O Ministério Público de Roma reabriu a investigação sobre o assassinato do cineasta Pier Paolo Pasolini, ocorrido há 51 anos. A decisão atende a um pedido do advogado Stefano Maccioni, que apresentou novas evidências, incluindo imagens de arquivo e a identificação de uma testemunha inédita que nunca depôs. O objetivo é esclarecer se outras pessoas participaram do crime, contestando a versão de que Giuseppe Pelosi, o único condenado pelo assassinato em 1975, teria agido completamente sozinho.
Mais de cinco décadas após a morte de Pier Paolo Pasolini, o Ministério Público de Roma autorizou a reabertura da investigação sobre o assassinato do cineasta, poeta e escritor italiano. A decisão foi comunicada em 2 de novembro, data que marcou 51 anos desde que seu corpo foi encontrado em uma praia de Ostia, nos arredores da capital italiana. Novos elementos apresentados à Justiça, incluindo a identificação de uma testemunha que nunca havia sido ouvida pelos investigadores, podem ajudar a esclarecer as circunstâncias do crime.
Pasolini tinha 53 anos quando foi assassinado, em 1975. Intelectual de esquerda e abertamente homossexual, ele era uma das figuras mais provocadoras da cultura italiana, com uma obra marcada por críticas sociais, políticas e religiosas. A brutalidade do crime e as sucessivas contradições envolvendo o único condenado pelo assassinato alimentaram suspeitas de que outras pessoas poderiam estar envolvidas.
O principal responsável pela iniciativa é o advogado Stefano Maccioni, que há 18 anos se dedica a investigar o caso. Em novembro de 2025, ele apresentou um novo dossiê ao Ministério Público, posteriormente complementado com informações obtidas a partir de registros jornalísticos e uma reavaliação das provas. Segundo o advogado, o material aponta para a existência de uma pessoa com conhecimento dos acontecimentos que nunca prestou depoimento às autoridades.
A identidade da possível testemunha e o conteúdo de suas informações ainda não foram divulgados. O novo procedimento foi encaminhado à promotora Silvia Santucci, que deverá conduzir as diligências. Entre os elementos apresentados também estão imagens de arquivo da televisão italiana, que podem contribuir para esclarecer a participação de outras pessoas na morte do cineasta.
O que aconteceu com Pier Paolo Pasolini?
O corpo de Pasolini foi encontrado em 2 de novembro de 1975 por um carpinteiro, na região litorânea de Ostia. O cineasta apresentava numerosos ferimentos e havia sido atropelado pelo próprio automóvel. Poucas horas depois, a polícia prendeu Giuseppe Pelosi, então com 17 anos, que estava dirigindo o carro da vítima.
Pelosi afirmou que havia conhecido Pasolini em Roma e que os dois tinham combinado um encontro sexual. Segundo sua primeira versão, ele matou o cineasta depois de reagir a uma suposta tentativa de violência. O jovem confessou o assassinato e acabou condenado a nove anos e sete meses de prisão.
As circunstâncias da morte, entretanto, levantaram questionamentos desde o início. Ao longo dos anos, Pelosi apresentou diferentes versões sobre o ocorrido. Em algumas delas, afirmou ter agido sozinho; em outras, disse que havia sido acompanhado por três homens ou até seis pessoas.
Em 2005, durante uma entrevista à televisão italiana, ele voltou atrás na confissão e declarou que Pasolini havia sido espancado por outros agressores, que teriam ameaçado sua família caso não assumisse a responsabilidade pelo crime. Pelosi morreu em 2017, aos 58 anos, sem que as contradições de seus depoimentos fossem esclarecidas.
Novas provas podem mudar o caso
A reabertura representa mais uma tentativa de esclarecer um assassinato que, ao longo de décadas, alimentou suspeitas de acobertamento e diferentes teorias sobre os responsáveis. Em 2010, a pedido de Maccioni, o Ministério Público já havia iniciado uma investigação complementar, encerrada cinco anos depois. Novas solicitações apresentadas pelo advogado em 2016 e 2023 também foram rejeitadas.
Desta vez, além da possível testemunha inédita, o material reúne imagens de arquivo e outros registros que, segundo Maccioni, podem ajudar a reconstruir os acontecimentos. O advogado afirma que há elementos suficientes para questionar a hipótese de que Pelosi tenha agido sozinho.
Outra questão envolve vestígios de DNA identificados em objetos e roupas relacionados ao crime. Exames realizados anteriormente apontaram diferentes perfis genéticos, mas não conseguiram identificar todas as pessoas que poderiam ter deixado os materiais. A possibilidade de aprofundar essas análises também integra as dúvidas que cercam o caso.
As suspeitas sobre a morte de Pasolini deram origem a livros, documentários, reportagens e investigações independentes. Entre as hipóteses levantadas ao longo dos anos estão o envolvimento do crime organizado, de grupos de extrema-direita e de pessoas interessadas em silenciar o artista por suas posições políticas e críticas à sociedade italiana.
Uma das teorias também relaciona o assassinato ao desaparecimento de rolos de película de Salò ou os 120 Dias de Sodoma (1975), último longa-metragem dirigido por Pasolini. Há suspeitas de que o cineasta tenha sido atraído a uma emboscada sob a promessa de recuperar o material roubado. Nenhuma dessas hipóteses, porém, foi comprovada judicialmente.
Para Maccioni, a reabertura representa um avanço, embora ainda exista um longo caminho até possíveis respostas. O advogado descreveu as novas evidências como pequenos fragmentos de um quebra-cabeça muito maior e afirmou que, mesmo depois de tantos anos, continua encontrando motivos para voltar ao caso.