Há uma escolha clara em Zico, o Samurai de Quintino, documentário de João Wainer que homenageia a vida e a trajetória de Arthur Antunes Coimbra, o eterno Zico: em vez de tentar abarcar toda a vida do atleta, o filme entende que o essencial está no recorte. Ao rejeitar o formato enciclopédico, comum em produções do tipo, a narrativa encontra força justamente ao nos mostrar aquilo que não está na Wikipedia.
Como compreender que um dos maiores atletas de sua geração, ídolo máximo do Flamengo, e tido até hoje como um dos grandes do futebol brasileiro e mundial, saiu do Brasil para ir ao Japão jogar no Sumitomo Metals, time de fábrica que atuava em uma divisão amadora. O foco não está em entender a polêmica decisão de Zico, mas sim em mergulhar no seu íntimo e entender que aquilo era para ser. O resultado é um retrato que foca no espírito do homem por trás do ídolo.
Longe do didatismo de cinebiografias documentais, O Samurai de Quintino se constrói como uma longa conversa entre amigos — íntima, fluida e, sobretudo, honesta. O ídolo é atravessado por memórias, dúvidas e pequenas revelações que raramente encontram espaço em outros tipos de produções ou programas. É nesse tom amistoso e convidativo que o filme encontra sua identidade, permitindo que o espectador se aproxime não apenas do craque, mas do homem que sustenta o mito.
A montagem é outro ponto de destaque. O vasto material de arquivo — digitalizado com um perfeccionismo que salta aos olhos — não serve apenas como lembrança, mas como extensão emocional do relato. Imagens raras, registros familiares e momentos esquecidos ajudam a construir uma narrativa que alterna entre o público e o privado com naturalidade. Há uma sensação constante de descoberta, inclusive para o próprio Zico, que admite ter sido surpreendido por fragmentos de sua própria história.
Mas talvez o maior acerto do documentário esteja na maneira como traduz a essência de Zico, ou, como dizem os japoneses "o espírito de Zico": disciplina, responsabilidade e um senso coletivo quase obsessivo. A famosa história sobre nunca ter perdido uma viagem em seis décadas no futebol pode soar apenas uma piada à primeira vista, mas, dentro do contexto do filme, ganha dimensão simbólica. É esse rigor silencioso que ajuda a explicar o jogador dentro de campo — um talento extraordinário sustentado por uma ética ainda mais rara.
No fim, Zico, O Samurai de Quintino vai além da reverência ao ídolo e, para alguns, herói. O documentário reafirma algo que costuma ser dito com certo cinismo — "não conheça seus ídolos" — apenas para desmontar essa ideia com delicadeza. Conhecer Zico não diminui o o que ele significa; pelo contrário, amplia. Ao revelar suas camadas mais humanas, o longa sugere que algumas trajetórias não precisam ser protegidas da realidade. Às vezes, elas só ficam maiores quando vistas de perto, ainda mais se for em uma sala de cinema.