'Toy Story 5' é correto, bonito e divertido, mas falta alma

Se o coração de ninguém parece estar realmente no filme, talvez seja a hora de abrir espaço para outros brinquedos e dar início a novas histórias

21 jun 2026 - 17h36

A turma toda está de volta em Toy Story 5, a mais recente — e longe de ser a maior — aventura da Pixar sobre um coletivo de brinquedos infantis. Há Woody, é claro, o caubói de rosto comprido e braços soltos dublado por Tom Hanks desde tempos imemoriais (ou melhor, desde 1995, quando o primeiro filme da franquia estreou). Naquela época, Woody era o rei bondoso do seu pedaço, um mundo encantado no qual os brinquedos ganham vida magneticamente, andando e falando quando os humanos não estão por perto. Como seus companheiros, Woody pertencia a Andy, um garoto doce que partiu corações — na tela e fora dela — conforme crescia e começava a deixar de lado suas coisas de criança.

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Ao final do quarto filme, Andy era uma memória distante, Woody estava no mundo — assumindo a identidade de um "brinquedo perdido" — e o resto dos companheiros pré-fabricados estava na casa de outra criança, Bonnie. Agora dublada por Scarlett Spears, Bonnie é o centro aparente deste novo longa, embora, como no passado, a história se concentre mais em seus brinquedos, na percepção que eles têm de seu próprio propósito e em como navegam pela vida doméstica e pelo mundo lá fora. Assim como as crianças, os brinquedos precisam negociar medos e ameaças existenciais por meio de tentativa e erro e, embora pareçam quase indestrutíveis, o tempo, previsivelmente, cobrou o seu preço.

Jessie em cena de 'Toy Story 5', em cartaz nos cinemas
Jessie em cena de 'Toy Story 5', em cartaz nos cinemas
Foto: Disney/Divulgação / Estadão

Isso certamente se aplica a Woody, que surge no quarto de Bonnie para um reencontro complexo com os amigos, incluindo seu melhor parceiro, Buzz Lightyear (Tim Allen), um sujeito meio lento dentro de um capacete de bolha. Por fora, Woody parece quase o mesmo, apesar do lenço jogado sobre o corpo como um poncho. É um visual que evoca o pistoleiro "Homem sem Nome" de Clint Eastwood nos faroestes de Sergio Leone, uma alusão que parece mais direcionada a nerds de cinema do que a adultos normais.

Cada público também pode dar risada da barriga saliente de Woody e de sua calvície no topo da cabeça, consequência de tanto tirar o chapéu. O tempo está, mais uma vez, no cardápio de Toy Story 5, embora de maneiras que a equipe nos bastidores nunca consiga administrar de forma totalmente satisfatória.

'Toy Story' já abordou temas complexos

O diretor Andrew Stanton (cujos créditos incluem Wall-E) esteve envolvido na criação de todos os filmes da franquia e aqui, com a codiretora Kenna Harris, costurou uma história que revisita algumas grandes questões. Em sua superfície alegre, este é um filme sobre uma criança imaginativa e extremamente tímida que anseia por conexões humanas. É sobre solidão e o desejo de pertencer. É também sobre alguns dos temas complexos — brincadeira, individualidade, obsolescência, consumismo — que a franquia abordou, de forma superficial e tocante, desde o início.

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Entre os temas mais assustadoramente atuais agora está o modo como as pessoas se agarram à sua humanidade na era do tecnocapitalismo, mesmo quando este reduz os indivíduos a dados comercialmente exploráveis.

Em outras palavras, Bonnie ganha um tablet. Chamado Lilypad, o aparelho é um dispositivo até que bonitinho (dublado por Greta Lee), pelo menos por fora, com uma borda verde encimada por um sorriso e dois olhos esbugalhados. Parece que um sapo engoliu um iPad, ou talvez o inverso, e embora isso soe tão bizarro quanto seu comando autoritário ("Vamos brincar!"), Bonnie logo fica tão zumbificada pela tela quanto as outras crianças pela cidade, com os rostos banhados por uma misteriosa luz azul-branca.

As máquinas vieram buscar as crianças, o que vira o mundo dos brinquedos de Bonnie de cabeça para baixo, incluindo sua favorita, a caubói Jessie (Joan Cusack). Como Woody, Jessie tem uma corda de puxar e parece ter sido fabricada quando os próprios cineastas eram crianças (ou mais velhos); como ele, ela é perfeitamente capaz de correr para o resgate.

Buzz Lightyear e Woody se reencontram em 'Toy Story 5'
Foto: Disney/Divulgação / Estadão

O elenco adiciona vivacidade e emoção às palavras. Uma das coisas genuinamente mais pungentes sobre este filme é que, embora o tempo tenha apenas arranhado levemente os brinquedos ao longo de todos esses anos, é possível ouvir a passagem do tempo nas vozes dos atores, em especial nas de Hanks e Allen. A performance vocal de Joan Cusack, com seu sotaque de Chicago e dicção rápida, também é um deleite e brilha mesmo quando o diálogo não ajuda.

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Bonnie é uma personagem cativante, mas os cineastas parecem apenas marginalmente interessados nela, e isso fica evidente. Não é de admirar que as sequências mais vibrantes emocional e visualmente envolvam Jessie, incluindo alguns flashbacks e sessões de brincadeira com animações impressionantes que parecem desenhadas à mão em tons pastel.

Há um limite até onde os cineastas — que trabalham, afinal de contas, em um estúdio famoso por sua inovação tecnológica — conseguem levar essa história. E assim, como era de se esperar, eles simplesmente param de pressionar e, em vez disso, desviam dos problemas mais espinhosos para gastar tempo demais em mais um romance arrastado padrão Pixar.

Por outro lado, Stanton e sua equipe introduzem alguns novos personagens, incluindo uma garota cheia de atitude, Blaze (Mykal-Michelle Harris), que tem uma cabeleira cacheada armada e seus próprios brinquedos, incluindo um boneco de ação que parece usar um tutu rosa.

Blaze adiciona uma bem-vinda lufada de energia aos acontecimentos que, apesar de algumas cenas de ação mirabolantes, nunca chegam a decolar. É um filme correto, bonito e divertido, mas se o coração de ninguém parece estar realmente nele, talvez seja a hora de abrir espaço para outros brinquedos.

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