciada em adrenalina, era uma pessoa superansiosa, queria fazer tudo para ontem. Eu morava em Nova York e foi quando encontrei o um estúdio de ioga e pensei: 'Ah, vou experimentar um dia'. Marquei um horário, mesmo achando aquilo muito parado. Mas gostei quando fiz a prática, gostei de como me senti. Fiquei muito mais calma. Acabei fazendo constantemente. Meu objetivo era reconectar com o meu corpo, porque eu estava muito na minha mente, querendo fazer mil coisas e sempre me mantendo ocupada. Com o tempo, fui entendendo esse jogo: através de um lugar calmo, você se conhece. Acho que isso me abriu muitas portas que hoje me permitem compreender as coisas com mais sentido.
Como concilia a demanda de trabalho e viagens com o autocuidado?
É difícil ter uma rotina. Então, dentro de uma vida agitada, tento fazer o que eu posso. Hoje, por exemplo, eu fui cuidar da minha pele e do meu quadril, que eu lesionei recentemente porque estou pegando muito pesado na academia. Mas sentir os sinais do seu corpo e prestar atenção no que ele quer dizer também é importante, mesmo que a rotina esteja agitada. O corpo é a nossa casa e o cuidado com ele é fundamental para uma vida equilibrada e feliz.
Como lida com as pressões estéticas? Elas continuam?
Nós, modelos, temos esse dever com o nosso corpo, de mantê-lo 'perfeito' o tempo todo, de controlar as medidas. Caso contrário, não entramos na roupa e não conseguimos trabalhos. Nesse mercado que estou há 30 anos, percebi que é difícil driblar essa questão porque quem nos contrata, geralmente, espera o físico do início da nossa carreira. E, com o tempo, a gente vai envelhecendo e o nosso corpo não vai mais responder tão bem quanto você gostaria. Não sou mais tão magra como era quando comecei. Eu não posso crescer muito mais do que 92 centímetros de quadril, senão estou fora do mercado. Por exemplo, eu acabei correndo demais na esteira e machuquei meu quadril. Então, a idade grita de vez em quando.
Qual sua relação com outros tipos de exercício físico?
O exercício físico ajuda em tudo. Em primeiro lugar, preciso diminuir meu quadril, acabei de chegar de viagem e minha vontade de ir à academia era zero. E foi nessa pressão que eu acabei machucando o quadril. Mas também percebo que com o exercício físico nossa cabeça fica muito mais leve, a gente tem pensamento mais positivos. É um hábito necessário para tudo.
Continuar na moda, assim como no esporte, por exemplo, é mais complexo quando se ultrapassa os 40 anos. Como lida com essa questão na carreira? Como encara a longevidade?
Todo mundo vai envelhecer. É uma coisa natural. Não tem como você ir contra. Acho que podemos apenas retardar um pouquinho mais, principalmente a aparência física, porque, hoje em dia, podemos fazer tanta coisa. Claro, sem perder a mão. Acredito que aceitar a sua idade é o primeiro passo da felicidade. Eu não escondo que eu tenho 43 anos, acabei de fazer. Olho para mim e falo: 'Gente, eu estou ótima. Estou mais feliz, me sinto mais bonita!'. Obviamente, me rendo ao botox, porque é algo que me faz bem. Sinto meu rosto mais firme e hidratado. Então, trato isso da forma mais natural possível. Não vou tomar um remédio, por exemplo. Vou buscar algum medicamento à base de planta que pode me acalmar.
Como avalia a carreira que construiu ao longo dessas três décadas, suas conquistas?
De fora, todo mundo pensa: 'Sua carreira é consolidada'. Eu nunca pensei que minha carreira fosse consolidada. Nunca tive essa coisa de olhar para trás, mesmo sendo uma canceriana. Só consigo olhar para frente e pensar no que eu quero mais, o que vou fazer, qual direção vou. E o que me mantém viva no mundo da moda, até hoje, é a possibilidade de criar diversos personagens. Adoro fazer coisas diferentes. Colaboraram: Giovana Abrantes, Bruno Felix, Enrico Souto e Gilberto Barbosa
Expediente
4º Curso Estadão de Jornalismo de Saúde
Repórteres: Adan Neto, Beatriz Garcia, Bruno Felix, Enrico Souto, Fabrícia Braga, Francielly Barbosa, Gabriella Braz, Gilberto Barbosa, Giovana Abrantes, Giovanna Massaro, Jhulia Caballero, João Marcello Santos, Lóren Souza, Lucas Allabi, Maria Raquel Brito, Nathalia Tetzner, Paloma Xavier, Rodrigo Matana, Sarah Cardoso Nogueira e Vitória Floro | Coordenação e edição: Carla Miranda e Ítalo Rômany | Produção: Eliane Damaceno e Victor Hugo Mendes